Purgatório da Meia-Noite - Um Romance de Máfia

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Capítulo 3 3

3

ALYSSA

Eu decido ir a pé.

Primeiro, porque não quero que ele ache que eu quero que ele me carregue.

Segundo, porque, se ele sequer tentar, eu vou ficar tão vermelha que até astronautas passando pelo espaço vão conseguir enxergar minhas bochechas rubras. O Uri vai sentir eu irradiando um calor de vergonha em nível nuclear e vai concluir o óbvio: que eu estou completa e perdidamente apaixonada por ele.

O que eu definitivamente não estou. Tirando o fato de eu ter uma apreciação bem saudável pelo físico dele, duro como pedra, e pela estrutura óssea simétrica, né. Quer dizer, atração física é só superficial, certo? Praticamente não significa nada.

Quer dizer, ok, eu já fiquei encarando ele no passado, do cantinho de leitura do meu quarto. Mas eu também encaro o Henry Cavill. Não quer dizer que eu esteja apaixonada por ele.

É uma caminhada longa e silenciosa pelo gramado de volta até a mansão. Ele me leva para dentro sem nenhum pingo de orgulho, nem o menor sinal de que sabe que mora na porra do Taj Mahal de Los Angeles. Eu faço o possível para não ficar boquiaberta enquanto passamos por janelas de pé-direito duplo, do chão ao teto, quadros a óleo escuros e sofás de couro preto grandes o bastante para acomodar todo mundo que eu já conheci.

A sala de estar dá para o jardim, que aparece através das enormes janelas em arco que acompanham a curva do cômodo. Uma empregada que estava limpando um dos cantinhos se assusta quando vê o Uri e, em seguida, fica vermelha feito pimentão.

É, eu te entendo, amiga. Mas melhor você do que eu.

— Mariska, você pode trazer o kit de primeiros socorros, por favor?

Hm — educado com os funcionários da casa. Não esperava por essa.

Por outro lado, o que eu esperava? Não é como se eu soubesse tudo sobre esse homem. Mas eu também estaria mentindo se dissesse que não sei nada.

Eu sei que ele gosta de receber mulheres. Na maioria, loiras com proporções sobre-humanas, nível Kardashian. Mas não é a única informação que eu tenho.

Eu também sei que ele gosta de jogar uma bola de futebol americano na parte da frente da propriedade, com um rapaz mais novo que se parece demais com ele para não ser irmão. Eu ainda lembro da primeira vez em que vi os dois brincando. Meu olhar foi atraído primeiro pela perfeição esculpida do abdômen do Uri, sem camisa. Mas ficou preso por causa do jeito como ele interagia com o irmão. Não era aquela energia típica de sem gracinha, não mexe comigo, que ele sempre exala, mesmo a cem metros de distância. Era algo mais... normal.

Ele parecia um cara comum. Quer dizer, comum se o cara comum tiver mais de um metro e oitenta, bíceps impecáveis, abdômen trincado e um rosto capaz de fazer anjos chorarem. Mais importante: ele parecia um irmão mais velho se divertindo com o irmão mais novo.

Isso me lembrou como eu e a Ziva costumávamos ser uma com a outra. Confortável. Simples. Leve.

Me deixou triste, com inveja e carente ao mesmo tempo. Esse era o verdadeiro motivo de eu talvez estar interessada demais no Uri Bugrov. Esse era o verdadeiro motivo de eu não conseguir odiar ele completamente.

E talvez, só talvez, esse também fosse o motivo de eu ter simplesmente aceitado esse convite para entrar na casa dele.

Porque eu queria ver se existe um ser humano por trás daquela máscara impecável.

— Senta.

Eu obedeço antes mesmo de perceber o que estou fazendo, pegando uma cadeira de frente para as janelas. Eu faço uma cara feia para a minha submissão, mas já é tarde demais para criar coragem, então eu só suspiro e me largo no assento. Ele não estava errado — minha perna realmente dói.

— Você tem uma casa bonita — comento.

Ele não sorri como a maioria das pessoas quando recebem um elogio desses. Só faz um aceno apático com a cabeça. — Tenho.

— A humildade é de cair o queixo.

— Uma das minhas melhores qualidades.

Ele nem está me olhando. Está revirando um armário ali perto. Eu pigarreio, sem jeito, enquanto olho ao redor procurando algum assunto. Eu não sou das melhores com silêncios tensos. Nem com silêncios constrangedores. Na real, com silêncio nenhum.

— Você mora sozinho?

Ele franze a testa, como se a pergunta fosse ofensiva. — Tenho funcionários. Alguns moram aqui na propriedade.

— Sem família?

Talvez o cara que eu já vi jogando futebol com ele não seja de fato o irmão dele. Talvez seja só um amigo? Um colega de trabalho? Um amante secreto?

Ora, isso sim seria uma reviravolta.

Dou uma olhada pela sala e reparo que a empregada, Mariska, deixou a porta do armário que estava limpando aberta. Dá para ver uma moldura aparecendo, meia foto, alguns rostos sisudos.

— Aquela é a sua família?

Antes que eu perceba, a porta do armário bate com força. Os olhos azuis de Uri me atravessam, impacientes. — Eu não falo sobre a minha família. Não me pergunte sobre eles de novo.

Uau. Que porra foi essa?

Por outro lado, eu me lembro de quando começaram a me perguntar da Ziva logo depois do funeral. Eu mandei todo mundo ir se foder. Vindo da Shylyssa, aquelas palavras tiveram mais veneno do que eu pretendia. Mas me deram o que eu queria: solidão.

— Tá — eu engasgo. — Não vou.

As sobrancelhas dele se erguem, como se ele fosse dizer mais alguma coisa. Aí Mariska volta para a sala de estar com um kit de primeiros socorros bem parrudo.

Ele pega das mãos dela. — Obrigado, Mariska. Pode tirar a noite de folga, por favor.

Ela dá um sorriso sem graça e sai de fininho. E tudo o que eu consigo pensar é: Não, Mariska, não me deixa sozinha com ele!

Embora eu ainda não tenha decidido se é porque eu não posso confiar nele...

Ou porque eu não posso confiar em mim.

Olho para o corte na minha coxa. Quase parou de sangrar, mas parece um rasgo bem feio. Uri se senta na mesa de centro entalhada, com tampo de vidro, à minha frente e abre o kit de primeiros socorros.

— Coloca a perna no meu colo.

— Como é? — quase engasgo com a própria língua, enquanto ele me encara com uma sobrancelha levantada.

— Sua perna — ele repete, devagar de propósito, como se eu fosse burra. — No meu colo. A não ser que você prefira que eu tente te enfaixar de longe.

Eu engulo em seco. — Ah... certo. Tá. Ok...

Com cuidado, ergo a perna e apoio sobre o joelho dele, de modo que meu pé fica pendurado na mesa de centro atrás dele. O calor do corpo dele se infiltra na minha pele. Ele examina o ferimento por alguns segundos longos, antes de pegar com as duas mãos o tecido da minha meia-calça fina demais...

... e rasgar como se fosse o Hulk.

— O que você acha que está fazendo? — protesto, enquanto a meia-calça se abre, inútil, como pétalas murchas.

— Eu preciso ver o ferimento direito e o tecido está me atrapalhando. Além disso, já estava destruída, então eu não fiz nada com você que você mesma não tenha feito. Agora para de drama e deixa eu cuidar disso antes que infeccione.

Eu fecho a boca na hora, mas o calor se espalhando dentro de mim não é brincadeira. Eu bem que precisava de um banho bem gelado agora.

Por mais de um motivo.

Os dedos dele roçam a parte interna da minha coxa, e eu puxo o ar. Quando ele levanta os olhos e encontra os meus, eu me pego incapaz de desviar.

E lá vem o rubor. Fico decepcionada comigo mesma por não ter aguentado nem isso. Mas, pensando bem, era uma batalha perdida desde o começo.

“E-eu… você não precisa fazer isso”, eu disparo.

Ele nem levanta a cabeça de onde os dedos estão pressionando minha pele. “Você está na minha casa, com a calça destruída, com a sua coxa apoiada na minha perna. A gente já chegou até aqui. Não faz sentido voltar atrás agora.”

Eu olho para baixo e faço que sim com a cabeça, torcendo para ele não ter notado o vermelho no meu rosto. Ah, para, Alyssa. Claro que ele notou. Minha pele, que normalmente já é clara, vai de “quase anêmica” para “vermelha, tipo queimadura de sol” em questão de segundos. Sutil não é.

Fico em silêncio enquanto ele limpa o ferimento com um cotonete, tirando a sujeira. Para um homem tão grande e bruto, ele é meticuloso e cuidadoso.

“Você já lidou com muitos ferimentos sangrando na vida?”, eu brinco.

“Muitos. Mas eu geralmente não fico para a parte do curativo.”

“Ha-ha”, eu digo, sem graça. “Dando um novo sentido pra expressão ‘mata-mulheres’.”

Ele não esboça nem um sorriso. Mas continua limpando a minha coxa ensanguentada.

Meu coração dispara tão rápido que as palmas das minhas mãos começam a suar. Todos aqueles boatos sobre máfia voltam correndo pra minha cabeça. E não é como se fossem difíceis de acreditar. Quero dizer, o homem mora num terreno murado, cercado de todo tipo de segurança que existe. Eu não faço ideia, agora, de por que achei que invadir isso aqui era uma boa ideia.

Uri recua de repente e eu dou um pulo. Ele para, prendendo o olhar em mim. “Pode relaxar. Eu só vou pegar o desinfetante.”

Eu pigarreio. “Certo. Claro. Eu… eu sabia.”

Ele enfia a mão no kit e tira um frasco. “Você está com medo de mim, Alyssa?”

“Quem, eu?” Um arrepio sobe e desce pela minha coluna. “Não. Nunca.”

Uri abre um meio sorriso sombrio. “Você vai ter que se sair melhor do que isso se quiser que eu acredite. Eu sinto o cheiro de uma mentira de longe.”

É coisa da minha cabeça ou a mão dele apertou mais a minha perna? Isso era uma ameaça? Um joguinho de poder? Eu sou uma mulher morta andando? A minha piada de “mata-mulheres” foi direta demais?

Fica calma, eu digo pra mim mesma. Não deixa ele ver que está te afetando.

“Talvez eu esteja um pouco assustada. Quer dizer, olha onde você mora. Olha como você vive. É intimidante pra caramba. E sim, você também é—mas se você sorrisse mais, talvez ajudasse.”

“O que te faz pensar que eu estou tentando ajudar?”

Uma fisgada de dor na minha perna corta qualquer resposta que eu estava prestes a dar. Eu olho para baixo e só então percebo que ele está passando o desinfetante.

“Um aviso teria sido legal”, eu retruco.

“A dor raramente vem com aviso, narushitel.”

A mão dele roça a minha coxa e o calor sobe de novo. Ótimo, era tudo o que eu precisava. Mais calor pra aumentar ainda mais o suor. Ele parece alheio ao conflito mental que está acontecendo na minha cabeça. A maioria das pessoas tem um botão interno de lutar ou fugir. Eu? Eu tenho um de fugir ou travar. E hoje à noite ele está preso no travar.

Eu cerro os dentes. “Isso está demorando.”

“Vai te ensinar a escalar a cerca dos outros.”

Eu faço uma careta. “Não tem motivo pra suas cercas serem tão altas. Nem tão pontudas.”

“Considerando que uma vizinha intrometida tentou escalar hoje à noite, eu tendo a discordar.”

“Eu não sou intrometida!”

“Então por que você estava tentando escalar a minha cerca?”

Lá vem de novo — a reação de travar. Porque eu precisava recuperar meu dildo roxo gigante, é por isso.

“Eu… ahn…” Só conta a verdade pra ele. Dá pra resolver fácil. “Eu só precisava de uma coisa.”

“Ninguém pega nada da minha propriedade sem ter a minha permissão antes.”

Dito assim, realmente soa idiota. Eu mal consigo lembrar por que achei que eu era o Jason Bourne em vez de simplesmente ir até o portão e pedir com educação, como uma pessoa normal.

Sou eu quem desvia o olhar primeiro. “Quer saber? Eu não preciso do curativo, sério. Eu consigo—”

“Fica parada”, ele rosna. A voz dele é afiada como um chicote, e minha bunda volta pro lugar na hora. “Você vai ficar sentada aí até eu dizer o contrário.”

Eu começo a me perguntar se talvez eu devesse estar entrando em pânico agora. Estou na casa de um homem estranho, à mercê de um homem estranho. E daí que ele é bonito e rico? E daí que ele exala esse charme sombrio, estranhamente sedutor, que me faz arrepiar e suar ao mesmo tempo sempre que ele me toca? Aposto que um monte de assassino em série é carismático.

Mas Uri não dá sinal nenhum de que vai me deixar ir. Ele enfaixa minha coxa com cuidado, as sobrancelhas erguidas o tempo todo. Ele parece furioso — mas, por outro lado, ele está com essa cara desde o segundo em que se aproximou, tranquilão, e me pegou pendurada na cerca dele.

A dor na minha perna diminuiu para uma ardência leve e totalmente suportável. “Obrigada”, eu murmuro, baixinho.

“Ah, eu não agradeceria ainda.”

Eu engulo em seco. Toda vez que meu coração finalmente acalma, ele diz alguma coisa pra acelerar tudo de novo.

Ele espera um instante, então o canto da boca dele se mexe um grau pra cima. É o mais perto que eu já vi de um sorriso. Ele apoia meu pé no chão com cuidado e, em seguida, se ergue até a altura toda. “Vamos. O jantar já deve estar na mesa.”

Isso está mesmo acontecendo? Ao que parece, sim, porque Uri se levanta e começa a sair da sala sem nem se dar ao trabalho de olhar pra trás. Ele tem certeza absoluta de que eu vou atrás.

“Espera!” eu protesto, me colocando de pé de um jeito desajeitado.

Ele olha pra mim por cima do ombro. “Sim?”

“Eu… eu não posso jantar aqui.”

“Por quê?”

Mil respostas óbvias pulam na minha cabeça. Porque você tem ligação com a máfia! Um histórico de negócios suspeitos! Segurança exagerada, rumores preocupantes, um sorriso que faz minhas pernas virarem macarrão mole. Escolhe uma.

A Ziva talvez tivesse dito isso na cara dele.

Mas a Shylyssa não.

“Porque… bem… olha pra mim.” Eu nem sei por que estou apontando pras minhas coxas. Era só o que me faltava — mais atenção pro meu estado constrangedor de seminudismo.

A boca dele se repuxa pra cima. “Eu já vi o gato laranja na sua calcinha, Alyssa. Trocar agora não vai fazer eu desver. Agora, vem.”

Tem tanta autoridade na voz dele que eu sinto que não tenho escolha. Um jantar não vai me matar, né?

Espero que não.

Então eu sigo ele até a mesa de jantar, torcendo pra Deus que eu não acabe sendo a entrada.

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