Purgatório da Meia-Noite - Um Romance de Máfia

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Capítulo 2 2

2

URI

Tem uma garota quase nua pendurada na minha cerca.

Eu paro a alguns passos dela e fico avaliando a cena. Ela está balançando, indefesa. Uma mão agarrada no topo das tábuas — tão perto da liberdade e, ao mesmo tempo, longe pra caralho. Tem algum tipo de gato laranja de desenho estampado na bunda dela. O tecido rasgado da legging fica batendo ao vento.

Ela não parece com nenhum assassino que já tentou me matar.

Mas sempre existe uma primeira vez pra tudo, então, por enquanto, eu mantenho distância.

“Que porra você tá fazendo na minha propriedade?”, eu rosno.

Ela se debate onde está pendurada, o suficiente para a cortina de cabelo cair para trás e revelar o rosto. Eu reconheço vagamente: é a garota que mora ao lado, naquele puxadinho que a prefeitura não me deixou botar abaixo com um trator.

“A maioria das pessoas ofereceria uma ajudinha pra descer”, ela ofega. Ela chuta de novo e puxa o ar com um gemido de dor.

Meus olhos descem e eu vejo sangue na pele dela. Um prego solto foi o responsável por abrir um corte. Ela precisa de atendimento e de uma vacina antitetânica.

Mas ela escolheu a propriedade errada pra invadir se quer um bom samaritano do caralho.

“Isso não responde a minha pergunta.”

“Eu—” Ela tosse e faz outra careta. “Não consigo respirar…”

Meu Deus. Se ela for mesmo um dos matadores de aluguel do Boris Sobakin, como eu suspeitei no primeiro instante, então essa é a tentativa mais patética dele até agora.

Seria fácil deixar ela aqui. Minha segurança viria fazer o que foi treinada pra fazer com ladrões e possíveis criminosos. Ela sumiria pra sempre. Porra, eu talvez finalmente conseguisse reduzir a casa dela a entulho.

Mas alguma coisa me impede. Que se dane se eu sei o que é. Pena, talvez.

Ou talvez seja a curva da perna dela aparecendo por baixo da legging destruída. Talvez seja o quanto me deprime aquela calcinha desbotada de tanto lavar, calcinha de quem nunca foi vista por um amante. Ela conta a história de uma vida passada fugindo do olhar de homens como eu — homens que dominam tudo o que colocam na frente. Talvez seja porque eu quero arrancar aquilo e ver se a boceta dela é tão doce e inocente quanto o resto dela.

“Pena” é a explicação mais simples, no fim.

Revirando os olhos, eu avanço. Coloco as duas mãos nos quadris dela, ergo com cuidado, afastando-a do prego que estava pra fora, e ponho ela no chão, de pé.

Eu deveria deixar ela ir embora assim que terminasse. Mas minhas mãos ficam coladas na cintura dela por alguns segundos a mais do que deveriam. Meus olhos perfuram os dela. Ela tem íris azul-claras, quase translúcidas, um azul de algodão-doce. Os lábios são macios, em formato de arco, e um arzinho assustado passa por eles quando ela me encara lá de baixo e engole em seco.

Inocente demais, por um quilômetro. Eu tiro as mãos dos quadris dela e enfio nos bolsos, onde elas pertencem. Só encostar nessa garota já é quase o bastante pra estragar ela. Alimentar minhas fantasias de rasgar aquela calcinha do gato laranja em pedaços com certeza terminaria o serviço.

“Eu não sou a maioria das pessoas”, eu murmuro.

Ela recua e pisca, confusa. “O quê?”

“Você disse que ‘a maioria das pessoas’ ajudaria você a descer. Eu não sou a maioria das pessoas.”

“Ah. Tá. Ahn… é. Óbvio. Pra começar, você mora num castelo.”

Eu dou uma risada pelo nariz e olho por cima do ombro, na direção da minha casa. Comparada ao barraco minúsculo dela, a minha realmente tem um certo ar de castelo. “Inveja não combina”, eu comento, voltando o olhar pra ela.

A garota revira os olhos. “Ah, o luxo de poder cagar num banheiro diferente todo dia da semana. Bom saber que isso não subiu à sua cabeça.”

“Eu já era um babaca egocêntrico muito antes da casa.”

Ela bate duas mãos sarcásticas no próprio rosto. “Ah, ele também tem noção de si mesmo!” Depois, fazendo um gesto vago na minha direção, acrescenta: “E você, antes de tudo isso, também era um babaca egocêntrico?”

Eu sigo o gesto dela, confuso. Estou vestindo o de sempre: terno Cesare Attolini grafite, gravata Hermès preta, mocassins Tom Ford tão escuros quanto o meu cabelo. O relógio no meu pulso reflete a lua que vai subindo. “Antes de tudo o quê?”

“Não vem bancar o desentendido, como se não soubesse que se veste bem e é bonito.”

“E não finja que eu seria diferente se não fosse.”

“Meu Deus, você tem uma resposta pronta pra tudo? Dá raiva. Parece que tá lendo um roteiro de filme.”

Eu me mexo no lugar quando a brisa traz o cheiro dela até o meu nariz. Um suor doce e salgado, e perfume de baunilha. Meu pau se agita. “Então o que acontece depois nesse filme?”

Ela cruza os braços sobre o peito. “A gente acabou de estabelecer que quem tem o roteiro é você. Por que não me conta?”

“Jantar”, eu respondo na hora. Minha resposta pega até a mim de surpresa. Eu preciso passar a mão pelo cabelo e me recompor antes de acrescentar: “Você vai sentar na minha mesa e me explicar que porra você estava fazendo na minha propriedade.”

Eu observo com atenção enquanto a garota engole em seco de novo. A garganta dela sobe e desce, nervosa, e ela brinca com uma pulseira de berloques no pulso. Acho que ela nem percebe que está fazendo isso. Eu olho para baixo e vejo um elo com a letra “Z” gravada em ouro rosé enquanto ela o gira de um lado para o outro.

“Acho que não”, ela diz por fim. “Mas é gentil da sua parte oferecer.”

Isso me irrita. As pessoas não me dizem não. Não mais. “Não foi uma oferta, narushitel. Vamos. Você vem comigo.”

Eu começo a me virar para ir, mas ela continua teimosamente plantada no lugar. Eu me viro de volta, exasperado.

“Minha mãe me ensinou faz tempo a não sair por aí indo pra lugares estranhos com gente estranha”, ela explica.

“E a minha me disse pra atirar em invasores assim que visse. A mãe de quem a gente deve escutar?”

Mesmo sob o luar, o rosto dela empalidece. Eu sinto uma pontada de algo que não sinto com frequência: culpa. De repente ela parece apavorada, e eu não a culpo — minha mãe de fato me disse isso, e foi meu primeiro impulso quando minha equipe de segurança informou que alguém tinha passado pelo portão do sudoeste.

Mas atirar nela seria desperdiçar uma bala. Ela não é assassina e não faz a menor ideia de quem eu sou ou que tipo de organização eu comando. Ela é só uma mulher tímida e assustada — embora irritantemente atraente —, então interrogá-la durante um jantar parece castigo suficiente.

Suspirando, eu aponto para ela. “Você abriu a coxa num prego enferrujado. Você está mancando e poupando a outra perna, então eu sei que doeu mais do que você quer admitir. E eu também sei que não existe a mínima chance de você ter uma porra de uma vacina antitetânica extra guardada aí, do lado da salada pela metade e do pão embolorado que, sem dúvida, estão apodrecendo na sua geladeira agora. Eu, por acaso, tenho suprimentos médicos de sobra. Então faça um favor a si mesma: pare de ser teimosa, venha jantar comigo, e eu te dou os cuidados médicos que você precisa. Caso contrário, você vai acordar com trismo, uma acusação por invasão de propriedade e uma cicatriz feia que vai te acompanhar pro resto da vida.”

Ela ainda não parece convencida. Então eu estendo a mão. Ela se encolhe, se afastando, antes de perceber o que eu estou fazendo.

“Eu sou Uri Bugrov”, eu digo. “Não sou mais um estranho.”

Com delicadeza, ela coloca a mãozinha dela na minha. “Alyssa Walsh.”

“É um prazer conhecer você, Alyssa. Agora, você vai andar até a minha casa ou eu vou ter que te carregar?”

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