Capítulo 2
O fedor de pinho falso de um odorizador em spray me atingiu no segundo em que empurrei a porta da frente.
Liam estava no saguão de entrada, lata de aerosol na mão, a testa repuxada num nó de puro nojo enquanto me via cruzar a soleira.
— Você trouxe esse fedor de esgoto pra dentro de casa de novo. — Ele deu um passo brusco para trás e apontou o bico diretamente para o ar ao meu redor, mantendo o gatilho pressionado. — O Noah vai chegar a qualquer minuto pra pegar a partitura do violoncelo. Você está tentando deixar ele doente outra vez?
Não respondi. A fibrose pulmonar fazia com que cada respiração parecesse engolir vidro moído. Arrastei minhas pernas pesadas pelo corredor, desesperada para me recolher ao quartinho apertado no porão que tinha virado meu exílio designado.
— Para. — Liam diminuiu a distância em duas passadas longas e prendeu a mão em volta do meu braço.
Ele me puxou corredor adentro, rumo ao armário de utilidades. O espaço minúsculo era um amontoado claustrofóbico de água sanitária industrial, amônia e desinfetantes pesados.
— Você precisa se acalmar. Tira um minuto pra pensar naquela palhaçada histérica que você aprontou no hospital hoje — Liam disparou, me empurrando para dentro sem a menor hesitação. — E, já que vai ficar aí, usa um pouco dessa água sanitária pra esfregar esse fedor de cadáver da sua pele!
Bam. A porta foi fechada com um tranco, imediatamente seguida pelo estalo seco do clique da tranca girando por fora.
Não havia janelas no armário. A escuridão absoluta e os vapores sufocantes de solventes químicos desabaram sobre mim de uma só vez.
Seis anos atrás. Uma cena de crime selada. A lembrança de quase morrer asfixiada por formol voltou como uma onda gigante, me puxando para baixo. Minha garganta travou, entrando em espasmo, completamente fora de controle.
— Liam... abre a porta... — Eu me atirei contra a madeira maciça, as palmas batendo nela às cegas. A falta de oxigênio arranhava meu cérebro, e manchas vermelho-sangue começaram a florescer na minha visão, no escuro.
— Estou te ensinando a ser civilizada, Chloe — a voz dele atravessou a madeira, assustadoramente serena. — Não usa essas teatrinhas histéricas de sarjeta comigo.
— Por favor... eu não consigo respirar... — Eu arranhei desesperada o batente, as unhas raspando no marco. Ofeguei, lutando por ar, mas tudo o que entrou foram vapores químicos altamente concentrados. Cada respiração parecia acelerar o rasgo dos meus pulmões já petrificados.
Meus joelhos cederam. Meu corpo escorregou pela porta e desabou no chão, num monte incontrolável.
Quando a escuridão ameaçava me engolir de vez — quando eu achei que ia morrer naquele piso de linóleo — a tranca se destravou.
Eu caí para fora do armário às cegas, desabando sobre a madeira. Tosses violentas e ásperas rasgaram meu peito enquanto meus dedos se fechavam num aperto mortal na barra da calça social do Liam.
— Não... nunca mais me tranque aí... — Ergui o rosto, a voz reduzida a um fio. — Eu vou morrer...
Liam me encarou de cima. Não havia uma gota de pena nos olhos dele — só irritação profunda, fervendo. — Fazendo papel de vítima de novo, Chloe. Sério? Você acha mesmo que esse teatrinho barato de autopiedade vai me chantagear emocionalmente?
Ele arrancou a perna da calça com força, livrando-a do meu aperto.
"Você passa quinze horas por dia encarando cenas de crime grotescas numa boa, mas cinco minutos num armário de serviço vão te matar? Você não consegue parar de mentir nunca?"
Eu estava largada no chão gelado, olhando para cima, para o homem cuja vida eu tinha comprado de volta com a minha.
Os últimos seis anos tremeluziram diante dos meus olhos como um pesadelo fragmentado.
Para juntar o dinheiro do transplante de coração dele, eu deixei encarregados de obra descontarem meu pagamento por pura maldade. Eu fiquei ali enquanto famílias enlutadas apontavam o dedo e berravam insultos na minha cara. Teve até tarados doentes que me filmavam às escondidas raspando massa encefálica já liquefeita de carpetes apodrecidos, só para postar na dark web por diversão.
Eu me ajoelhei dentro de uma caçamba fedorenta, infestada de vermes, às duas da manhã, debaixo de uma chuva torrencial, remexendo lixo atrás de um dedo decepado e podre, só para garantir um adicional de periculosidade de mil dólares.
Eu engoli cada grama de humilhação e exploração, acreditando de verdade que estava salvando a minha família.
Mas, olhando para ele agora, a verdade brutal enfim se cristalizou. O marido que eu tinha arrancado da cova ao custo da minha alma tinha usado a minha dignidade como degrau, literalmente. Para ele, o inferno desumano que eu aguentei não era sacrifício; era só prova da minha vulgaridade inerente. Ele desprezava a lama em que eu me arrastei para salvar a vida dele.
"A Mia já deixou tudo organizado para o jantar de sexta-feira", disse Liam, se agachando até ficar na altura dos meus olhos. O tom dele não dava margem nenhuma para negociação. "Não é só uma comemoração da minha promoção. É a nossa festa de noivado. Os principais veículos de mídia e os sócios mais graduados do escritório vão estar lá."
Ele tirou do bolso um acordo de divórcio dobrado e o jogou no chão diante de mim.
"Você vai comparecer e vai assinar este acordo na frente de todo mundo. Você vai mostrar ao mundo que nosso casamento acabou por diferenças irreconciliáveis, não porque eu abandonei minha esposa. É um rompimento público racional, civilizado. Um corte limpo."
Eu encarei a impressão preta e dura no papel branco. Minha garganta parecia inchada, entupida de algodão ensanguentado. "E se eu não for?"
"Então você nunca mais vai ver o Noah." Liam soltou uma risada curta e gelada. "Enquanto você colaborar e assinar na linha pontilhada, você mantém seus direitos de visita e o Noah continua na academia de elite dele. Mas, se você se recusar, eu mando meus advogados entrarem com uma liminar de urgência até amanhã de manhã. Você vai perder todo e qualquer direito legal sobre o seu filho antes mesmo de acordar."
Um silêncio longo e sufocante tomou o corredor.
Eu baixei os olhos para o sangue fresco secando sob as unhas rachadas, sentindo o órgão marcado e falhando apodrecer dentro do meu peito. Duas semanas. Eu tinha exatamente quatorze dias restantes nesta terra.
Naquele instante exato, toda a raiva, toda a dor esmagadora, evaporou. Foi como se tivessem sugado de dentro de mim, deixando apenas um vazio gelado.
Diante de um monstro completamente consumido pela própria arrogância e pelo próprio ego, lágrimas e súplicas eram as armas mais inúteis do mundo.
Devagar, eu desfiz os punhos do assoalho. Tirei um lenço de papel do bolso e, com uma tranquilidade arrepiante, limpei o rastro recente de sangue preto que escorria do canto da minha boca.
Então, usando a parede como apoio, eu me levantei. Centímetro por centímetro, até ficar totalmente ereta.
"Tá bom", eu disse, com a voz absolutamente calma. "Eu vou estar lá."
