Possuída Pelo Inimigo Chefão da Máfia

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Capítulo 4 A Advertência

Valentina

A última mão no centro da mesa ainda brilha como a última brasa numa fogueira.

Existe algo de sagrado no silêncio depois de um espetáculo — como se o ar estivesse prendendo a respiração, esperando a poeira baixar.

Eu continuo sentada. Imóvel. Composta. Não vou ser a primeira a me mexer. Isso pareceria derrota.

Ao meu redor, os jogadores se levantam um a um. As cadeiras raspam no chão. As vozes voltam, baixas e soltas. Os homens se espreguiçam, riem, servem o resto das bebidas. Alguns chamam com um gesto os enfeites da noite — garotas de vestido curto e paciência pintada no rosto. As mulheres vão para o lado deles como moscas em cima de monte de merda.

Eu me pergunto quantas delas já acharam que eram elas que seguravam a coleira — ou se algum dia se deram ao trabalho de se importar.

Eu não olho. Não preciso. Eu não sou uma delas.

Mas eu acabei de me perder na frente de todos eles.

Minha mão — quatro ases — devia ser intocável. Imbatível. E, ainda assim, eu perdi.

Para ele.

Matteo não disse mais uma palavra desde aquela revelação final. Ele me deixou sentada entre os escombros, com o coração costurado no peito por uma linha invisível.

Agora, do outro lado da mesa, ele se levanta.

Sem pressa. Sem precisar encenar nada. Ele já ganhou.

A mão direita dele se move antes do resto do corpo. Um homem construído como um aríete, com as mangas arregaçadas até o cotovelo e olhos que não piscam quando deveriam. Eu o reconheço na hora. Rosco Benetti. O nome tinha passado por relatórios e por conversas sussurradas. Ex-militar. Leal só ao Matteo. Impassível diante de tortura. Conhecido por fazer corpos sumirem com uma precisão aterrorizante.

Rosco se inclina e varre os ganhos da mesa como quem já fez aquilo mil vezes. E eu tenho certeza de que fez. Fichas. Dinheiro. Até as promissórias que alguns homens deixaram para trás escorregam junto. Ele não olha para mim. Não precisa.

Ele já viu centenas de mulheres que fizeram apostas ruins. Provavelmente acha que eu sou só mais uma.

Mas eu não sou.

Eu sou a última aposta ruim que Matteo Genovese vai fazer.

Mesmo que ele ainda não saiba disso.

Matteo termina o último gole da bebida. Pousa o copo — preciso, deliberado. Aí se vira para mim.

“Eu te dou esta noite”, ele diz.

A voz dele é calma. Como se estivesse me fazendo um favor.

“Pra juntar suas coisas. Se despedir da versão de você que existia antes de hoje.” Ele faz uma pausa. “Um carro vai te buscar de manhã.”

Eu ergo o queixo. “Você não sabe onde eu estou ficando.”

Ele levanta uma sobrancelha, devagar, com uma diversão contida.

“Ou sabe?”

Meu estômago se aperta. Mas eu não recuo.

Ele se afasta. Rosco vai atrás, o som das botas abafado no piso de mármore.

Mas então — Matteo para. Se vira de volta para mim.

O olhar dele se afia, só um pouco.

“E, Valentina...”

Meu pulso falha. Ele me chamou de Rossi a noite inteira — e agora escolhe usar meu primeiro nome.

“...não fuja.” A voz dele é baixa. Letal. “Não vai acabar bem se você fizer isso.”

As palavras não soam como ameaça. Soam como certeza.

Não raiva nem ego, mas experiência.

Como alguém que já viu gente tentar antes.

Como alguém que enterrou depois.

Por um segundo, eu me pergunto quantas mulheres se sentaram exatamente nesta cadeira antes de mim. Quantas acharam que eram espertas o bastante pra escapar da rede. Quantas calcularam mal o alcance da sombra dele.

Mas tem mais alguma coisa no olhar dele.

Não é só domínio.

É interesse.

Ele não me olha como presa. Ele me olha como um enigma.

E isso é mais perigoso. Porque predadores devoram. Colecionadores guardam.

Ele se vira de novo e se afasta, desaparecendo pelas portas em arco como se fosse dono da porra do mundo inteiro.

Porque agora mesmo — ele acha que é.

E, tecnicamente, pelo que valem os termos da aposta… ele é dono de mim também.

Eu não lembro do caminho de volta pro hotel. Só lembro das ruas virando um borrão, do carro em silêncio e de eu manter uma mão fechada no colo o tempo todo.

As luzes da cidade se espalham no vidro escurecido, dourado e vermelho se misturando um no outro, como uma ferida que ainda não decidiu se é fatal.

O motorista não fala. Não precisa. A mensagem já foi entregue.

Propriedade.

Era pra eu entrar em pânico. Era pra eu pegar meu passaporte, meus planos de fuga, minhas identidades de reserva.

Em vez disso — eu me sinto calma.

Não porque eu confie nele. Porque eu escolhi isso. Essa é a diferença entre cativeiro e infiltração.

No momento em que entro na minha suíte, eu tiro os saltos e jogo os dois do outro lado do quarto. Eles batem na parede com um baque opaco e caem no chão como ondas quebrando em pedras.

Eu fico no centro do quarto por um segundo, encarando o horizonte de prédios brilhando.

“Você é minha.”

As palavras ecoam na minha cabeça como um tiro.

E eu deixo. Testo o som delas.

Não como rendição. Como estratégia.

Pertencer é moeda de troca. E moeda de troca é poder. Se ele acha que eu estou entrando na jaula dele —

Ele não vai perceber que eu estou estudando a fechadura.

Então eu respiro fundo, vou até a minha mala e começo a refazer as coisas. Tudo no lugar. Eficiente. Como se eu já tivesse feito isso cem vezes. Porque eu já fiz.

Mas, dessa vez, eu não estou fugindo.

Eu estou entrando.

Meu celular descartável vibra dentro do criado-mudo. Uma vibração longa, depois silêncio.

Só uma pessoa tem esse número.

Eu atendo no segundo toque. “Eu sei”, eu digo.

“Você sempre foi ousada demais”, ele responde, com uma voz áspera, de cascalho e lembrança. “Eu te treinei melhor do que isso.”

“Não”, eu corrijo. “Você me treinou pra isso.”

Há uma pausa. Depois, um suspiro. “Me conta.”

Eu ando de um lado pro outro no quarto, enfiando lingerie e passaportes falsos no forro da bolsa enquanto falo.

“Eu perdi a aposta. Ele acha que é meu dono agora. Ele vai mandar um carro pra me buscar de manhã.”

Outra pausa. Mais curta, dessa vez.

“E?”

“E é melhor do que a gente esperava”, eu digo. “Eu não achei que ia conseguir uma entrada tão rápido. Eu pensei que ia ter que seduzir meu caminho pelos capangas dele primeiro, talvez me enfiar num acordo de contrato, alguma coisa lenta. Mas isso?” Eu fecho o zíper da mala e me sento na beira da cama. “Isso me coloca lá dentro.”

“Você percebe o que isso significa, não percebe?”

“Claro”, eu digo. “Ele acha que eu sou dele agora. O que significa que eu vou ter acesso a tudo. Cada negócio. Cada esconderijo. Cada pessoa.”

“Cada risco.”

Eu sorrio de leve. “Ah, para. Você adora um pouco de perigo.”

“Eu não adoro te perder.”

“Não vai.”

Outra pausa. Essa mais longa. A respiração dele muda.

“Eu vou ativar o próximo protocolo”, ele diz, por fim. “Se der ruim, a gente te tira daí.”

“Sem extração”, eu digo, cortante. “Só se eu mandar.”

“Valentina—”

“Eu não sou dele. Eu não sou de ninguém. Mas eu vou deixar ele achar que eu sou, se isso me der o que eu preciso.”

Um ruído do outro lado. Um palavrão baixo, murmurado. Então: “Você tem 72 horas. Se eu não ouvir de você, eu vou atrás de você eu mesmo.”

“Fechado.”

A linha cai.

Eu coloco o telefone de lado. Puxo o ar. Solto.

A aposta pode ter levado a minha liberdade.

Mas me deu proximidade.

E proximidade é como você mata um rei.

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