Capítulo 3 A aposta
Valentina
“Não.” Minha resposta sai limpa. Afiada o bastante para cortar o silêncio entre nós.
“Eu pertenço às minhas escolhas.”
Ele sorri, sem maldade. “Escolhas podem sair caro.”
Ele ergue o copo. A luz âmbar dança na borda enquanto ele bebe e, por um instante, o rosto dele é só ângulos duros e clarão de lareira. Mas por trás dos olhos, há algo mais frio. Calculista. Como um homem medindo as chances de uma guerra.
O crupiê chama todo mundo de volta pra mesa. Matteo olha pra mim mais uma vez antes de se virar, mas não sem murmurar: “Vamos ver como você joga quando a aposta é de verdade.”
A sala muda de novo. A fumaça está mais densa. Os homens estão mais soltos. Mas eu estou mais afiada do que nunca.
Volto pro meu lugar e deixo a máscara cair só o bastante pra mostrar interesse — educado, brincalhão, só o suficiente pra ser lembrada. Nas próximas rodadas, eu aperto um pouco mais. Arrisco mais. Deixo eu mesma ganhar. Umas duas mãos grandes. Nada inacreditável, mas o bastante pra chamar atenção.
Ela tá ficando mais ousada, eles vão pensar.
Ela tá atrás de adrenalina.
Ela não sabe que estão de olho nela.
Mas eu sei. Matteo está observando tudo. E eu sei que estou perto agora. Perto da mão que muda tudo.
As cartas vêm e vão. O dinheiro muda de lado. Risadas sobem e morrem, como relâmpagos por trás das nuvens. Aí—
Acontece.
Uma mão que eu não vi chegando. Ela chega como um sussurro.
Dois ases na mão. O flop me dá mais um. O turn — mais um.
Quatro. Ases.
Eu travo, só por um fôlego.
É isso. É por aqui.
Eu não sei o que vem — eu nunca soube — mas alguma coisa no meu estômago diz que este é o momento. O momento em torno do qual eu construí a noite inteira. Não um plano roteirizado. Não um movimento ensaiado. Só instinto. Instinto aceso pelo fogo, lá no fundo das entranhas.
As apostas começam baixas, e eu mordo a isca. Um aumento confiante.
Matteo cobre. Depois aumenta de novo.
Eu encaro os olhos dele do outro lado da mesa, e o canto da boca dele sobe de leve.
Os outros jogadores desistem, um por um, caindo fora como formigas de uma lâmina. No fim, fica só eu e ele. Claro que fica.
Eu cubro de novo. Ele aumenta. Eu cubro. Ele aumenta.
A gente vai subindo a escada até eu quase ficar sem nada. Minha pilha afina. Meus dedos dão uma batidinha nas fichas, uma vez, e param.
Eu não tenho o suficiente pra cobrir o último aumento dele. Não a menos que eu desista e vá embora.
Matteo se inclina pra frente, cotovelos na mesa. As mãos dele se juntam como uma prece feita de facas.
“Você tá curta”, ele diz.
“Eu tô vendo”, eu respondo.
Ele inclina a cabeça de leve. “Mas não acabou. Não, a menos que você queira.”
A mesa fica quieta. A sala está olhando agora. As mulheres, os seguranças, os funcionários — todo mundo finge que não liga, mas todo mundo está ouvindo. Eles sabem o que significa quando Matteo Genovese sorri assim.
Ele empurra a pilha de fichas na direção do pote. “Vamos deixar isso interessante.”
Eu estreito os olhos. “Como?”
Ele dá de ombros — elegante, divertido. “Você pode terminar a mão sem desistir. Mas vai ter que apostar algo mais valioso do que fichas.”
Minha voz continua calma. “Tipo o quê?”
Ele nem pisca. “A sua vida.”
Eu pisco. “Como é?”
“Se você perder”, ele diz, casual como a gravidade, “você pertence a mim. Por inteiro. Sem volta.”
O ar prende na minha garganta. “Define ‘pertence’.”
“Casar com você”, ele diz, com a voz macia como veludo. “Te foder. Te vestir. Te acorrentar. Te colocar num pedestal. Te guardar. Te usar. Te proteger. Tudo isso.”
Um leve murmúrio percorre a mesa. Não são palavras. Nem objeções. Só consciência.
Ninguém interrompe Matteo Genovese. Mas todos entendem o que ele está fazendo.
Isso já não tem mais a ver com cartas. Tem a ver com posse. Com domínio.
Com ver um homem pegar algo raro e decidir se quer exibir… ou devorar.
Sinto os olhos deles em mim.
Não com pena. Com curiosidade.
Algumas das mulheres se mexem nas cadeiras. Uma delas faz o menor movimento de cabeça, quase imperceptível. Não é um aviso.
É reconhecimento.
Elas já viram isso antes.
Um homem como ele não propõe casamento numa mesa de pôquer se já não considera o resultado inevitável.
Meu pulso desacelera em vez de disparar.
Ótimo.
Que eles achem que eu estou encurralada.
Que acreditem que eu vou ser engolida inteira.
Eu encaro Matteo. A sala inclina de lado por meio batimento.
Ele não está brincando.
“E se eu ganhar?”, eu pergunto.
Ele sorri como quem oferece uma fruta envenenada. “Você vai embora com tudo o que está na mesa. Uma fortuna muito generosa. O bastante pra te manter em seda e champanhe por uma década.”
É insano. É teatral. É criminoso.
E é exatamente o que eu preciso.
Olho minhas cartas de novo. Quatro ases.
Só existem duas mãos no mundo capazes de vencer isso. A chance é microscópica. Quase impossível.
O que é justamente o que faz parecer crível.
Meus olhos encontram os dele. “Você está falando sério?”
“Sério até a morte”, ele diz.
A sala ficou em silêncio agora. Eu sei o que é isso. Uma demonstração de poder. Um teste. Uma tentação.
Mas também uma armadilha.
E, ainda assim—este é o momento que eu pedi.
Uma chance de entrar no mundo dele sem precisar arrombar a porta.
“Eu aceito”, eu digo.
As palavras saem baixas.
Finais.
Ele se recosta, lento e satisfeito. “Boa garota.”
O crupiê faz um leve aceno. Com mão treinada, ele vira a última carta.
Matteo nem pisca. Ele empurra as cartas, abertas, para a frente.
Um straight flush.
Ás alto.
A sala não solta um suspiro. Não em voz alta. Mas o choque está ali—denso, elétrico.
Minha boca se abre. Nada sai.
Quatro ases.
E mesmo assim ele me venceu.
Por meio segundo, a humilhação arde forte e brilhante.
Não porque eu perdi. Porque eu calculei errado.
Só existem duas mãos que vencem quatro ases.
Duas.
O que significa uma de duas coisas:
Ou ele é o homem mais sortudo do mundo—
Ou esse baralho nunca foi neutro desde o começo.
Meu olhar vai rápido até o crupiê. Depois volta para Matteo.
Ele está esperando pânico. Lágrimas. Arrependimento. Eu não dou nada disso a ele.
O peso do que eu acabei de apostar cai como uma bala no meu peito.
Meu sangue não anda. Meus pensamentos ficam brancos.
Eu sinto a perda.
Sinto como uma avalanche, lenta e devastadora.
Aí vem outra coisa. Um sussurro quieto e constante no fundo da minha mente. Uma voz que já me salvou mais vezes do que eu consigo contar.
Adapte-se.
Eu endireito a coluna. Pisquei uma vez. Respiro.
Matteo me observa com o interesse de um homem que acabou de adquirir algo raro.
“Bem jogado”, ele diz. “Quase.”
Eu dou um sorriso discreto. “Você deve ter muita sorte.”
Ele abre um sorriso. “Eu não acredito em sorte. Só em resultados.”
E eu entendo—isso não foi sorte nenhuma.
Foi precisão. Tempo certo. Intenção.
Ele não só me venceu.
Ele planejou vencer.
Eu entrei na teia dele. Por vontade própria.
Mas o que ele não sabe—o que ele nunca vai suspeitar—é que eu já sei como rastejar por entre os fios.
Eu já sei como virar essa teia contra ele.
