Capítulo 2 A tabela
Valentina
Disseram para eu não mostrar minhas cartas antes de o mundo pedir.
Então eu apareço, em vez disso.
O convite é pequeno — cartão preto, letras douradas, sem endereço de remetente. Diz o que precisa: um convite para uma noite privada. Quinta-feira. Oito da noite. Sem tempo para perguntas. Sem espaço para erros.
Perfeito.
Eu visto a armadura com que pretendo morrer: um vestido preto que parece comportado de longe e perigoso de perto. Sem mangas, decote estreito, barra que deixa minhas pernas falarem um pouco. Saltos que estalam como as respirações medidas que eu guardo para cenas tensas. Meu cabelo cai em ondas, trabalhadas, mas soltas o bastante para serem perdoadas. Maquiagem — afiada. Sorriso — opcional.
O concierge do hotel manda uma limusine uma hora antes do jogo. O motorista conhece o caminho, o código do portão, os homens que vão vigiar a porta com expressões de brutalidade registrada em cartório. Eu não preciso saber os nomes dos homens dele. Só preciso saber onde eles ficam em relação a ele. Um padrão. Um ritmo. Eu estudo ritmo do jeito que cirurgiões estudam pulso.
O carro serpenteia por uma parte da cidade que cheira a opulência e abandono. Uma fileira de carros pretos espera numa rua particular atrás de um clube sem placa. Dois homens de casacos de lã conferem meu nome, depois meus traços, depois o cartão apertado na minha mão, e assentem. Eles me deixam passar como se eu fosse um boato quieto.
Lá dentro, o ambiente é pesado de fumaça e dinheiro. Lustres de cristal derramam luz sobre uma mesa polida como um espelho. Homens a cercam como predadores ao redor de uma caça recém-abatida. O ar tem gosto de uísque e acordos antigos. Há mulheres também — em sua maioria, enfeites. Eu conto como uma espiã contando janelas. Duas perto do bar, três mais ao fundo. Nenhuma delas parece ameaça. A maioria é troféu. Algumas são lobas em saltos impraticáveis.
E então, a mesa.
Matteo não se senta na cabeceira; ele se senta onde a cabeceira precisa ser notada. Ele é mais velho do que nas fotos — aos trinta e cinco, tem a mesma idade que meu irmão teria, dez anos a mais do que eu. E é absurdamente bonito ao vivo, com um maxilar que daria para esculpir estátuas. Mas os olhos dele são o problema: pequenos, negros, precisos. Eles encontram coisas e ficam com elas. Estão acostumados a fazer inventário e chamar o resto de propriedade. Ele se senta com a arrogância relaxada de um homem que nunca precisou implorar.
Ele ri de algo que um homem, duas cadeiras adiante, diz. É o tipo de risada que diz que você está seguro se trouxer dinheiro e em perigo se trouxer coração.
Eu deixo o lugar me absorver — sorrisos aqui, um aceno discreto ali. Tudo isso é um índice que eu sei ler. Eles veem o vestido, as joias de fora, o dedo anelar sem aliança. Eles entendem a história que eu estou vendendo: uma herdeira importada com um apetite curioso por perigo. Eu não sou, deliciosamente, uma ameaça.
“Senhorita Rossi.” Um homem na porta — alguém que me disseram que estaria no jogo — faz a apresentação com naturalidade, como se estivesse lendo um roteiro. Um nome paira sobre a mesa. Cabeças se inclinam. Matteo ergue o olhar. Por um segundo, um fio de interesse puxa através do olhar dele como uma linha de pesca. Ele me observa como se estivesse avaliando se eu sou isca ou jantar.
Ótimo. Deixa ele ficar na dúvida.
Eu me sento duas cadeiras abaixo do homem que todo mundo conhece como o braço direito dele. É uma posição deliberada — perto o suficiente para ouvir conversas, tirar fichas sem levantar suspeita e perto o bastante para mãos se roçarem de passagem. As regras aqui não são escritas, mas todo mundo entende: você faz barulho com o seu dinheiro, não com a sua boca.
O dealer empurra uma pilha de fichas para mim. Eu pego com os dedos firmes o bastante para passar por aço. A adrenalina tem gosto de metal na minha língua. Meu jogo começa antes de as cartas serem dadas. Eu vejo Matteo me ver. Ele aprecia coisas bonitas. Ele gosta de colecioná-las e guardá-las sob o polegar.
Rodada após rodada, eu interpreto o papel da jogadora inexperiente — confiança só o bastante para ser interessante, risco o bastante para me manterem sob observação. Às vezes eu desisto. Em um momento, empurro uma aposta imprudente, arrancando sobrancelhas erguidas. Homens tentam me provocar com fanfarronice e silêncio, com álcool e elogios e ofertas de “me mostrar uma mão melhor”.
Eu absorvo tudo. Perco algumas. Ganho umas mãos pequenas para manter a ilusão convincente. Eu rio quando esperam que eu ria. Eu tusso onde esperam vulnerabilidade. Deixo um homem cometer o erro de achar que eu estou tonta com o glamour do salão; deixo ele subestimar a lâmina escondida sob o meu salto.
Meu plano é péssimo, bonito, simples: ser eu mesma à mesa com uma única condição — perder de propósito a mão grande quando o momento for o certo. Uma derrota que signifique que eu posso ser notada de perto. Um erro que me permita ficar na órbita dele sem disparar os alarmes de uma intromissão escancarada. O caminho até Matteo é um labirinto de espelhos; eu preciso fazer com que ele veja o próprio reflexo e não adivinhe a mão que segura o vidro.
No meio da noite, as apostas sobem. Garrafas são abertas com estalos. Empregos e favores são sussurrados como confissões. Homens citam nomes — negócios, traições, dívidas antigas. A risada de Matteo falha uma vez, rápida e fina. Agora ele está recostado, uma estátua de mármore com um cigarro. Eu observo ele como uma aluna observa a mão do professor.
E então ele diz meu nome.
— Rossi — ele fala, devagar o bastante para as sílabas caírem como pedras. — Você é nova. — A voz dele está mais perto — curiosa, não hostil. — Me diga: você vem de onde?
Uma dúzia de pequenas combustões acontece ao redor da mesa. Os homens escutam. O ar da sala muda, o calor do interesse se acumulando num braseiro lento.
Eu me inclino um grau, o suficiente para captar os fios do sopro dele. O sorriso que eu dou é do tipo errado para uma mulher numa mesa como essa — educado, cortês, com a medida certa de dentes. Eu deixo ele preencher o silêncio com o próprio ego.
— Europa — eu digo. — Importação. Eu negocio com tecidos finos e bebidas raras. — Eu invento uma versão da minha vida com o cuidado meticuloso de quem pratica desvio de atenção desde a infância.
Ele me examina como se estivesse calculando como uma faca vai pesar na mão dele.
— E o que faz uma coisa bonita como você mexer com esse… trabalho? — Ele bate um dedo no copo, num movimento de roubo casual.
— Curiosidade — eu digo, baixo. — E oportunidade.
Ele solta um bufar divertido.
— Oportunidade é uma palavra indulgente para alguns. Para outros, é o fim de alguma coisa.
— Depende de quem controla — eu respondo.
Ele me fixa com aquele olhar pequeno e preto, nunca satisfeito.
— E você? Quem controla você, srta. Rossi?
A mesa fica quieta, como o instante antes de uma tempestade. Os homens se inclinam — esse tipo de coisa pessoal faz fortunas.
Eu deixo meus dedos roçarem minhas fichas de um jeito que parece indulgente e descuidado. Então eu faço o que vim fazer: eu desisto de uma mão que poderia ter rendido uma pequena fortuna. Eu junto minhas cartas, empurro para longe e deixo o homem à minha esquerda virar as dele. Ele ganha. A mesa aplaude — predatória, satisfeita.
Os olhos de Matteo se estreitam. Ele nota a perda do jeito que um caçador nota um coelho que corre em círculos e depois senta de novo, não por medo, mas porque quer ser observado. Ele não sabe por que eu desisti. Ele só sabe que eu desisti.
— Interessante — ele diz, mas não é um insulto. É um mapeamento.
Quando o crupiê anuncia um breve intervalo, Matteo faz um gesto com o cigarro.
— Srta. Rossi — ele diz de novo, um convite embrulhado em curiosidade. — Venha tomar um drink comigo.
Eu aceito. Eu me levanto.
Quando eu passo por ele, nossos ombros se encostam. O contato é uma faísca. É pequeno. É significativo. Ele tem um cheiro leve de colônia e sangue e da arrogância do poder. Meu coração não dispara. Ele registra.
Nós vamos para um canto de sombras, uísque na mão. Ele me estuda como um homem que está considerando um boato.
— Você pertence a alguém? — ele pergunta, direto e profissional.
