Capítulo 1 O retorno
Valentina
As rodas tocaram o asfalto com um gemido que vibrou no meu peito.
Bem-vinda de volta para casa, Valentina.
Só que ninguém neste país conhece esse nome. As únicas duas pessoas que conheciam estão mortas há dez anos.
A luz do cinto apita. Os passageiros se levantam, se espreguiçam, conversam em uma dúzia de sotaques. Eu continuo sentada, com os dedos fechados com força na alça da minha bolsa de couro. Meu pulso é uma batida constante — calculada, deliberada. Dez anos de planejamento, e tudo começa aqui.
Nova York.
A cidade para onde meus pais fugiram para me salvar. O mesmo chão onde eles sangraram anos depois.
A cabine cheira a ar reciclado e perfume barato, mas por um segundo minha mente está em outro lugar.
Um lampejo.
Um caixão pequeno demais para um corpo.
A mão trêmula da minha mãe pressionando uma rosa vermelha contra a tampa branca.
A voz do meu pai: Ela se foi.
Mas eu não tinha ido.
Eu pisco, e a lembrança do vídeo caseiro do meu próprio funeral se dissolve como neblina no vidro. A fila para sair avança aos poucos. Meu passaporte — no nome de Valentina Rossi — pesa no meu bolso, como se se lembrasse de cada mentira sobre a qual foi construído.
Quando eu desço do avião, o ar está mais frio do que eu esperava. Puxo o casaco para mais perto do corpo e sigo andando, os saltos estalando no piso como o tic-tac de um relógio contando os segundos até o fim dele.
Matteo Genovese.
O homem que massacrou minha família. O homem que achou que a linhagem Maranzano tinha acabado naquela noite.
Ele não sabe que eu vivi, não sabe nem que eu existi em primeiro lugar. Exatamente como meus pais planejaram.
Porque, quando eu nasci, eles forjaram a minha morte — um bebê natimorto. Depois me esconderam em outro país para me proteger de todos os inimigos deles.
Matteo não sabe que venho me preparando para este dia desde os quinze anos. Ele não sabe que já é meu.
Eu ergo o queixo, abrindo caminho pela multidão em direção à retirada de bagagens, em direção à vida que eu construí a partir das cinzas. Meu reflexo aparece na parede de vidro — cabelo escuro, lábios vermelhos, um rosto que meu pai um dia chamou de angelical.
Combina, já que anjos também podem ser vingadores.
“Bem-vindos a Nova York”, diz uma voz no alto-falante.
Bem-vindo ao inferno, penso.
Porque é aqui que o reino de Matteo Genovese vai queimar.
A multidão se adensa perto da esteira de bagagens. Turistas com malas de rodinha e moradores com olhos mortos. Eu mantenho a expressão neutra, controlada. Valentina Rossi não vacila, não transpira, não olha por cima do ombro.
Mas por dentro, cada nervo é eletricidade.
Eu ensaiei esse cenário na minha cabeça mil vezes. O primeiro passo de um jogo longo. A entrada. O disfarce. A queda.
“Senhorita Rossi?”
A voz do homem é firme, treinada. Um motorista de terno preto está perto da saída, segurando uma placa com meu nome falso.
Ótimo. Dentro do horário.
Ele não é meu aliado. É um nome numa lista que chegou até mim por alguém que conhece alguém — gente que circula nos espaços cinzentos entre o crime e a sobrevivência. Meu contato fez os arranjos.
Se os homens do Matteo fizerem uma checagem, vão encontrar exatamente o que eu quero que encontrem:
Cidadania europeia. Passaporte duplo. Uma fortuna discreta de “negócios de importação”.
Nada que grite vingança.
O motorista pega minha bolsa e me conduz para fora. A rajada de ar de inverno acerta como um tapa. A cidade vibra num caos constante — sirenes, buzinas, vida empilhada sobre a podridão.
Eu inspiro fundo.
Cheira a corrupção e gasolina. Cheira a casa — mesmo nunca tendo sido, de verdade, minha. Era a casa dos meus pais, e o laço forte que eu tinha com eles faz Nova York parecer casa.
Mesmo tendo me escondido em outro país, eles vinham me ver uma vez por mês, durante cinco dias, sem falhar. Meus pais me amavam.
O carro é elegante, preto, com vidros escurecidos. Eu entro e deslizo os dedos pelo couro liso. Meu reflexo me encara na janela — frio, controlado.
Mas por trás da minha calma, existe algo mais sombrio.
A criança que viu a notícia da morte da família sendo transmitida para o mundo inteiro.
A garota que ouviu os gritos ecoando pelas paredes — os próprios gritos dela, de uma perda dilacerante.
A mulher que se ergueu dos túmulos deles.
“Direto pro hotel, senhorita Rossi?”, pergunta o motorista.
“Sim”, eu digo. “E vá pelo caminho mais longo. Eu quero ver a cidade.”
Ele faz que sim com a cabeça.
O horizonte da cidade surge, sangrando no campo de visão — aço e vidro como facas irregulares cortando nuvens cinzentas. Eu observo em silêncio, enquanto memórias tremulam por trás dos meus olhos.
O funeral que não aconteceu.
O massacre que aconteceu.
A voz da minha mãe sussurrando canções de ninar em siciliano.
Vídeos do meu irmão que eu nunca tive a chance de conhecer.
Meu pai me colocando no colo e contando a história do meu nascimento — como eu nasci quase um mês antes, no Dia dos Namorados. Como a bolsa da minha mãe estourou num restaurante chique e como, mesmo em trabalho de parto, ela era a mulher mais bem-vestida do lugar. Três horas depois, eu nasci, e eles me chamaram de Valentina.
Cada lembrança é uma cicatriz que eu aprendi a polir até virar armadura.
Quando o carro para no semáforo, eu vejo uma manchete num jornaleiro que passa: GENOVESE INDUSTRIES SE EXPANDE PARA O COMÉRCIO INTERNACIONAL.
Claro que ele se expande.
Poder gera poder. E o sangue alimenta isso.
Meus lábios se curvam de leve. “Aproveita enquanto dura, Matteo.”
O motorista me olha pelo retrovisor, sem saber se eu estava falando com ele. Eu nem me dou ao trabalho de esclarecer.
Chegamos ao hotel — uma torre cinco estrelas com vista para o East River. Discreto, caro e esquecível. Perfeito.
Lá dentro, o piso de mármore brilha como gelo. Eu faço o check-in com o nome Rossi, deslizando meu documento falso pelo balcão com dedos firmes. O atendente não questiona nada. As pessoas raramente questionam quando você se veste como dinheiro e se porta como perigo.
Quando as portas do elevador se fecham, eu solto o ar pela primeira vez em horas.
A suíte está impecável. Impecável demais. Eu a examino no automático — espelhos, saídas de ar, embaixo da cama, atrás das cortinas. Sem escutas, sem câmeras. Velhos hábitos custam a morrer.
Jogo meu casaco sobre a cadeira e fico parada junto à janela. A cidade se espalha lá embaixo como uma presa esperando para ser caçada.
Meu celular vibra em cima da mesa. Número desconhecido. Uma nova mensagem.
Bem-vinda de volta, Lenti. O jogo começou.
Meu pulso falha por um instante e, depois, se estabiliza.
Só uma pessoa viva me chama assim.
Meu guardião — o homem que me criou, me treinou, me transformou no que eu sou. Ele deve ter sabido que eu chegaria em segurança.
Eu digito uma resposta.
Sempre fui sua melhor aluna.
Então eu deixo o celular de lado, abro a mala e tiro uma caixinha pequena de veludo. Dentro está o anel que eu mantive escondido por dez anos — uma aliança simples de ouro, com o brasão dos Maranzano gravado por dentro.
Eu coloco o anel no dedo. Não por sentimento. Por guerra.
“Vamos botar o mundo dele abaixo”, eu sussurro para as luzes da cidade.
Uma sirene uiva em algum ponto distante, fina e cortante. Trilha sonora perfeita para uma ressurreição.
Amanhã eu vou entrar numa sala cheia de homens que acham que já são donos de tudo. Amanhã eu vou me sentar a uma mesa onde fortunas se perdem num simples movimento de mão — e eu vou perder de propósito para me aproximar.
Hoje à noite, eu durmo na cama de uma estranha sob um nome que não é o meu. Amanhã, eu vou ser o vírus que derruba o império dele de joelhos.
Bem-vinda a Nova York, Valentina.
