Capítulo Um
Fiona olhava fixamente para a tela do laptop, uma pilha de livros de contas, uma caneta e um bloco de notas ao lado dela. Números e figuras se misturavam diante de seus olhos enquanto ela lutava para se concentrar, apesar da leve sensação de dor de cabeça que começava a surgir. Reunindo suas últimas reservas de força, ela piscou e esfregou os olhos, tentando mantê-los focados e abertos na tela.
"Algum progresso com isso?" Cassie, sua irmã mais nova, perguntou enquanto folheava um portfólio de fotos. Todas sobre reforma de casas e design de interiores.
Fiona balançou a cabeça tristemente. Cassie suspirou, levantou-se e saiu do escritório principal do Projeto Comunitário Oakwood para pegar uma bebida. Ela estava lá desde que seu turno noturno terminou, cerca de três horas atrás, no hospital Greenview, onde trabalhava como enfermeira de emergência. Reprimindo outro bocejo, ela tentou manter a mente na tarefa. Como ela odiava lidar com números agora, o que só a fazia querer gritar de frustração.
"Você precisa dormir mais, Fiona." Cassie disse, enquanto lhe passava uma xícara de chá quente.
"Era exatamente o que eu precisava. Obrigada," Fiona disse agradecida antes de dar um gole delicioso.
Cassie balançou a cabeça. Ela fazia isso quando achava que sabia melhor e que Fiona deveria ouvi-la sem questionar.
"Não. Eu acho que você precisa dormir mais. Esses dias você está horrível. Você viu seu rosto esta manhã?" ela perguntou.
Fiona não precisava se olhar no espelho para ver a que sua irmã se referia. Ela estava ciente das olheiras, da pele amarelada e dos olhos caídos, sem falar dos lábios que, com uma raridade repentina, estavam rachando apesar do protetor labial que ela usava.
"Fiz um turno noturno." Seu trabalho como enfermeira de emergência era agitado, mas gratificante, e embora ela não gostasse das longas horas e dos casos não muito agradáveis que frequentemente enfrentava, ela amava seu trabalho.
"Sim. E Aimee e Mitchell também. Mas eles não parecem tão mal quanto você," Cassie argumentou.
Aimee e Mitchell eram seus colegas e, ao contrário dela, que estava ocupada ajudando os menos afortunados na sociedade, eles só precisavam sair à noite. Esse era o problema de possuir um empreendimento e esperar que ele gerasse algum lucro ou pelo menos fosse mais autossuficiente. Por isso ela estava ali, lidando com números e olhando para o computador com olhos privados de sono. Sem financiamento extra, alguns projetos teriam que ser arquivados.
"Como posso parecer melhor do que eles quando tenho que passar por esses registros?" Fiona retrucou, mas sua irmã não se intimidou.
"Bem, talvez da próxima vez tente usar mais maquiagem ou algo para cobrir isso." Cassie sugeriu.
"Eu poderia te ajudar com alguns dos papéis antes de sair para ver um cliente," ela disse. Ela se aproximou da mesa da irmã.
"Está tão ruim assim?"
Fiona assentiu sombriamente. "Tem o treinamento de ginástica que quero incluir, o balé e uma aula de aquisição de habilidades. Mas as coisas não estão indo bem."
"Treinamento de ginástica?" Clarissa repetiu. Ela se inclinou, espiando por cima do ombro de Fiona, para a tela. "Bastante ruim," ela murmurou.
"E se não conseguirmos financiamento suficiente, os sonhos das crianças podem desmoronar." Fiona não queria pensar nessa possibilidade. Não quando ela mesma foi vítima disso.
"Você discutiu isso com o Roland?"
Fiona balançou a cabeça. Roland era o responsável pelas finanças e frequentemente ajudava a estruturar e organizar os programas anuais de acordo com os recursos que tinham. Não havia necessidade de fazer isso. Roland daria uma olhada na proposta dela e a descartaria. Os fundos simplesmente não eram suficientes. A mão de Cassie pousou gentilmente sobre a dela.
"Eu sei que você realmente quer fazer muito pelas crianças do bairro, mas e se reduzirmos algumas coisas? Sabe, focar em alguns projetos que os doadores disponíveis estariam interessados." ela disse calmamente.
Fiona balançou a cabeça. Desde que começou esse projeto há vários anos com Amanda, ela não olhou para trás. Depois de sua carreira de enfermeira, esse era o próximo melhor passo que ela tinha certeza de que estava destinada a fazer.
"Continuamos dizendo isso e talvez nunca consigamos realizar nada com as crianças."
"Então, como você quer proceder?" Cassie perguntou. Ela gesticulou ao redor do escritório. "Você está pagando o aluguel do seu próprio bolso e até financiando alguns dos programas sozinha."
"Algo pode surgir. Só temos que continuar esperando pelo melhor," Fiona a encorajou. Cassie bufou.
"Fi, eu sei que você é..."
"Conversei com um possível doador e ele disse que gostaria de discutir as coisas comigo. Estou esperando que possamos conseguir apoio suficiente." Fiona interrompeu.
"Eu conheço esse cara?"
"Um pouco," Fiona sorriu ao ver a carranca da irmã. Cassie e ela tinham sido melhores amigas e irmãs por grande parte de suas vidas. E embora tivessem seguido caminhos diferentes na vida, poucas coisas como o Oakland ainda as uniam e interessavam.
"E se as coisas não derem certo..."
"Cassie!" Fiona interrompeu. Ela odiava quando Cassie colocava seu chapéu realista e seguro. Essa era uma das principais diferenças entre elas. Elas não concordavam em muitas coisas.
Sua irmã levantou as mãos em sinal de desculpas, mas reiterou o fato de que precisavam planejar com os poucos fundos que tinham.
Fiona voltou os olhos para a tela e os fechou brevemente. Se ao menos as coisas fossem tão fáceis, ela pensou. Uma imagem dela aos nove anos, frequentando aulas de ginástica com a Sra. Lily, surgiu em sua mente como um fantasma. Ela rapidamente afastou a lembrança, não querendo despertar memórias do que poderia ter sido ou deveria ter acontecido se as coisas em sua vida tivessem sido diferentes. Uma lágrima escapou despercebida enquanto o telefone tocava no silêncio denso da sala. Ela falou longamente com a outra pessoa, acenando com a cabeça de forma sombria em resposta ao que a outra pessoa dizia. Quando desligou, seu rosto tinha uma expressão triste. Cassie se aproximou dela e perguntou os detalhes.
"Outro patrocinador retirou sua promessa." Ela sussurrou e Cassie a envolveu com os braços.
