Os Reis Lycan e Sua Companheira Híbrida

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Capítulo 8 O sentimento

POV da Elara

Quando Clara e eu saímos da terceira loja de vestidos, eu já estava com a cabeça latejando.

Não de tanto comprar. De tanto pensar.

Clara praticamente descia a rua saltitando ao meu lado, segurando uma capa enorme de roupa como se ali dentro estivesse guardado um tesouro.

— Não acredito que a gente encontrou! — ela guinchou pela décima vez.

Eu massageei a têmpora.

— Você experimentou metade do estoque de tecido do reino.

— E valeu a pena — ela retrucou, radiante.

Olhei de lado pra ela.

— Você sabe que vai tropeçar nesse vestido e cair de cara na frente do palácio inteiro.

Ela levou a mão ao peito, teatral.

— Você é uma amiga tão solidária.

— Eu sou realista.

Ela riu.

O sol do fim da tarde já começava a baixar, derramando uma luz dourada e quente sobre as ruas do reino. As lojas ainda estavam cheias, gente indo e vindo, risadas e conversas enchendo o ar.

Mas, por baixo de todo aquele barulho, tinha outra coisa.

Aquela sensação. Não tinha ido embora. Não desde a terceira loja. Minha pele arrepiou de leve enquanto a gente andava.

Ember se mexeu dentro de mim. Inquieta e alerta. Ela também não gostou.

Clara cutucou meu braço.

— Você tá quieta.

— É porque você tá falando por nós duas.

Ela fungou, rindo.

— Eu sempre falo.

Chegamos ao cruzamento principal, onde o mercado se dividia em várias ruazinhas que levavam para diferentes partes do reino.

Clara parou.

— Minha mãe pediu pra eu ir ajudar ela hoje à noite — disse. — Um negócio de preparar as decorações pro baile.

Ergui uma sobrancelha.

— Quer dizer que ela te arrastou pra trabalho de graça.

— Exatamente — Clara respondeu, suspirando.

Ela abraçou a capa do vestido, exagerada.

— Mas vale a pena.

Eu dei um sorriso de canto.

— Você é impossível.

Ela se inclinou mais perto e baixou a voz.

— Mas você ainda vai comigo pro baile, né?

Revirei os olhos.

— Pelo visto eu não tenho escolha.

— Correto — ela disse, toda orgulhosa.

Aí me abraçou rápido.

— Te vejo amanhã.

— Até.

Ela virou e sumiu rua abaixo, na direção do prédio dela.

Fiquei ali por um instante, observando a multidão passar. Depois virei para a minha rua. E comecei a andar.

Quanto mais eu me afastava do mercado cheio, mais tudo ficava silencioso. As avenidas principais davam lugar a ruas residenciais menores. Prédios de pedra dos dois lados. Janelas brilhando com luz quente. O som de uma música distante vinha de uma taverna ali perto, em algum lugar. Normalmente, essa caminhada era tranquila. Relaxante. Hoje à noite, não era. Aquela sensação voltou a subir pela minha nuca. Como se alguém estivesse me olhando.

Meus passos diminuíram um pouco. Ember se agitou de novo. “Tem alguém aí”, ela me avisou, agora em alerta total.

Continuei andando como se não tivesse percebido nada. Mas meus sentidos se aguçaram. Ouvindo. Esperando.

Passos ecoaram, fracos, atrás de mim. Não perto. Mas estavam lá.

Virei com naturalidade na próxima esquina. Os passos continuaram. Lentos. Medidos. Nem tentando se esconder.

Interessante. Andei mais um quarteirão. Então, de repente, entrei numa rua lateral estreita que passava entre duas fileiras de prédios.

Se alguém estivesse me seguindo, teria que virar também. Cinco segundos se passaram. Dez.

Aí, passos. Viraram a esquina. Meu coração acelerou um pouco.

Continuei andando. Mas meus dedos se contraíram ao lado do corpo. A magia formigou sob a pele. Só por precaução.

Mais uns quinze metros. Então parei de repente e me virei.

O beco atrás de mim estava vazio. Completamente vazio. Ninguém. Nenhum movimento. Só paredes de pedra silenciosas e a luz do dia enfraquecendo.

Juntei as sobrancelhas. Isso não era possível. Eu ouvi alguém.

Ember rosnou baixinho dentro de mim.

“Eles estão aqui.” Ela rosnou, em aviso.

“Onde?” eu murmurei entre dentes.

Nenhuma resposta.

Soltei o ar devagar e continuei andando. Talvez eu estivesse ficando paranoica. Mas a sensação não passava. Se é que era possível, ficava mais forte.

Quando cheguei ao meu prédio, o céu já tinha escurecido para um azul profundo de começo de noite. As luzes dos postes ao longo da calçada brilhavam. Subi os pequenos degraus de pedra até a minha porta. Minhas chaves tilintaram de leve quando eu as puxei do bolso. A mesma inquietação se contorcia no meu estômago.

Olhei por cima do ombro de novo. Ainda nada. Só ruas silenciosas. Enfiei a chave na fechadura. O metal fez um clique.

E então.

Uma voz falou atrás de mim. Baixa. Calma. Quase divertida.

“Você não devia andar sozinha à noite.”

Meu corpo inteiro travou. Devagar, eu me virei.

Ele estava a poucos passos de distância.

Alto. Ombros largos. Cabelo escuro, levemente bagunçado pelo vento. E aqueles mesmos olhos verdes e afiados que eu tinha visto mais cedo na loja.

O homem que vinha me observando. Meu pulso acelerou. Ele se encostava com casualidade no muro de tijolos ao lado dos degraus, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Me analisando. O olhar dele deslizou por um instante até as minhas mãos. Depois voltou para os meus olhos. Um sorriso lento tocou a boca dele.

“Você é observadora”, ele disse.

Minha voz saiu calma, mesmo com o coração disparado. “Você estava me seguindo.”

Ele inclinou a cabeça de leve. “Seguindo é uma palavra tão agressiva.”

Apertei os olhos. “O que você quer?”

Por um momento, ele não respondeu. Só ficou me olhando. Como se estivesse tentando resolver um enigma. Aí ele se desencostou da parede e deu um passo lento na minha direção. Não ameaçador. Mas intencional.

“Só curiosidade”, ele disse, encarando direto os meus olhos.

“Curiosidade sobre o quê?” eu perguntei, sustentando o olhar dele, sem querer ser a primeira a desviar.

Os olhos verdes dele brilharam de leve sob a luz do poste.

“Você.” Ele sussurrou e piscou.

Todos os alarmes na minha cabeça começaram a tocar.

Ember rosnou de novo. “Perigo”, ela rosnou.

Cruzei os braços. “Então a curiosidade já foi satisfeita?”

Ele soltou uma risada baixa. “Nem de longe.”

O ar entre nós parecia estranho. Como se estivesse carregado.

Como se alguma coisa importante tivesse acabado de começar a se mover. Ele lançou um olhar rápido para a porta do meu apartamento. Depois voltou para mim. “Me diz uma coisa”, ele falou, baixo.

“O quê?” eu sussurrei de volta.

O olhar dele ficou um pouco mais duro. “O que exatamente você é?” disse ele, enquanto os olhos desciam pelo meu corpo e subiam de novo até encontrar os meus.

Meu estômago afundou. Um gelo escorreu pela minha coluna. Ele sabia. Ou pelo menos desconfiava.

Forcei um sorrisinho de canto. “Eu sou uma garota tentando entrar no próprio apartamento.” E pisquei de volta para ele.

Ele estudou meu rosto outra vez, como se não acreditasse em mim nem por um segundo. Então recuou devagar. “Justo.” Ele disse, e mais uma vez passou o olhar pelo meu corpo.

O alívio mal teve tempo de se assentar quando ele acrescentou, com a mesma calma: “A gente vai conversar de novo em breve.”

Meu estômago se revirou. “O que faz você achar isso?” perguntei, por curiosidade. Eu queria saber por que ele tinha vindo falar comigo.

O sorriso dele voltou. “Porque coisas interessantes costumam cruzar o meu caminho mais de uma vez.”

Ele se virou para ir embora. Aí parou, olhando por cima do ombro.

“Ah”, ele acrescentou, casual. “Talvez seja melhor você tomar mais cuidado com os seus truques.”

Minha respiração travou. Ele viu, sim. Meu pulso martelava nos meus ouvidos.

Ele piscou de leve. E então se afastou, entrando nas sombras. Me deixando ali, parada, congelada. Meu coração disparado. Minha cabeça girando. E um pensamento aterrorizante ecoando sem parar:

Quem diabos era ele e o quanto ele realmente tinha visto?

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