Capítulo 6 UMA EXPLOSÃO DO PASSADO
POV do Coban
As portas do escritório se escancararam com tanta força que bateram na parede e voltaram.
Atlas entrou como uma tempestade. Cassian veio logo atrás. Os dois ofegavam, com o suor ainda grudado na pele do treino. Havia marcas de terra nos braços e nos ombros, e as camisetas estavam meio encharcadas por causa do sparring.
Mas não foi o suor que chamou minha atenção. Foram os rostos. Neles havia pura raiva. E só isso bastou para fazer todo homem na sala ficar imóvel.
Caden estava sentado diante de mim, na mesa grande, com um tornozelo apoiado sobre o joelho. Kevan se encostava na parede lateral, de braços cruzados, enquanto Mark estava perto da mesa de estratégia, folheando um relatório.
Os três ergueram o olhar no exato mesmo instante.
Atlas não perdeu um segundo. — Tivemos visitas.
O ar da sala ficou gelado na hora. Caden baixou devagar o pé até o chão. Kevan se endireitou. Mark inclinou levemente a cabeça.
Eu me recostei na cadeira, estreitando os olhos. — Visitas? — repeti, devagar.
Cassian passou a mão no cabelo, frustrado. — Três.
Isso foi o suficiente para algo, bem no fundo do meu peito, se contrair.
Três. O olhar de Caden piscou para o meu por meio segundo. Uma conversa silenciosa passou entre nós. Mas ficamos calados.
— Comecem a falar — eu disse, com calma.
Atlas começou a andar de um lado para o outro pelo escritório, como um lobo enjaulado. — Eles estavam observando a gente na linha das árvores enquanto a gente estava treinando.
Cassian assentiu, com a mandíbula travada. — Eles saíram de lá como se fossem donos do lugar.
Mark se afastou da mesa. — Eles atacaram?
— Não — Cassian respondeu.
Kevan franziu um pouco a testa. — Então eles só… o quê? Chegaram pra bater papo?
Atlas soltou uma risada de desprezo. — Mais pra uma ameaça.
Aí Caden se inclinou um pouco para a frente. — Explica.
Cassian soltou o ar de uma vez. — Ele olhou bem na nossa cara e disse que a gente devia aproveitar a paz enquanto ela dura.
A sala ficou silenciosa. Silêncio absoluto. Até o ar pareceu pesado. Por um instante, um pensamento me atravessou. Aquelas palavras já tinham sido sussurradas antes. Não. Não pode ser. Eu expulsei a ideia da cabeça.
Os dedos de Caden se fecharam devagar no braço da cadeira. A mandíbula de Kevan se moveu, tensa. Os olhos de Mark escureceram.
Eu olhei com cuidado de um gêmeo para o outro. — Descreve ele.
Cassian não hesitou. — Alto. Cabelo escuro. Olhos verdes. Confiante pra caramba.
Atlas bufou. — Um babaca arrogante.
Cassian continuou. — Ele estava com mais dois. Disse que eram o beta e o gama dele.
Foi aí que a temperatura na sala caiu mais uns dez graus.
A voz de Kevan saiu baixa. — Ele falou isso mesmo?
— Falou.
Mark esfregou devagar o maxilar. — Interessante. — Caden se recostou agora, com um olhar pensativo. — E depois?
Atlas ergueu as mãos, exasperado. — Eles se transformaram e sumiram.
Kevan piscou. — Eles o quê?
Cassian assentiu, sombrio. — Sumiram antes que a gente conseguisse se mexer.
Eu me inclinei para a frente, os cotovelos apoiados na mesa. — Vocês rastrearam?
Atlas confirmou com a cabeça. — A gente perseguiu eles mata adentro.
Cassian completou. — Sem pegadas.
Mark franziu a testa. — Isso não é possível.
— Foi o que eu disse — Atlas retrucou, irritado. — O rastro de cheiro também sumiu.
Kevan se afastou da parede e começou a andar pelo escritório, devagar. — Até onde?
— Trinta jardas — Cassian respondeu.
Mark e Kevan trocaram um olhar. O olhar de Caden voltou devagar para mim.
Lá estava de novo. Aquela conversa silenciosa. Aquela que nenhum dos garotos conseguia ouvir. Mas que nós entendíamos. Porque já tínhamos visto aquilo antes. Faz muito tempo.
Kevan finalmente falou de novo. — Ele disse um nome?
Cassian negou com a cabeça. — Não.
Atlas se encostou na parede, agora de braços cruzados. — Mas ele sabia do baile.
Isso fez Caden se inclinar para a frente na mesma hora. — Ele mencionou?
Cassian assentiu. “Falou alguma coisa sobre duas semanas.”
O escritório voltou a ficar em silêncio. Dessa vez, mais pesado.
Mark passou a mão pelo cabelo. “Bom, isso é do caralho mesmo. Fantástico.”
Kevan soltou o ar devagar. “Três lobos fortes o bastante pra mascarar o próprio cheiro.”
Os olhos de Caden foram de um gêmeo ao outro.
Caden se recostou lentamente. Kevan parou de andar de um lado pro outro. Mark olhou pra cada um de nós. E, de repente, todo homem ali na sala teve exatamente o mesmo pensamento. O mesmo que eu tinha tido mais cedo, mas empurrei pra bem longe.
Eu olhei pra Caden. Ele olhou pra mim. Nenhum dos dois disse as palavras. Porque dizer em voz alta faria aquilo virar realidade.
E, agora, a gente não tinha prova.
Mas se aqueles três foram ousados o bastante pra entrar direto no nosso campo de treinamento…
Se eles sabiam do baile. Se estavam vigiando os gêmeos. Então só existia uma possibilidade que fazia sentido.
Cassian finalmente quebrou o silêncio. “Então, a gente vai falar do fato de que três lobos desconhecidos acabaram de ameaçar os futuros reis deste reino?”
Kevan deu um meio sorriso. “Ah, com certeza a gente vai falar disso.”
Mark se apoiou na mesa. “Mas primeiro a gente precisa descobrir quem diabos eles são.”
Caden se levantou devagar. A altura dele, inteira, comandou a sala na mesma hora. A voz era calma. Mas tinha aço por baixo. “Dobrem as patrulhas no palácio.”
Kevan assentiu na hora. “Feito.”
“Mark”, Caden continuou, “avisa os batedores da fronteira.”
Mark pegou o celular imediatamente. “Já tô cuidando disso.”
Eu também me levantei, por fim. Meu olhar voltou pros gêmeos. “De agora em diante, vocês dois não vão a lugar nenhum sozinhos.”
Atlas gemeu, irritado. “Ah, qual é.”
“Não”, eu cortei.
Cassian franziu a testa. “A gente dá conta.”
“Eu sei”, eu disse, calmo. “Mas, seja lá quem eram aqueles três…” eu dei um passo mais perto deles. “eles não eram amadores.”
Atlas e Cassian trocaram um olhar. Porque eles sabiam também. Atlas esfregou a nuca. “É, essa parte a gente sacou.”
A voz de Caden cortou a sala de novo. “Você sentiu mais alguma coisa?”
Cassian franziu a testa, de leve. “Como assim?”
Caden sustentou o olhar dele. “Alguma coisa familiar?”
Os dois hesitaram. Atlas enfim balançou a cabeça. “Não.”
Cassian deu de ombros. “Só senti que eles queriam que a gente visse eles.”
Caden assentiu devagar. Batia com a nossa teoria. Um recado. Um aviso. Ou um desafio.
Kevan falou de novo, de repente. “Você disse que ele tinha dois caras com ele.” Atlas assentiu. “Tinha.”
Os olhos de Kevan escureceram um pouco. “Então isso já reduz as possibilidades.”
Mark olhou pra ele. “Por quê?”
Kevan cruzou os braços. “Porque só tem um homem arrogante o bastante pra entrar no território dos outros desse jeito.”
Ele fez uma pausa. O nome ficou pairando no ar antes mesmo de ele dizer.
“Clarence.”
A sala ficou completamente imóvel.
Cassian piscou. “O Clarence sumiu. Foi embora faz muitos anos.”
Caden olhou pra ele, calmo. “A gente nunca encontrou ele. Ele tá vivo. Só conseguiu escapar.”
Atlas alternou o olhar entre nós. “Peraí.” Ele se endireitou. “Você acha que era ele?”
Nenhum de nós respondeu.
Porque a verdade é que a gente não sabia. Mas a sensação pesada no meu estômago me dizia uma coisa.
Isso não foi aleatório. Isso não foi coincidência. E, fosse quem fosse aquele homem… ele não estava só vigiando os gêmeos. Ele estava se preparando pra alguma coisa. Uma coisa grande. Uma coisa violenta. Uma coisa que ia acontecer em exatamente duas semanas. Na noite do baile.
E, quando eu olhei de novo pra Caden, eu vi exatamente o mesmo pensamento nos olhos dele. O que significava que só restava uma pergunta.
Se lá fora realmente era o filho do Clarence… então que diabos ele estava planejando fazer quando o reino inteiro se reunisse dentro dos muros do nosso palácio?
