Os Reis Lycan e Sua Companheira Híbrida

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Capítulo 4 Fale sobre a bola

POV da Elara

O cheiro de queijo derretendo e molho de tomate tomou conta do apartamento enquanto eu me apoiava na bancada. Meus dedos contornavam as bordas de um dos diários da minha mãe, aberto ao meu lado. As páginas estavam gastas de tanto serem manuseadas ao longo dos anos. Eu murmurava feitiços baixinho, articulando com cuidado as palavras que ela tinha escrito, sentindo a energia se enrolar e tremeluzir na ponta dos meus dedos. Pequenos objetos flutuavam no ar acima da mesa da cozinha. Um lápis, uma xícara de chá, até um guardanapo. Eu sorri. Fazer as coisas flutuarem sempre era divertido.

O guardanapo rodopiou como uma folha pega por uma brisa morna, girando com graça no mesmo lugar. Eu dei um toque com o pulso, e ele desceu de leve de volta para a mesa. Não consegui evitar de rir do meu próprio senso de conquista. De vez em quando, eu olhava para o monitor de segurança que eu tinha instalado na entrada, um conjunto de câmeras pequenas e escondidas. Não era nada sofisticado, mas me deixava ver quem estava se aproximando. Foi aí que eu vi ela. Clara, praticamente pulando na ponta dos pés, tentando espiar pela janelinha da porta da frente, com o cabelo castanho preso numa trança bagunçada que se recusava a ficar no lugar. Eu sorri, balançando a cabeça.

Antes mesmo de eu conseguir me levantar, alguém bateu. Uma batida seca, impaciente, na porta.

Enxuguei as mãos num pano de prato, murmurando: “Na hora certa.” E abri a porta.

Clara nem me deu chance de cumprimentar. Ela entrou como um furacão, olhos arregalados, bochechas coradas, voz aguda e caótica.

“A gente tem que se preparar!”, ela gritou, agitando os braços como se estivesse regendo uma orquestra. “Daqui a duas semanas! No palácio! O baile de aniversário dos gêmeos! Já que a gente vai, a gente tem que se preparar!”

Eu encarei ela por um segundo, com a assadeira da pizza numa mão, e o lápis ainda flutuando preguiçosamente acima da mesa. “Ei. Calma. Pera aí. Você tá bem?”, perguntei, erguendo uma sobrancelha.

O rosto da Clara se contorceu, dramático e teatral. “Bem? Bem?! É o palácio, Elara! Os gêmeos! Baile de aniversário! Você tem noção de quanta gente vai estar lá? E do quão incrível isso é?”

Eu deixei a assadeira sobre a bancada, cruzei os braços e dei um sorrisinho. “Tá, eu entendi. Superempolgante. Mas agora você tá parecendo um esquilo depois de tomar café demais.”

Clara revirou os olhos com tanta força que eu achei que eles iam travar. “Eu tô empolgada! Você não faz ideia. Eu espero por isso desde, sei lá, sempre. E os gêmeos! Ai, meus deuses, quer dizer…” Ela foi perdendo a fala, as mãos voando no ar, e então fechou as mãos em punhos. “E você vem comigo. Sem desculpas!”

Eu ri, balançando a cabeça. “Desculpas? Eu? Quem é que inventaria desculpa pra ir a um baile no palácio? Nunca na minha vida. Totalmente impossível.” Eu abri um sorriso, curtindo a indignação dela.

“Nem brinca com isso!”, Clara sibilou, batendo o pé. “Eu tô falando sério. Você vai. E é melhor estar pronta. A gente precisa de vestidos. Cabelo. Sapatos. Tudo.”

Ergui uma sobrancelha. “Cabelo? Sapatos? Você me conhece. Eu sou mais do tipo ‘visto o que não coça e torço pra dar certo’.”

Clara soltou um suspiro ofegante, como se eu tivesse acabado de insultar a família dela. “Ai, meus deuses, você é um caso perdido! Se você aparecer lá desse jeito, eu não vou me responsabilizar pelas consequências sociais. Você vai passar vergonha por semanas. Semanas!”

Eu ri, fazendo um gesto com o pulso na direção do lápis flutuante e fazendo ele dar uma voltinha acima da minha cabeça. “Pff. Consequências sociais? Quem liga? Tenho certeza de que os guardas do palácio vão ficar impressionados é com os meus truques de lápis mágico.”

Ela gemeu, dramática. “Você é impossível. Absolutamente impossível.”

Eu sorri. “Sou, sou. Mas admite: você adora.”

Clara se jogou no sofá, os braços largados sobre o peito, revirando os olhos para o teto. “Eu odeio. Eu odeio que você seja impossível. E eu amo. Essa é a pior parte.”

Eu levantei as mãos, numa rendição de brincadeira. “Viu? Aí está. O melhor dos dois mundos.”

Os olhos dela brilharam de repente. “A gente precisa de planos. Looks. Acessórios. A gente tem duas semanas inteiras e isso mal dá tempo de se preparar pra esse nível de coisa incrível. Você tá pronta?”

Eu me recostei, deixando a cadeira ranger sob meu peso, com um sorrisinho diante da empolgação desenfreada dela. “Acho que eu dou conta. Vou tentar encaixar um vestido entre guardanapos flutuantes e treino de feitiços. Não deve ser tão difícil.”

Clara gemeu de novo e se largou no sofá, dramática. “Você é tão sarcástica! Juro. Mas tudo bem. Vou deixar passar por causa dessa empolgação. E também… os gêmeos. Já falei dos gêmeos?”

“Sim, Clara”, eu disse, seca, “você mencionou os gêmeos mais ou menos quarenta e três vezes nos últimos dois minutos. Eu sei.”

Ela se sentou, apontando um dedo acusador pra mim. “E você não tá entendendo o ponto. É o palácio! São eles! É tudo o que a gente vem ouvindo desde que chegou! Essa é a nossa chance!”

Eu peguei uma fatia de pizza, mordi e mastiguei, pensativa. “Chance de fazer o quê, exatamente? Acenar educadamente e ficar lá, toda sem jeito, enquanto as pessoas encaram a gente? Porque nisso eu já sou ótima. Vem naturalmente.”

O queixo de Clara caiu. “Você é impossível. E sim. Isso. Mas também, não: vai ter dança. Música chique. Você tem noção do quão empolgante isso é?”

Eu dei de ombros, dando outra mordida. “Eu tenho noção de que você tá empolgada. E isso já é o suficiente pra eu fingir que me importo. Mais ou menos.”

Ela gemeu e se jogou pra trás de novo, o cabelo caindo no rosto. “Eu odeio fingir. Eu quero gritar. E dançar. E berrar. E… tudo!”

Eu ri, fazendo o guardanapo flutuar de novo na minha frente. “Tudo, é? Tipo… malabarismo com pizza? Porque isso eu também consigo.”

Clara gemeu, cobrindo o rosto com as mãos. “Eu não aguento você. Você é absolutamente impossível. Mas tá. A gente vai planejar. Vai pegar vestidos. Sapatos. Acessórios. E aí a gente vai e vai arrasar. Combinado?”

Eu levantei minha fatia de pizza como um brinde. “Combinado. E por ‘arrasar’, você quer dizer sobreviver com educação e torcer pra ninguém reparar na gente, né?”

Ela puxou o ar, escandalizada. “Sobreviver com educação?! Não! A gente vai brilhar! Vai deslumbrar! As pessoas vão lembrar da gente pra sempre!”

Eu sorri, balançando a cabeça. “Deslumbrar. Certo. Claro. Desde que a gente ainda possa comer pizza depois, pra mim tá ótimo.”

Clara gemeu de novo e, dessa vez, se jogou dramaticamente no chão, braços abertos. “Eu juro, você é insuportável! Mas… eu acho que eu dou conta. Pelo palácio. E pelos gêmeos.”

Eu revirei os olhos, fazendo o lápis flutuar mais uma vez num pequeno loop acima da mesa. “Naturalmente. Porque… prioridades.”

Clara se jogou de volta no sofá, rindo, finalmente se acalmando, embora a empolgação ainda irradiasse em ondas pelo cômodo. “A gente tem duas semanas. DUAS. Eu não vou deixar você esquecer.”

Eu dei um sorrisinho, dando mais uma mordida na pizza. “Pode confiar, eu não vou. Você vai me lembrar pelo menos mais quarenta e três vezes, provavelmente com uns gritinhos extras pra dar ênfase.”

Ela riu, e eu ri, e por um momento toda a tensão do dia, toda a solidão silenciosa do meu apartamento…

Aí eu me lembrei de um pensamento de mais cedo. Com toda a empolgação da Clara, eu quase esqueci. Os três caras que ameaçaram os gêmeos. O que será que foi aquilo?

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