Capítulo 3 Assistindo
POV do Ryder
Os arbustos arranhavam meus braços enquanto eu me agachava bem baixo, garantindo que ninguém me visse. Eu mal respirava, porque o medo de ser pego estava ali, grudado em mim.
O campo de treinamento do palácio se estendia à minha frente. Guerreiros treinavam por todo o terreno, a poeira subindo no ar a cada golpe.
E bem no centro de tudo estavam eles. Cassian e Atlas. Os príncipes dourados. Os futuros reis.
Eu deixei um sorriso torto crescer devagar. “Eles parecem bem à vontade”, murmurei, quase sem som.
Atrás de mim, Ivan se mexeu de leve, agachado ao lado do tronco grosso de um carvalho. Meu beta era enorme. Ombros largos, cabeça raspada e aquela expressão permanente de quem estava pronto pra quebrar alguma coisa.
“À vontade?”, Ivan sussurrou. “Eles parecem entediados.”
Darnell deu uma risadinha do outro lado do arbusto. Meu gamma se encostava numa pedra como se a gente estivesse assistindo a uma peça, e não espionando os herdeiros mais poderosos do reino.
“É”, Darnell disse, preguiçoso. “Se governar é isso, eu quero entrar nessa.”
Revirei os olhos com tanta força que quase doeu. Esses idiotas. “Eles não estão entediados”, eu disse baixo. “Eles estão confiantes e arrogantes.”
Meus olhos se estreitaram enquanto eu observava os gêmeos lutarem. Cassian atacou primeiro com um chute rápido e brutal no peito de Atlas. Atlas bloqueou e girou, chutando baixo e varrendo as pernas do irmão, fazendo Cassian perder o chão — antes de Cassian girar o corpo pra trás e cair de pé como um maldito gato.
Droga, aquilo foi liso. Então é isso contra o que eu vou ter que bater de frente. Há anos eu observo. Há anos eu aprendo. Eu fico nas sombras dos herdeiros gêmeos, tentando descobrir tudo. As fraquezas, junto com as forças.
Ivan assobiou baixinho. “Tá”, ele murmurou. “Isso foi impressionante.”
“Só não fala alto demais”, Darnell acrescentou. “Nosso líder destemido pode ficar com ciúmes.” Ele riu de leve, cuidando pra não ser ouvido.
Eu mantive o sorriso torto, sem desviar o olhar. “Eles são bons”, admiti. Meu pai tinha me avisado. Cassian e Atlas não eram herdeiros comuns. Eles eram armas. Tinham sido criados por reis. Os gêmeos foram treinados desde o nascimento. Mas armas também quebravam. E eu era o martelo. Eu vou ser aquele que finalmente vai derrubar os dois. É por isso que eu estou aqui. Esse é o meu objetivo.
Meu olhar varreu o campo. Aí eu vi. Droga… isso é interessante.
“Olha ali”, murmurei.
Ivan e Darnell seguiram a direção do meu olhar. Duas garotas estavam sentadas debaixo de uma árvore, perto da borda do jardim.
Uma delas ria alto, claramente adorando a atenção de alguns guerreiros em volta. Mas a outra era diferente. A outra era mais quieta. Ela só observava. Os olhos dela voltavam sempre pro campo de treino. De volta pros gêmeos. De volta pra Cassian e Atlas. E a parte mais interessante? Os gêmeos também olhavam de volta.
Darnell soltou um resmungo abafado. “Ora, ora”, ele disse. “Parece que nossos príncipes dourados acharam uma distração.”
Ivan se inclinou pra frente, apertando os olhos. “Você acha que ela é importante?”
Eu analisei a garota com cuidado. O jeito como ela observava. O jeito como fingia que não estava impressionada. O jeito como os gêmeos continuavam lançando olhares pra ela.
Eu sorri devagar. “Talvez, mas duvido. Acho que é só atração. A baixinha também chamou minha atenção”, eu disse.
Ivan olhou pra mim. “Você tá pensando o que eu tô pensando?”
“Provavelmente não”, Darnell resmungou. “O Ivan tá pensando no almoço.”
Ivan lançou um olhar fulminante pra ele. “Cala a boca.”
Eu ignorei os dois, ainda observando a garota. A quieta. A que tentava não sorrir quando os gêmeos se exibiam. O jeito como ela sorri. O jeito como ela revira os olhos quando se irrita. Acho que foi isso que eu mais gostei.
Meu pai sempre dizia uma coisa importante: aprenda tudo sobre os seus inimigos. As forças. As fraquezas. Os laços. Por isso eu reparo em cada detalhe. Por isso eu reparei nos olhos cor de mel dela, lindos, que reviraram até o branco aparecer.
Darnell se inclinou mais para perto.
— Tá pensando em chegar nela?
Eu dei de ombros.
— Talvez. Mas hoje não. Hoje é dia de observar.
Ivan abriu um sorriso de canto.
— Ah, é verdade. Só trabalho e nada de diversão. — Ele revirou os olhos.
Nós três ficamos observando em silêncio por um momento.
Cassian avançou de novo, o punho dele brilhando num dourado fraco por só um segundo antes de ele acertar o peito de Atlas com força.
O ar ondulou. As folhas farfalharam.
Ivan piscou.
— Vocês viram isso?
O sorriso de Darnell se alargou.
— Vi sim.
Eu senti meu lobo se mexer por dentro. Os gêmeos não estavam só brincando. Estavam se exibindo. Mostrando pro campo inteiro quem mandava ali.
Ivan estalou o pescoço.
— Tá, vou admitir uma coisa.
Eu suspirei.
— Isso é melhor não ser idiotice.
— Eles vão dar problema. — Ivan disse, ainda observando os dois em ação.
Eu soltei uma risada baixa.
— Óbvio que vão.
Darnell se inclinou um pouco para a frente.
— Então, me lembra de novo por que a gente tá aqui?
Eu finalmente virei para encarar os dois.
— Porque o baile é daqui a duas semanas.
A noite em que Cassian e Atlas se ergueriam oficialmente. A noite em que o reino celebraria seus futuros reis. A noite em que meu pai me disse que tudo ia mudar.
Olhei de volta para o campo.
— Eles acham que aquela noite é sobre eles — eu disse, baixo.
Darnell sorriu.
— Mas na verdade é sobre você.
— Exatamente. — Eu disse, e um sorriso perverso foi surgindo no meu rosto.
Ivan abriu um sorriso lento.
— Minha nossa... isso vai ser divertido.
Eu me inclinei um pouco dentro dos arbustos. Observando os gêmeos. Observando a garota. Observando os guerreiros ao redor deles.
A voz do meu pai ecoou na minha cabeça. Estude-os. Entenda-os. Quebre-os.
Meus lábios se curvaram devagar.
— Eles nem sabem que eu existo ainda.
Darnell deu uma risadinha.
— Dá tempo ao tempo.
Ivan olhou de novo para o campo.
— Você tá planejando esperar até o baile?
Eu pensei nisso por um instante.
Os gêmeos riram de alguma coisa lá no campo. Estavam completamente relaxados, sem desconfiar de nada.
Eu balancei a cabeça devagar.
— Não.
Ivan franziu levemente a testa.
— Não?
Eu me levantei de dentro dos arbustos. Os dois congelaram na hora.
— Ryder — Ivan sussurrou, ríspido. — Que porra você tá fazendo?
Eu sacudi as folhas do meu casaco.
— Bom — eu disse, calmo — se a gente vai caçar alguma coisa...
O sorriso de Darnell foi se abrindo, devagar.
— A gente devia pelo menos deixar eles saberem que estão sendo caçados.
Ivan suspirou, mas se levantou ao meu lado.
— Claro que devia.
Nós saímos dos arbustos juntos. No instante em que nossas botas pisaram na grama aberta, a energia no campo de treino mudou.
Todo guerreiro parou o que estava fazendo. Todas as cabeças viraram na nossa direção. Cassian parou no meio do golpe. Atlas se virou devagar. E os olhos deles cravaram na gente.
Darnell cruzou os braços, sorrindo como um demônio.
Ivan estalou os dedos. O sorriso no meu rosto era gelo puro.
— Bom — eu disse alto o bastante para eles ouvirem. — Parece que os príncipes finalmente repararam na gente.
O campo ficou em silêncio. Os olhos de Cassian se estreitaram. Atlas inclinou a cabeça, num reconhecimento sutil. Eu dei um passo lento à frente. E minha voz desceu para algo mais sombrio. Mais frio.
— Aproveitem a paz enquanto ela durar — eu disse.
— Porque daqui a duas semanas, tudo o que vocês acham que é de vocês... — Eu deixei as palavras ficarem suspensas no ar. — vai ser tomado.
Dito isso, nós três mudamos de forma e sumimos correndo, fora de vista.
