Os Reis Lycan e Sua Companheira Híbrida

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Capítulo 2 Movimento nos arbustos

POV do Atlas

O som de punhos acertando carne ecoava pelo campo de treino. A terra levantou sob as minhas botas quando eu girei e enfiei o ombro no peito de Cassian. Ele cambaleou meio passo para trás antes de se firmar, e um sorriso já se abria no rosto dele.

— Você tá ficando relaxado — resmunguei.

Cassian enxugou o suor da testa e girou o pescoço, como quem se solta pra segunda rodada.

— Ah, queria você. — Ele soltou o ar com força, mantendo os pés em movimento e os olhos presos em mim.

Nós começamos a rodar um ao redor do outro devagar, músculos retesados, olhar cravado. Ao nosso redor, o campo de treino fervilhava de atividade: guerreiros jovens lutando em duplas, gritos de incentivo, o baque de corpos batendo no chão.

Mas ninguém lutava como eu e Cassian. Ninguém nunca lutou.

Anos treinando juntos tinham transformado aquilo em algo quase instintivo. A gente sabia os movimentos um do outro antes de acontecerem. Cada finta, cada mudança de peso, cada golpe.

Cassian e eu sempre fomos… como é que eu digo… diferentes. Como você sabe, nossa mãe era uma loba branca e nossos pais são reis lycans. Bom, Cass e eu somos lycans brancos. Isso nunca aconteceu na história. Bom… até agora.

Cassian avançou. Eu saí pro lado, peguei o pulso dele e torci o suficiente pra tirar o equilíbrio. Ele se recuperou na hora, varrendo a perna bem baixo na direção do meu tornozelo. Eu saltei por cima do golpe e o empurrei pra trás.

Ele riu.

— Você tá roubando.

— Você que tá lerdo. — Eu ri também, mantendo meu jeito normalmente provocador.

— Continua repetindo isso pra você mesmo. — ele rebateu.

Um grupinho de guerreiros tinha se juntado na beirada do campo. Eles gostavam de assistir. Acho que era mais porque a gente era bem divertido. Principalmente com as nossas provocações.

A maioria evitava treinar com a gente agora. Não tinha muito sentido quando nenhum dos dois gostava de se segurar.

Cassian avançou de novo, mais rápido dessa vez. Eu encontrei ele de frente. Nossos antebraços se chocaram com um estalo seco que ecoou pelo pátio. Por alguns segundos, o mundo se reduziu só a nós dois.

Aí alguém bateu palmas alto.

— Certo, já deu.

Nós dois recuamos, respirando pesado.

Orion entrou no campo com aquela confiança tranquila que ele sempre carregava. O irmão dele, Theron, veio logo atrás, estalando os dedos como se estivesse esperando a vez.

Evander e Alaric vinham atrás deles.

— Vocês dois vão dar uma pausa ou estão planejando destruir o campo de treino hoje? — Evander perguntou.

Cassian abriu um sorriso de canto.

— Depende. Tá se voluntariando? — Ele arqueou a sobrancelha e lançou um olhar pra Evander.

Evander ergueu as mãos na mesma hora.

— De jeito nenhum.

Alaric bufou, rindo pelo nariz.

— Homem inteligente.

Eu peguei uma toalha no banco perto da beirada do campo e enxuguei o suor do rosto. O sol do fim da tarde já estava baixo acima das muralhas do palácio, jogando sombras compridas pela grama.

O treino tinha sido brutal hoje. Exatamente do jeito que eu gostava.

Theron se encostou na cerca que delimitava o campo, varrendo os arredores com preguiça.

— Tem mais gente do que o normal — ele comentou, enquanto os olhos dele passeavam pelo pátio.

Evander seguiu o olhar.

— É, todo mundo tá se preparando pro baile. — Cassian gemeu baixinho, quase sem som.

Eu não podia culpá-lo. O baile. A comemoração do nosso décimo oitavo aniversário. O reino inteiro estava convidado. O que significava que todo Alfa com uma filha sem par ia chegar logo. Só de pensar já cansava.

Orion cruzou os braços.

— Você sabe que isso aqui vai virar um caos, né. — Ele olhou pro meu irmão e depois voltou o olhar pra mim.

Cassian se recostou no corrimão.

— Caos é uma palavra pra isso. — Ele balançou a cabeça.

Alaric abriu um sorriso.

— Outra seria “divertido”.

Revirei os olhos com tanta força que chegou a doer. — Você não vai achar isso quando começarem a alinhar elas na nossa frente.

Evander riu. — Ah, vão sim. Você sabe que vão.

Claro que iam. Alfas eram previsíveis assim. Companheiros poderosos significavam alianças poderosas. Cada um deles ia torcer para a própria filha ser a destinada ao trono.

Cassian resmungou alguma coisa por entre os dentes que soou perigosamente como um xingamento.

Theron soltou uma risada. — Tá bem animado, hein?

— Eu preferia lutar no braço com um urso selvagem — Cassian disse.

— Eu também — acrescentei.

Orion cutucou Evander. — Você tem sorte. Ninguém vai ficar desfilando filhas pra você.

Evander abriu um sorriso. — É porque eu não tenho cara de futuro rei.

— Filho da mãe sortudo — Cassian disse.

Uma brisa varreu o pátio de treino, agitando o capim alto além do campo. Meu olhar foi parar no grande carvalho perto do outro lado dos terrenos.

Duas figuras estavam sentadas debaixo dele. Uma era toda elétrica, falando com as mãos enquanto assistia aos guerreiros treinarem. A outra ficava mais quieta. Uma nós conhecíamos como Clara, e a outra… ela. Eu não sabia o nome dela. Mas eu já tinha reparado nela antes.

Cassian acompanhou meu olhar. — Bom… — ele disse, baixo. — Lá estão elas de novo.

Evander semicerrrou os olhos na direção delas. — Ah, é. As meninas do jardim.

Theron fez um sorriso de canto. — A Clara é a barulhenta. — Alaric apontou com a cabeça para a segunda garota.

— E a quieta? — perguntei.

Ninguém respondeu de imediato. Porque, mesmo daqui, ela chamava atenção. O cabelo castanho comprido caía pelas costas em ondas suaves, pegando o sol toda vez que o vento mexia. Ela estava com as pernas esticadas na grama, recostada de leve no tronco da árvore.

Ela parecia relaxada, mas muito atenta.

Por um instante, os olhos dela se levantaram para o campo. Cor de avelã. Mesmo daqui eu conseguia ver os pontinhos dourados lá dentro capturando a luz.

Cassian soltou o ar devagar ao meu lado. — Ela é linda.

Ele não estava errado. Tinha alguma coisa diferente nela. Não era espalhafatosa como a outra. Não parecia querer chamar atenção. Mas era impossível ignorar depois que você reparava.

Orion inclinou um pouco a cabeça. — Ela é nova, não é?

Evander deu de ombros. — Já vi ela por aí algumas vezes.

Alaric se apoiou mais pra frente no corrimão. — Ela não fala muito.

Theron abriu um sorriso. — Talvez ela só não goste de você.

Evander levou uma mão ao peito, dramático. — Impossível.

Cassian riu baixo, mas eu continuei observando. Havia algo calmo no jeito como ela ficava ali sentada. Como se ela estivesse completamente confortável só observando o mundo ao redor. Pouca gente conseguia fazer isso. Ainda mais perto de guerreiros. A brisa mudou de novo. O cabelo dela se ergueu um pouco, roçando os ombros.

Cassian me cutucou. — Tá encarando?

— Não. — eu buf ei.

— Tá sim. — ele provocou.

— Cala a boca.

Ele deu um meio sorriso, mas continuou.

Do outro lado do campo, Clara falou alguma coisa que fez a garota quieta revirar os olhos. Aí ela sorriu. Só por um segundo. Mas aquilo mudou tudo no rosto dela.

Cassian também viu. — Caramba… — ele murmurou.

Evander assobiou baixinho. — É… eu tô vendo.

Mas o momento passou rápido. O sorriso sumiu e ela voltou a olhar para o campo de treino, a expressão calma outra vez. Como se nada tivesse acontecido.

O vento passou pela grama de novo. E foi aí que eu notei. Movimento nos arbustos.

Não perto da árvore. Não perto das garotas. Mais atrás. Na borda dos terrenos de treino, onde os arbustos encontravam a floresta. As folhas se mexeram de leve. Só o suficiente para chamar minha atenção.

Cassian ficou rígido ao meu lado. — Você viu isso? — ele murmurou.

Eu assenti devagar.

Os arbustos se mexeram outra vez. Com certeza não era só o vento. Tinha alguém ali.

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