Capítulo 5 O PEDIDO
Narrativa do Autor
Mônica não passou em casa.
Não naquela noite.
Assim que saiu do hospital, continuou caminhando.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
O coração batia tão forte que ela tinha a impressão de que todos ao seu redor conseguiam ouvi-lo.
As vielas do Morro do Dendê estavam movimentadas.
Algumas pessoas conversavam nas portas das casas.
Outras observavam a movimentação da comunidade.
Mas Mônica mal percebia o que acontecia ao redor.
Sua atenção estava concentrada em apenas uma coisa.
O homem que ela estava prestes a encontrar.
Monstro.
Só de pensar naquele nome, suas mãos ficavam frias.
Ela nunca o tinha visto de perto.
Conhecia apenas as histórias.
As histórias que circulavam pelo morro.
Histórias de guerras.
De vinganças.
De homens que tremiam quando ouviam seu nome.
Histórias de um homem frio.
Cruel.
Perigoso.
Ainda assim, continuou subindo.
Porque o medo não era maior que o desespero.
Nada era maior que o desespero de ver sua mãe morrendo.
Quando finalmente chegou à área da boca, sentiu o estômago se revirar.
Homens armados observavam tudo.
Alguns conversavam.
Outros vigiavam em silêncio.
Mônica quase voltou.
Quase.
Mas então lembrou da mãe naquela cama de hospital.
E seguiu em frente.
Um dos homens a interceptou.
— O que você quer?
Ela respirou fundo.
— Preciso falar com o Monstro.
O homem soltou uma risada curta.
— E acha que é só chegar e falar com ele?
— É importante.
Ele a observou por alguns segundos.
Depois pareceu reconhecê-la.
— Você é a menina das trufas.
Mônica assentiu.
O homem trocou olhares com outro.
Alguns minutos depois, alguém foi chamar Caveira.
Enquanto isso, na boca Monstro estava sentado atrás de uma mesa em sua sala.
A noite estava silenciosa.
Pelo menos do lado de dentro.
Do lado de fora, a comunidade seguia viva.
Mas Monstro mal prestava atenção.
Estava perdido em pensamentos.
Pensamentos estranhos.
Pensamentos que vinham aparecendo cada vez mais nos últimos meses.
Ele tinha dinheiro.
Poder.
Respeito.
Temor.
Tinha praticamente tudo o que queria.
Mas havia algo que continuava faltando.
Um herdeiro.
Alguém que carregasse seu nome.
Alguém que recebesse tudo aquilo que construiu.
Alguém para quem pudesse deixar seu legado.
A ideia parecia simples.
Mas para Felipe nunca era.
Porque existia uma coisa que ele não queria.
Amor.
Relacionamentos.
Compromissos.
Ele não confiava em ninguém.
Muito menos nas mulheres que se aproximavam dele.
Conhecia todas.
Ou pelo menos acreditava conhecer.
Muitas queriam dinheiro.
Outras queriam status.
Algumas sonhavam em posar como esposa do chefe do morro.
Nenhuma despertava seu interesse.
Nenhuma.
Ele apoiou os braços na mesa.
Pensativo.
A ideia que vinha amadurecendo em sua cabeça era simples.
A mulher que aceitasse gerar seu filho receberia dinheiro.
Uma casa.
Uma vida confortável.
Mas a criança seria criada por ele.
Sem discussões.
Sem disputas.
Sem laços.
Era uma lógica fria.
Talvez cruel.
Mas Monstro já não enxergava o mundo de outra forma.
Os sentimentos sempre acabavam destruindo tudo.
Ele era a prova viva disso.
Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.
— Entra.
A porta se abriu.
Era Caveira.
— Patrão.
— Fala.
— Tem uma pessoa querendo falar com você.
Monstro ergueu uma sobrancelha.
— Quem?
— Uma garota.
— Não recebo ninguém essa hora.
— Acho que você vai querer receber essa.
Felipe suspirou.
— Manda entrar.
Do lado de fora, Mônica sentiu as pernas enfraquecerem quando Caveira abriu a porta.
— Pode entrar.
Ela engoliu em seco.
E entrou.
O ambiente era simples, mas imponente.
Seus olhos percorreram rapidamente o local.
Até encontrarem o homem sentado atrás da mesa.
Monstro.
Pela primeira vez.
Ela o viu de perto.
O rosto sério.
O olhar duro.
A postura de quem estava acostumado a mandar.
Imediatamente entendeu por que tantas pessoas tinham medo dele.
Monstro também a observou.
No primeiro momento, sem interesse.
Apenas mais uma pessoa.
Mais um problema.
Mais alguém pedindo alguma coisa.
Então ela levantou os olhos.
E algo aconteceu.
Por um breve segundo.
Um único segundo.
Monstro ficou imóvel.
Olhos azuis.
Muito azuis.
Diferentes de tudo que ele estava acostumado a ver.
Não era apenas a cor.
Havia algo neles.
Algo que chamou sua atenção imediatamente.
Mas ele não deixou transparecer.
Seu rosto permaneceu impassível.
Frio.
Como sempre.
— O que você quer?
A voz firme fez Mônica estremecer.
Ela respirou fundo.
Precisava falar.
Precisava ser corajosa.
— Meu nome é Mônica.
Monstro não respondeu.
Ela continuou.
Contou sobre a mãe.
Sobre o câncer.
Sobre os remédios.
Sobre as contas.
Sobre o pai cadeirante.
Sobre a irmã pequena.
Sobre a fome.
Sobre o desespero.
Tudo.
Cada palavra parecia arrancar um pedaço de sua dignidade.
Mas ela continuou.
Quando terminou, o silêncio tomou conta da sala.
Monstro permaneceu observando-a.
Sem dizer nada.
Sem demonstrar emoção.
Sem demonstrar pena.
Mônica começou a ficar nervosa.
Talvez tivesse cometido um erro.
Talvez nunca devesse ter ido ali.
Então Monstro finalmente falou.
— Vai pra casa.
Ela piscou.
Confusa.
— O quê?
— Vai pra casa.
— Mas...
— Eu ouvi o que você disse.
A voz dele continuava calma.
— E?
— Eu vou pensar.
Mônica sentiu o coração afundar.
Aquilo não era uma resposta.
— Minha mãe não tem tempo.
Monstro sustentou seu olhar.
— Eu disse que vou pensar.
Ela percebeu que insistir seria inútil.
Levantou-se devagar.
Sentindo a decepção crescer dentro do peito.
Talvez tivesse criado esperança demais.
Talvez tivesse acreditado em algo impossível.
— Obrigada por me ouvir.
Monstro apenas assentiu.
E observou enquanto ela saía.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou.
Mas não durou muito.
Caveira encarava Monstro.
— Tá pensando o mesmo que eu?
Monstro recostou-se na cadeira.
— Talvez.
— Patrão...
— O quê?
— Não me diz que...
Monstro permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois falou.
— Ela precisa de dinheiro.
Caveira arregalou os olhos.
— Você tá falando sério?
— Nunca falei tão sério.
— Aquela garota parece desesperada, mas isso é loucura.
Monstro apoiou os braços na mesa.
— Pra você.
— E pra qualquer pessoa normal.
— Eu nunca disse que era normal.
Caveira passou a mão pelo rosto.
Incrédulo.
— Você quer fazer uma proposta dessas pra ela?
— Quero.
— Ela pode te mandar pro inferno.
Monstro deu de ombros.
— Pode.
— E se recusar?
— Procuro outra solução.
— E se aceitar?
Monstro ficou em silêncio.
O olhar distante.
Pensativo.
— Então os dois conseguem o que precisam.
Caveira balançou a cabeça.
Ainda sem acreditar.
— Eu acho que você tá ficando maluco.
— Talvez.
— Essa menina tá passando pela pior fase da vida dela.
— Eu sei.
— Justamente por isso ela pode aceitar qualquer coisa.
Monstro levantou-se da cadeira.
Caminhou até a janela.
Observou as luzes espalhadas pelo morro.
Depois falou sem se virar.
— Quem tá precisando é ela.
Caveira não respondeu.
Porque, no fundo, sabia que aquela frase era verdadeira.
E era exatamente isso que o preocupava.
Do lado de fora, sem imaginar o que estava sendo discutido naquela casa, Mônica caminhava de volta para casa.
Com o coração apertado.
Sem saber se havia conseguido ajuda.
Sem saber se tinha alguma esperança.
completamente o rumo de sua vida.
