Capítulo 4 A CORRIDA CONTRA O TEMPO
Narrativa do Autor
O sol ainda nem havia aparecido completamente quando Mônica já estava na rua.
A caixa de trufas presa junto ao corpo parecia mais pesada do que de costume.
Talvez porque, naquela manhã, ela carregasse mais do que doces.
Carregava Desespero.
E uma urgência que apertava seu peito a cada minuto.
Ela precisava vender tudo.
E, pela primeira vez em muito tempo, a sorte pareceu olhar para ela.
Os carros paravam.
As pessoas compravam.
Alguns levavam uma.
Alguns compravam apenas para ajudá-la.
Antes do meio-dia, a caixa estava vazia.
Mônica contou o dinheiro diversas vezes.
Ainda não era muito.
Mas era o suficiente para comprar algumas coisas para casa.
E naquele momento aquilo já parecia uma vitória.
Passou rapidamente pelo mercado.
Comprou arroz.
Feijão.
Alho.
Óleo.
Sal.
Coisas simples.
Mas que estavam faltando havia dias.
Ao voltar para casa, encontrou Ana Clara brincando com uma boneca velha na sala.
A menina abriu um sorriso enorme ao vê-la.
— Moni!
Mônica abriu os braços.
A irmã correu para abraçá-la.
— Olha o que eu trouxe.
Ana Clara observou as sacolas.
Os olhos brilharam.
— Tem comida?
A pergunta foi tão inocente que fez o coração de Mônica apertar.
— Tem sim, princesa.
A menina comemorou como se tivesse ganhado um presente.
Porque para ela era exatamente isso.
Um presente.
Mônica entrou na cozinha e começou a preparar o almoço.
O cheiro do alho refogando logo se espalhou pela casa.
Seu pai observava tudo da sala.
Em silêncio.
Os olhos marejados.
Ele sabia o quanto a filha havia lutado para conseguir aquelas compras.
Sabia que cada grão de arroz havia custado suor.
Humilhação.
Sacrifício.
Quando o almoço ficou pronto, os três se sentaram para comer.
Por alguns minutos, ninguém falou nada.
Apenas comeram.
Como se aquele simples prato de arroz e feijão fosse um banquete.
Porque a fome transforma pequenas coisas em grandes bênçãos.
Quando terminaram, Mônica começou a organizar a cozinha.
Depois pegou sua bolsa.
Seu pai percebeu imediatamente.
— Vai pro hospital?
Ela assentiu.
— Vou ver a mamãe.
A tristeza atravessou o rosto dele.
Era impossível esconder.
Todos os dias ele desejava estar ao lado da esposa.
Segurar sua mão.
Conversar.
Dizer que a amava.
Mas a cadeira de rodas, a falta de dinheiro e as dificuldades tornavam aquilo quase impossível.
Ele baixou a cabeça.
— Dá um beijo nela por mim.
Mônica sorriu com dificuldade.
— Eu dou.
— Diz que eu tô esperando ela voltar.
As lágrimas quase escaparam dos olhos dela.
— Vou dizer.
Ana Clara apareceu correndo.
— Fala pra mamãe que eu fiz um desenho.
— Falo também.
A menina entregou uma folha dobrada.
Mônica guardou cuidadosamente na bolsa.
Então saiu.
Sem imaginar que retornaria para casa completamente diferente.
O hospital parecia mais frio naquele dia.
Mais silencioso.
Mais pesado.
Ao entrar no quarto, Mônica encontrou a mãe acordada.
Dona Helena sorriu ao vê-la.
Um sorriso fraco.
Mas sincero.
— Minha menina.
Mônica aproximou-se.
Beijou sua testa.
Depois entregou o desenho.
A mulher observou cada traço feito pela filha mais nova.
E chorou.
Porque sentia saudade de casa.
Porque sentia saudade da família.
Porque tinha medo de não voltar.
Mônica permaneceu ao seu lado durante horas.
Conversaram.
Riram de algumas lembranças.
Choraram em outras.
Tentaram fingir que tudo ficaria bem.
Mesmo quando ambas sabiam que a realidade era muito mais cruel.
No fim da tarde, alguém bateu na porta.
Era o médico.
Ao vê-lo, o coração de Mônica acelerou.
Ela já conhecia aquele olhar.
Aquele tipo de olhar nunca trazia boas notícias.
— Podemos conversar?
Ela assentiu.
Os dois saíram para o corredor.
O médico respirou fundo.
— O estado da sua mãe continua delicado.
Mônica sentiu o estômago afundar.
— Eu sei.
— O medicamento precisa ser iniciado o quanto antes.
Ela fechou os olhos por alguns segundos.
— Eu não consegui o dinheiro.
A voz saiu baixa.
Carregada de vergonha.
— Eu estou tentando.
O médico demonstrou compreensão.
Mas aquilo não mudava os fatos.
— Eu entendo.
Mas não temos muito tempo.
As palavras atingiram Mônica como um soco.
Não temos muito tempo.
Ela repetiu aquilo mentalmente.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até que a frase começou a perder o sentido.
Porque seu cérebro se recusava a aceitar.
— Quanto tempo?
O médico hesitou.
— Não posso afirmar.
Mas cada dia faz diferença.
Mônica sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Mais uma vez.
Sempre mais uma vez.
Parecia que sua vida era feita apenas disso.
Novas dificuldades.
Novos problemas.
Novas dores.
Ela agradeceu ao médico.
Voltou ao quarto.
Ficou mais algum tempo ao lado da mãe.
Mas já não conseguia prestar atenção na conversa.
Sua mente estava longe.
Pensando.
Calculando.
Desesperada.
Tentando encontrar uma saída.
Qualquer saída.
Quando deixou o hospital, o céu já estava escurecendo.
As luzes da cidade começavam a surgir.
As pessoas seguiam suas rotinas.
Mas Mônica caminhava sem realmente enxergar nada.
O médico tinha razão.
Ela não tinha mais tempo.
Não podia esperar.
Não podia continuar tentando juntar dinheiro aos poucos.
Sua mãe precisava daquele tratamento agora.
Agora.
Não no mês seguinte.
Não dali a alguns meses.
Agora.
Foi então que um pensamento surgiu.
Um pensamento que ela vinha evitando há semanas.
Um pensamento perigoso.
Mas que voltou com força.
Ela conhecia histórias.
Todos no morro conheciam.
Histórias de pessoas que recorriam ao homem mais poderoso da comunidade quando não tinham mais para onde correr.
O homem mais temido.
O homem cujo nome fazia adultos baixarem a voz.
Monstro.
Mônica parou no meio da calçada.
Seu coração disparou.
Só de pensar nele.
Sabia quem era.
Sabia sua fama.
Sabia das histórias.
Sabia que era perigoso.
Muito perigoso.
Mas também sabia de outra coisa.
Ele tinha dinheiro.
Dinheiro suficiente para salvar sua mãe.
O pensamento a assustou.
Mas não o suficiente para fazê-la desistir.
Porque o medo de perder Dona Helena era maior.
Muito maior.
Ela respirou fundo.
As mãos tremiam.
A consciência gritava para que voltasse para casa.
Para que esquecesse aquela ideia.
Mas o desespero falava mais alto.
E o desespero raramente escuta a razão.
Quando uma filha vê a mãe morrendo, os limites começam a desaparecer.
O orgulho desaparece.
O medo desaparece.
A prudência desaparece.
Só resta a necessidade de salvar quem ama.
E Mônica estava exatamente nesse ponto.
Ela já não pensava nas consequências.
Não pensava nos riscos.
Não pensava no que poderia acontecer depois.
Pensava apenas na mãe.
Na cama de hospital.
Nos remédios.
Na chance de mantê-la viva.
Nada mais.
Se precisasse implorar, imploraria.
Se precisasse se humilhar, se humilharia.
Faria qualquer coisa.
Qualquer coisa.
Porque algumas pessoas valem qualquer sacrifício.
E Dona Helena valia todos.
Mônica ergueu a cabeça.
As lágrimas que ameaçavam cair foram contidas.
Seu olhar mudou.
Pela primeira vez em semanas, havia tomado uma decisão.
Talvez fosse uma decisão perigosa.
Talvez fosse uma decisão errada.
Mas era a única que lhe restava.
Com o coração acelerado e as pernas trêmulas, ela atravessou a rua.
E começou a caminhar na direção da área mais temida do Morro do Dendê.
Na direção do homem que todos evitavam.
Na direção daquele que chamavam de Monstro.
Sem imaginar que, depois daquela noite, sua vida jamais seria a mesma.
