OS HERDEIROS  DO MONSTRO

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Capítulo 3 QUANDO COMEÇA DESMORONAR

Naquela manhã, ela chegou ao hospital com os pés doloridos e o coração apertado. Trazia na bolsa algumas frutas que havia conseguido comprar com muito sacrifício. 

Ao entrar no quarto, encontrou a mãe dormindo.

O rosto de Dona Helena estava mais pálido do que nunca.

Mais magro.

A cada visita, parecia que a doença roubava um pedaço dela.

Tentando afastar os pensamentos ruins, saiu para procurar o médico responsável.

Foi então que recebeu mais uma notícia que fez seu chão desaparecer.

— O tratamento precisa ser reforçado — explicou o médico.

— O que isso significa?

— Sua mãe precisa começar uma nova medicação.

— E quando ela começa?

O médico hesitou.

Aquela pausa foi suficiente para assustá-la.

— O medicamento é caro.

— Quanto?

O valor dito pelo médico pareceu ecoar dentro de sua cabeça.

Era muito.

Muito mais do que ela conseguia juntar vendendo trufas.

Muito mais do que possuía.

Muito mais do que poderia conseguir em poucos dias.

Por alguns segundos, Mônica não conseguiu responder.

Sentiu o ar faltar.

Sentiu as pernas enfraquecerem.

— Se ela não tomar?

O médico suspirou.

— As chances de recuperação diminuem.

Aquelas palavras foram como uma sentença.

Mônica saiu do hospital sem conseguir pensar direito.

As pessoas passavam ao seu redor.

Os carros buzinavam.

O mundo continuava girando.

Mas dentro dela tudo parecia ter parado.

Ela precisava conseguir dinheiro.

Precisava.

Não importava como.

Não importava onde.

Precisava.

Naquele mesmo dia, decidiu procurar emprego no asfalto.

Talvez alguém precisasse de uma atendente.

Talvez uma faxineira.

Talvez uma balconista.

Qualquer coisa.

Ela andou por ruas movimentadas durante horas.

Entrou em mercados.

Padarias.

Lojas de roupas.

Farmácias.

Lanchonetes.

Recebeu dezenas de respostas negativas.

Algumas educadas.

Outras cruéis.

— Estamos sem vagas.

— Deixe seu currículo.

— Procuramos alguém com experiência.

— Entraremos em contato.

Mas ninguém entrava.

Ninguém chamava.

Ninguém dava oportunidade.

Em uma loja de roupas, a gerente mal levantou os olhos para ela.

Observou sua roupa simples.

O tênis desgastado.

A bolsa antiga.

E perdeu o interesse imediatamente.

— Já contratamos.

Mônica percebeu que era mentira.

Havia um anúncio de vaga colado na vitrine.

Mesmo assim, apenas agradeceu e saiu.

Na loja seguinte, a situação foi ainda pior.

O homem atrás do balcão analisou sua aparência antes de responder.

— Você mora onde?

— No Dendê.

O olhar dele mudou.

— Não estamos contratando.

Ela sabia que não era verdade.

Sabia exatamente o motivo da recusa.

Mas engoliu a humilhação.

Mais uma vez.

Como tantas outras.

Ao final da tarde, seus pés estavam machucados.

Sua garganta seca.

E sua esperança cada vez menor.

Quando seu celular tocou, ela sentiu um frio percorrer a espinha.

Era o hospital.

O coração acelerou imediatamente.

Mônica atendeu.

— Alô?

A voz da enfermeira parecia preocupada.

— Mônica, você pode vir ao hospital?

Seu sangue gelou.

— Aconteceu alguma coisa?

Houve alguns segundos de silêncio.

Segundos que pareceram uma eternidade.

— O estado da sua mãe piorou.

O mundo perdeu o som.

As pessoas desapareceram.

Os carros desapareceram.

Tudo desapareceu.

Restaram apenas aquelas palavras.

O estado da sua mãe piorou.

Mônica sentiu as lágrimas surgirem imediatamente.

— Ela está viva?

— Sim.

— Eu tô indo.

Desligou sem dizer mais nada.

E correu.

Correu como se sua própria vida dependesse daquilo.

Quando chegou ao hospital, encontrou Dona Helena mais fraca do que nunca.

A mulher tentou sorrir ao vê-la.

Mas até sorrir parecia exigir esforço.

Mônica segurou sua mão.

Tentando esconder o desespero.

Tentando ser forte.

Porque era isso que todos esperavam dela.

Força.

Sempre força.

Mas por dentro ela estava quebrando.

Aos poucos.

Em silêncio.

Como vidro rachando.

Dona Helena acariciou seu rosto.

— Você precisa descansar.

Mônica sorriu entre lágrimas.

— A senhora também.

— Te amo, minha filha.

A voz saiu tão baixa que quase não foi possível ouvir.

E aquilo assustou Mônica mais do que qualquer diagnóstico.

Ela permaneceu ali até o horário de visita terminar.

Depois foi obrigada a ir embora.

Mesmo sem querer.

Mesmo sentindo medo de que aquela pudesse ser a última vez.

Já era noite quando chegou ao morro.

As vielas estavam iluminadas por postes fracos.

Algumas crianças ainda brincavam.

Alguns vizinhos conversavam nas portas de casa.

Mas Mônica mal enxergava o que havia ao redor.

Sua mente estava longe.

Seu coração estava longe.

Seu corpo apenas seguia em frente.

Quando entrou em casa, encontrou uma cena que quase a destruiu.

Seu pai estava sentado na cadeira de rodas.

Ana Clara estava em seu colo.

E os dois dividiam um pequeno pedaço de pão.

Um único pedaço.

A vizinha havia dado.

Era tudo o que tinham para comer.

Tudo.

Mônica sentiu o peito apertar com tanta força que chegou a doer fisicamente.

A irmã sorriu ao vê-la.

Um sorriso inocente.

Feliz.

Sem entender a gravidade da situação.

— Moni!

Ela correu para abraçá-la.

Mônica a segurou com força.

Tentando impedir as lágrimas.

Tentando impedir que a menina percebesse.

Mas estava cada vez mais difícil.

Seu pai desviou os olhos.

Envergonhado.

Humilhado.

Destruído.

Porque nenhum homem quer ver seus filhos passando fome.

E nenhum pai quer depender da caridade dos outros para alimentá-los.

Mônica percebeu isso imediatamente.

E aquilo partiu seu coração.

Ela não disse nada.

Não conseguiu.

Apenas caminhou em direção ao banheiro.

Fechou a porta.

Trancou.

E finalmente desabou.

As lágrimas vieram de uma vez.

Fortes.

Incontroláveis.

Ela deslizou pela parede até ficar sentada no chão frio.

As mãos cobriram o rosto.

Os soluços ecoaram pelo pequeno banheiro.

Era dor demais.

Problemas demais.

Responsabilidades demais.

Ela estava cansada.

Tão cansada.

Cansada de fingir que estava tudo bem.

Cansada de sorrir.

Cansada de ser forte.

Cansada de lutar.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de desistir.

Apenas desistir.

Mas então pensou na mãe.

No pai.

Na irmã.

E chorou ainda mais.

Porque sabia que não podia.

Ela era tudo o que sua família tinha.

Tudo.

Mônica se ajoelhou no chão.

As mãos tremiam.

As lágrimas continuavam caindo.

Ergueu os olhos para o teto.

E começou a orar.

Não uma oração bonita.

Nem decorada.

Nem perfeita.

Era o grito desesperado de alguém que havia chegado ao limite.

— Deus...

Sua voz falhou.

Ela respirou fundo.

Tentando continuar.

— Eu não sei mais o que fazer.

As lágrimas escorriam sem parar.

— Eu tô tentando.

Eu juro que tô tentando.

A voz saiu quebrada.

Dolorida.

Sincera.

— Eu trabalho.

Eu corro atrás.

Eu faço tudo o que posso.

Mas nunca é suficiente.

Nunca.

Ela apertou as mãos contra o peito.

— Minha mãe tá morrendo.

Meu pai sofre todos os dias.

Minha irmã tá passando fome.

E eu não consigo ajudar.

Não consigo.

Os soluços interromperam suas palavras.

Por alguns segundos, apenas chorou.

Depois voltou a falar.

— Por favor...

Por favor, Deus.

Me ajuda.

Eu não aguento mais.

Eu não aguento ver minha família sofrendo.

Não aguento ver minha irmã com fome.

Não aguento ver minha mãe naquela cama.

Me mostra um caminho.

Qualquer caminho.

Me dá uma solução.

Porque eu estou perdida.

Completamente perdida.

O banheiro voltou a ficar em silêncio.

Mônica permaneceu ajoelhada.

Chorando.

Esperando.

Sem saber o que faria no dia seguinte.

Sem saber como salvar sua família.

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