Capítulo 2 CONHECENDO O MONSTRO
Narrativa do Autor
O Morro do Dendê despertava sob o som distante de motos, rádios ligados e vozes espalhadas pelas vielas. Para muitos, aquele era apenas mais um dia.
Para Felipe, não.
Os dias haviam deixado de ter significado há muito tempo.
Parado na laje de uma casa alta, ele observava a comunidade lá embaixo. Os braços cruzados, o olhar duro e a expressão fechada faziam qualquer um pensar duas vezes antes de se aproximar.
Ali, ninguém o chamava de Felipe.
Para todos, ele era apenas Monstro.
E talvez aquele nome combinasse mesmo com o homem que havia se tornado.
Ele continuou olhando o horizonte.
Frio.
Imóvel.
Vazio.
Porque era exatamente assim que se sentia por dentro.
Vazio.
Houve um tempo em que ele era diferente.
Um tempo em que acreditava em disciplina, honra e respeito.
Um tempo em que ainda possuía sonhos.
Mas sonhos morriam.
Assim como as pessoas.
E a pessoa que mais amava havia sido arrancada dele da pior maneira possível.
Seu pai.
A lembrança veio como uma facada.
Felipe fechou os olhos por um instante.
Mesmo depois de tantos anos, ainda conseguia recordar daquele dia.
O telefonema.
A correria.
Os gritos.
O corpo coberto por um lençol.
O sangue.
Tanto sangue.
Seu pai era tudo o que ele tinha.
A única pessoa que acreditava nele quando o mundo inteiro o enxergava como um problema.
Foi aquele homem quem o ensinou a andar de bicicleta.
Quem o ensinou a ser forte.
Quem o ensinou a nunca abaixar a cabeça.
E foi aquele mesmo homem que teve a vida tirada por causa da guerra entre facções.
Assassinado sem piedade.
Executado como se sua vida não tivesse valor.
Felipe nunca esqueceu o rosto do responsável.
Nunca.
Foi naquele dia que Felipe morreu.
E Monstro nasceu.
Porque a dor destrói algumas pessoas.
Mas transforma outras em algo pior.
Antes de se tornar um dos homens mais temidos do Dendê, Felipe havia seguido outro caminho.
Entrou para as Forças Armadas ainda jovem.
Era disciplinado.
Forte.
Corajoso.
Um dos melhores de sua turma.
Os instrutores apostavam que ele teria uma carreira brilhante.
Mas existia um problema.
Felipe nunca gostou de receber ordens.
Nunca aceitou ser controlado.
Nunca suportou que alguém decidisse sua vida.
No início, conseguia esconder aquilo.
Mas, conforme os anos passaram, seu temperamento ficou cada vez mais difícil.
Principalmente depois da morte do pai.
A raiva passou a dominar seus pensamentos.
A revolta cresceu.
Ele começou a desafiar superiores.
Questionar comandos.
Ignorar ordens.
Responder oficiais.
Até que o inevitável aconteceu.
Expulsão por indisciplina.
Sua carreira terminou da mesma forma que sua esperança.
Sem honra.
Sem despedidas.
Sem futuro.
Quando deixou o quartel pela última vez, Felipe sentiu que não pertencia mais a lugar algum.
Nem ao Exército.
Nem ao mundo.
Então voltou para o morro.
E decidiu construir seu próprio império.
— Patrão.
A voz interrompeu seus pensamentos.
Felipe virou o rosto.
Quem se aproximava era André, conhecido como Caveira.
Seu braço direito.
O segundo homem mais importante da organização.
Alto, sério e extremamente leal.
Se Monstro mandasse atravessar o inferno, Caveira pisaria nas chamas sem questionar.
Atrás dele vinha Thiago, o gerente do morro.
O terceiro na hierarquia.
Diferente dos outros, Thiago era mais estratégico.
Era ele quem organizava o dinheiro, os estoques, os contatos e mantinha tudo funcionando.
Enquanto Monstro comandava pela força, Thiago comandava pela inteligência.
Os três se reuniram na laje.
— Alguma novidade? — perguntou Felipe.
Caveira assentiu.
— A Bananeira tá se armando.
O olhar de Felipe escureceu.
— Eu já esperava.
— Recebemos informação de que eles compraram mais armamento.
Thiago completou:
— Parece que estão se preparando pra alguma coisa.
Felipe deu uma risada sem humor.
— Eles estão se preparando pra morrer.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Porque todos sabiam que aquela guerra estava longe do fim.
O Morro da Bananeira era comandado pelo homem que Felipe mais odiava no mundo.
O homem que carregava a culpa pela morte de seu pai.
Por isso aquela guerra era diferente.
Não era sobre território.
Não era sobre dinheiro.
Não era sobre poder.
Era pessoal.
Era vingança.
E Felipe estava disposto a incendiar o mundo inteiro para consegui-la.
Mais tarde, alguns homens estavam reunidos em frente ao ponto principal do morro.
A conversa era descontraída.
Algo raro naquele lugar.
— Vi uma menina bonita hoje no sinal — comentou um deles.
— Bonita quanto?
— Muito bonita.
— Toda hora você fala isso.
— Tô falando sério.
Outro homem entrou na conversa.
— Eu também vi.
Os demais olharam curiosos.
— E aí?
— Tinha uns olhos azuis.
— Olhos azuis?
— Juro.
— No Dendê?
— Vendendo trufa.
Os homens trocaram olhares.
— Ah... acho que sei quem é.
— Aquela garota que cuida do pai?
— Isso.
— A mãe dela tá internada, não tá?
— Tá com câncer.
O grupo ficou em silêncio por alguns segundos.
Até mesmo ali, em um lugar acostumado à violência, certas histórias conseguiam despertar compaixão.
— Coitada.
— Muito nova pra carregar tanto peso.
— Ela trabalha igual uma condenada.
— E ainda cuida da irmã pequena.
Caveira, que passava pelo local, ouviu a conversa.
— Estão falando da Mônica?
— Sim.
— Aquela dos olhos azuis.
Caveira assentiu.
— A vida dela é complicada mesmo.
Felipe surgiu logo em seguida.
Os homens imediatamente ficaram sérios.
— Que conversa é essa?
Ninguém respondeu de imediato.
Até que um deles falou:
— Nada demais, patrão.
— Só uma garota do morro.
Felipe nem demonstrou interesse.
— Então parem de falar dela e cuidem da vida de vocês.
A resposta saiu seca.
Fria.
Sem emoção.
Os homens abaixaram a cabeça.
Felipe continuou andando.
Sem fazer perguntas.
Sem demonstrar curiosidade.
Sem imaginar que aquela garota mudaria sua vida.
Naquele momento, ela era apenas mais um rosto perdido em meio aos milhares de moradores do Dendê.
Nada mais.
Quando a noite caiu, Felipe voltou para casa.
Uma casa grande.
Confortável.
Protegida.
Mas completamente vazia.
Sentou-se sozinho na sala.
O silêncio parecia ainda mais pesado naquele horário.
Pegou uma garrafa de bebida.
Serviu um copo.
Depois outro.
E mais outro.
Mas nem o álcool conseguia apagar as lembranças.
Seu olhar caiu sobre uma fotografia antiga.
A única que guardava.
Seu pai estava sorrindo.
Com uma das mãos apoiada em seu ombro.
Felipe encarou aquela imagem por longos segundos.
A garganta apertou.
Uma sensação rara.
Porque Monstro não chorava.
Não demonstrava fraqueza.
Não permitia que ninguém visse suas feridas.
Mas elas existiam.
Estavam ali.
Abertas.
Sangrando todos os dias.
Ele pegou a fotografia nas mãos.
E falou baixo.
Quase num sussurro.
— Eu ainda não terminei, velho.
Seu olhar endureceu novamente.
— Eu vou fazer eles pagarem.
A promessa ficou suspensa no ar.
Sombria.
Perigosa.
Porque Felipe já não sabia mais viver sem o ódio.
Era a única coisa que restava.
A única companhia constante em suas noites.
A única chama que ainda o mantinha de pé.
E enquanto observava a foto do pai, sozinho naquela casa enorme, uma verdade permanecia escondida até mesmo dele:
Por trás do homem temido por todos, existia apenas um filho que nunca conseguiu superar a própria perda.
