OS HERDEIROS  DO MONSTRO

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Capítulo 1 O COMEÇO DE TUDO

Capítulo 1 

Narrativa do Autor 

O despertador nem precisou tocar.

Mônica abriu os olhos antes mesmo do amanhecer. O teto simples de madeira parecia ainda mais escuro naquela madrugada fria. Por alguns segundos, ela ficou parada, encarando as frestas por onde o vento insistia em entrar. O corpo doía. As pernas estavam pesadas. Ela mal havia dormido.

Mas não tinha escolha.

Levantou-se devagar para não acordar a irmãzinha que dormia ao seu lado, abraçada a um urso de pelúcia velho e desgastado pelo tempo. Ana Clara tinha apenas cinco anos e ainda acreditava que tudo ficaria bem.

Mônica invejava aquela inocência.

Caminhou até a pequena cozinha e acendeu a luz fraca. Sobre a mesa estavam os ingredientes que havia comprado no dia anterior. Com movimentos rápidos e acostumados, começou a preparar os doces que venderia nos sinais.

Enquanto mexia a panela, seus pensamentos estavam longe dali.

Estavam no hospital.

Na mãe.

A cada dia que passava, Dona Helena parecia menor naquela cama branca. Mais frágil. Mais cansada.

O câncer estava vencendo uma batalha que ela lutava com todas as forças para ganhar.

Uma lágrima escapou pelo rosto de Mônica.

Ela a limpou rapidamente.

Não podia chorar.

Não agora.

— Filha...

A voz rouca veio da sala.

Mônica desligou o fogo e correu até lá.

Seu pai estava acordado na cadeira de rodas, observando-a.

Os cabelos já estavam quase completamente brancos, embora ele ainda não fosse tão velho.

A vida tinha envelhecido aquele homem antes do tempo.

— O senhor devia estar descansando — ela disse.

Ele sorriu de forma triste.

— E você devia estar dormindo.

Mônica abaixou os olhos.

Nenhum dos dois respondeu.

Porque ambos sabiam que aquilo era impossível.

— Tem pão? — ele perguntou, hesitante.

O coração dela apertou.

Ela abriu o armário.

Vazio.

Abriu outro.

Vazio.

Apenas um pacote de bolachas quebradas.

Mônica engoliu o nó na garganta.

— Eu dou um jeito.

O pai percebeu imediatamente.

E a vergonha atravessou seu rosto.

— Me desculpa, filha.

Ela se ajoelhou diante dele.

— Nunca mais fala isso.

— Eu devia cuidar de vocês.

— E cuida.

— Não como deveria.

Mônica segurou suas mãos.

— O senhor é meu pai. Isso já basta.

Mas ambos sabiam que aquela resposta não diminuía a dor.

Pouco depois, Ana Clara acordou.

A menina correu até a cozinha.

— Bom dia, Moni!

Mônica abriu um sorriso instantâneo.

Aquele sorriso que escondia todas as suas feridas.

— Bom dia, princesa.

— Mamãe volta hoje?

A pergunta atingiu seu peito como uma faca.

Ela demorou alguns segundos para responder.

— Ainda não, meu amor.

— Mas ela vai voltar?

Mônica sentiu os olhos queimarem.

— Vai sim.

Era mentira.

Ou talvez esperança.

Naquele momento, ela já não sabia diferenciar uma coisa da outra.

Duas horas depois, Mônica estava parada no sinal.

Os carros passavam sem sequer olhar para ela.

— Brigadeiro! Trufa! Dois por cinco!

Algumas pessoas ignoravam.

Outras fechavam os vidros.

Algumas fingiam mexer no celular.

Como se ela não existisse.

Como se fosse invisível.

O sol começou a castigar antes mesmo do meio-dia.

O suor escorria por sua testa.

Mas ela continuava.

Precisava continuar.

Precisava comprar comida.

Precisava pagar os remédios.

Precisava ajudar a mãe.

Precisava sobreviver.

Um carro de luxo parou no sinal.

Mônica se aproximou da janela.

— Boa tarde, senhor. Gostaria de comprar uma trufa?

O homem olhou para ela de cima a baixo.

Com desprezo.

— Vai procurar um trabalho de verdade.

O sinal abriu.

O carro arrancou.

E deixou para trás apenas fumaça e humilhação.

Mônica ficou parada.

Por um segundo.

Dois.

Três.

Então respirou fundo.

E seguiu em frente.

Porque orgulho não enchia barriga.

Já era noite quando ela chegou ao hospital.

O cheiro de remédio e desinfetante parecia mais forte a cada visita.

Ela caminhou pelos corredores com o coração acelerado.

Quando entrou no quarto, encontrou a mãe dormindo.

Ou pelo menos parecia estar.

Dona Helena estava tão magra que Mônica mal conseguia reconhecer a mulher forte que a criou.

Sentou-se ao lado da cama.

Segurou sua mão.

E ficou em silêncio.

Até que a mãe abriu os olhos lentamente.

— Minha menina...

Mônica sorriu.

— Oi, mãe.

— Você está cansada.

— Estou bem.

— Mentira.

A voz saiu fraca.

Mas firme.

Porque mãe sempre sabe.

Sempre.

— Eu vi seus olhos.

Mônica desviou o olhar.

— Não precisa se preocupar comigo.

— Como não?

A mulher apertou sua mão com dificuldade.

— Você carrega o mundo nas costas.

As lágrimas começaram a surgir.

— Eu só estou fazendo o que precisa ser feito.

— Você deveria estar estudando...

— Mãe...

— Deveria estar vivendo...

A voz falhou.

— Fazendo amigos.

— Mãe...

— Sonhando.

Mônica não conseguiu mais segurar.

As lágrimas escorreram livremente.

— Meu sonho é ver a senhora em casa.

O silêncio tomou conta do quarto.

Dona Helena chorou.

Mônica chorou.

E por alguns minutos nenhuma delas conseguiu dizer mais nada.

Porque existiam dores que as palavras não conseguiam alcançar.

Quando voltou para casa, já passava das dez da noite.

Ana Clara estava dormindo.

O pai assistia televisão com o volume baixo.

Mônica sentou-se à mesa.

Pegou a pequena bolsa onde guardava o dinheiro.

Começou a contar.

Uma nota.

Outra.

Algumas moedas.

Mais moedas.

Quando terminou, sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

Não era suficiente.

Não chegava nem perto.

Nem para os remédios.

Nem para a comida.

Nem para a passagem do hospital.

Nada.

Absolutamente nada.

Ela permaneceu encarando aquele monte de moedas.

Tentando encontrar uma solução.

Qualquer solução.

Mas não havia nenhuma.

Pela primeira vez em muito tempo, Mônica sentiu medo.

Um medo verdadeiro.

Cruel.

Daqueles que roubam o ar dos pulmões.

Porque ela não sabia o que faria amanhã.

E, pela primeira vez, não tinha certeza se conseguiria salvar sua família.

Ela fechou os .

E chorou em silêncio.

Sozinha.

Enquanto as moedas permaneciam espalhadas sobre a mesa.

O pai dormia na sala.

A irmãzinha sonhava tranquilamente no quarto.

E, pela primeira vez, Mônica não fazia ideia de como colocaria comida dentro de casa no dia seguinte.

Mas, ainda assim, quando amanhecesse, ela se levantaria outra vez.

Porque desistir nunca foi uma opção.

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