Capítulo 4 O início de uma rara obsessão
Andy Alf sai do escritório pouco depois de Camille, certificando-se de que ela está bem. Para isso, pede ao motorista que siga o transporte público em que Camille vai, sem perder de vista nenhuma das paradas. Finalmente, quarenta minutos depois, e bem longe de onde ficava a empresa, ela desce. Caminha algumas quadras até o bairro humilde onde estavam e ele a vê tirar as chaves de uma casa — uma casa muito pequena e nada firme, que parecia a cozinha de sua mansão. Ela entra. Alguns minutos depois, uma luz se acende no lado esquerdo da casa. Uma silhueta se inclina junto à janela e tira as roupas largas; a sombra reflete um corpo feminino magro e perfeito, com um belo busto erguido e uma cintura de sonho. Andy se dá conta da invasão que está cometendo, envergonha-se de si mesmo imediatamente e vai embora.
Nos dias seguintes, em meio à sua perfeição, encaixaria quinze minutos em sua agenda lotada para observar Camille em seu escritório. Parecia que estava vendo um anjo; aquela mulher humilde não saía de sua cabeça. Observou que ela passava o tempo no computador, cumprindo todo o trabalho que lhe era atribuído, e sentiu-se mal pela forma como a repreendera pelo pequeno erro cometido no relatório. Nos dias em que ela ficava fazendo horas extras, ele também ficava, para cuidar dela.
— Andy, querido, você não tem saído comigo ultimamente. Toda sexta-feira você fica neste escritório. Está me negligenciando demais — Keyra se aproxima de Andy enquanto ele olha para a tela do computador. Ele muda a imagem de Camille e volta a exibir um relatório.
— Keyra, tive muito trabalho nos últimos dias — ele responde sem sequer olhar para ela.
Andy e Keyra ficaram noivos a pedido dos pais. Ela era alguns anos mais velha que Andy e era uma modelo reconhecida e famosa do show business internacional; trabalhava para os melhores estilistas e, como ele, era multimilionária. Só conviviam com as pessoas mais reconhecidas da alta sociedade, e a aparência era o mais importante para ambos.
Além de ser uma mulher deslumbrante e bonita, agia como Andy: obcecada por ordem, horários e perfeição. Para duas pessoas frias e calculistas como eles, dinheiro e bom nome eram o que deveria prevalecer na hora de firmar um noivado; por isso, decidiram unir em casamento os sobrenomes das melhores famílias da cidade.
— Bem, querido, se você quer ficar aqui no seu escritório nesta sexta-feira, vou deixar você colado a esse laptop. Eu tenho que ir; tenho uma noite com algumas modelos famosas da Versace, não posso perder essa oportunidade. Amo você — Keyra se aproxima e dá um beijo no rosto de Andy. Entre os dois não havia paixão real.
Ele sabia que, às sextas-feiras, por algum motivo, Camille fazia entre quatro e cinco horas extras. Muitas vezes ele não tinha trabalho para fazer, apenas ficava em seu escritório observando aquela bela mulher pela câmera.
De repente, vê como ela pega o pequeno celular e recebe uma ligação. Ela se levanta do assento e começa a segurar a cabeça; agora está em lágrimas, andando desesperadamente pelo escritório. Ele sente, de repente, um sentimento de compaixão invadi-lo, e vê a necessidade de ir até o escritório dela.
Ele bate duas vezes na porta. Camille se sobressalta e abre. Seu rosto está vermelho de tanto chorar. Enxuga as lágrimas e sente uma vergonha infinita ao ver quem é, mas fala em sua defesa:
— Senhor, me desculpe se estava me observando. Prometo que vou compensar o tempo, ou, se preferir, não precisa me pagar essa hora extra — ela abre a porta e vai até sua mesa, esperando a pior das sanções.
— Camille, de jeito nenhum. Só estou aqui para ver o que está errado com você. Por que está chorando desse jeito? — Andy reflete uma preocupação repentina.
— O senhor está me espionando o tempo todo, Sr. Alf? — ela diz, um tanto confusa.
— Não, de jeito nenhum. Foi uma coincidência. Eu estava apenas verificando as câmeras da empresa e vi você. Achei que algo estivesse errado.
Camille desaba em lágrimas e aperta a cabeça, sem se importar mais com quem a observava.
— Minha mãe tem câncer, e o tratamento não está funcionando. Na cidade onde ela mora, os hospitais são precários e, apesar de eu ganhar muito bem aqui como secretária, não tenho condições de trazê-la e à minha irmã para a cidade.
— Camille, sinto muito pela sua mãe. Sinto muito também pela sua posição de secretária, mas aqui contratamos de acordo com a formação acadêmica.
— Sr. Alf, sou psicóloga profissional. Acredite, ser secretária não está dentro dos meus planos a longo prazo. Estudei com muito esforço, e o dos meus pais, para terminar minha graduação, e aqui estou como um rato, escondida.
— Como assim, você é profissional? O que faz de secretária?
— Bem, porque era a única vaga disponível. Não tenho mestrado nem doutorado, não sou ninguém — Camille agora chora mais alto e mais desesperada.
Andy sente uma compaixão que nunca sentira por ninguém e a toma nos braços, abraçando-a com tanta força que preferiu sentir que era ele quem precisava do conforto dela. Sua vida era tão quadrada que o contato físico era limitado até mesmo com a noiva.
Ela absorve o cheiro dele e se envergonha; rapidamente se solta do abraço e se vira para limpar o rosto.
— Desculpe-me, senhor. Deixei-me levar pelos meus sentimentos, não vai acontecer de novo — pega a bolsa, certifica-se de que o computador está desligado e sai dali.
Andy, o obsessivo e perfeito CEO da empresa mais importante da cidade, se deixara cativar por uma mulher simples. Se tivesse dado aquele abraço em outra pessoa, estaria imediatamente queimando as próprias roupas; não suportaria o cheiro que emanava das roupas velhas daquela mulher. Mas Camille era diferente, era especial. Ele não fazia ideia do que ela viria a ser para ele.
Perturbada e desejosa
