obsessão e desejo

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Capítulo 2 UMA NOVA VIDA

Camille, desesperada por não ter assinado o contrato, chega em casa em lágrimas, sua frustração maior do que sua vontade de disfarçar. 

— Mas, meu amor, o que aconteceu com você? — Ângela abraça a filha assim que a vê entrar. 

— Mãe, eu perdi a oportunidade da minha vida. Me ligaram da ALF Y Asociados para me oferecer uma vaga, com um salário que você nem imagina. Eu tinha que assinar o contrato digital antes das seis da tarde, e adivinha? 

— Que foi, menina, o quê? — a mãe de Camille fica desesperada. 

— Bem, eu esqueci. Não há nada a fazer, não existe lugar onde eu possa acessar meu e-mail aqui. Perdi a única chance, mãe. — Camille se derrete nos braços da mãe, em lágrimas. 

Até que são interrompidas por Salomé, a irmã mais nova. 

— Oi, Cam, você precisa de internet? De um computador? — ela responde alegremente, como se não fosse nada importante. 

— Sim, é pequeno... mas você sabe que não há nada disso nesta cidade. 

— Eu sei onde podemos encontrar um. A mãe da minha amiga Flory trabalha em casa e tem um computador; ela pode emprestar, e tem um modem que dá internet. A gente já jogou na internet lá. Ela mora a três casas daqui, vamos? 

— Vamos, sim! — O rosto de Camille muda completamente; agora ela se sente esperançosa. Minutos depois, estão na casa da amiguinha. Ela faz a assinatura digital do documento e volta para casa. 

Seu telefone toca depois das oito e meia. 

— Alô? — Agora atende nervosa. 

— Olá, Camille, aqui é a Marta. Liguei para você esta tarde sobre seu contrato com a ALF Y Asociados. Lamento informar que não posso contratá-la; você me enviou o contrato tarde demais. 

— Senhorita Marta, sinto muito, nesta cidade não há uma maneira fácil de acessar a internet. Por favor, não me deixe sem essa oportunidade. — Agora sua voz falhava, e ela sabia que, se não fosse trabalhar ali, tudo ficaria pior. 

— Infelizmente... Não faça esse drama, por favor. Vou abrir uma exceção para você, porque seu currículo e seus testes foram impecáveis. Mas quero lhe dizer que, se há algo muito importante na empresa, é a pontualidade: um único dia de atraso já gera uma advertência, e com três advertências você é demitida e recebe o acerto. O CEO é uma pessoa muito rigorosa e já tem as informações sobre você. Esperamos você na segunda-feira, às oito da manhã, com excelente apresentação pessoal. Não se atrase; ele já deu todas as instruções. Adeus. 

A mulher nem deixou Camille responder, mas, assim que a ligação foi encerrada, ela, a mãe e a irmã se derreteram em um abraço. 

A condição humilde de Camille dificultava sua vida, mas, com imensa dor, ela decidiu ir morar na cidade, onde uma tia lhe ofereceu hospedagem por alguns dias. Tinha o fim de semana para organizar tudo; no domingo de manhã já estava viajando, deixando a mãe e a irmã, prometendo que voltaria todos os finais de semana para visitá-las. A cidade ficava a cerca de quatro horas de distância, o que lhe daria tempo de voltar para casa. 

A casa da tia era tão humilde quanto a da mãe, mas, ao contrário dela, a tia era uma pessoa desagradável. Concordou em deixá-la ficar por alguns dias, com a condição de que Camille lhe pagasse assim que recebesse o primeiro salário — e depois arranjasse outro lugar para morar. 

Segunda-feira, 8h — ALF & Associados 

Camille chega à empresa onde foi contratada, vestida com uma jaqueta preta um tanto usada, calças formais e saltos antiquados que a mãe lhe emprestara. Quando começou a se arrumar para o novo emprego, percebeu que não tinha uma única roupa elegante que a deixasse bonita, então, da melhor forma que pôde, pegou emprestadas roupas velhas para poder se apresentar. 

Faltavam cinco minutos para as oito; ela tinha corrido por toda a cidade — da parada do trem até a empresa eram cerca de dez minutos, e ela correu. Suas bochechas estavam coradas, e ela não parecia estar em seu melhor estado. 

Antes de entrar, os seguranças pedem seus documentos, mas ela fica sem entender, pois sempre ficara na casa da tia. 

— Senhorita, já lhe disse que, sem seu documento, não podemos deixá-la entrar. Sentimos muito — diz um homem de terno escuro, encarregado da segurança. 

— Senhor, por favor, olhe: eu vou trabalhar aqui hoje. Ligue para a dona Marta; faltam dois minutos para as oito horas, posso perder o emprego — implora Camille. 

— Ela não entende que não pode entrar. Além disso, olhe, nem sei como a contrataram, veja como ela está apresentável — responde ele, em tom pejorativo. 

Camille fica frustrada e tenta ligar para Marta. Está em um dos degraus da entrada, tentando fazer seu telefone antigo pegar sinal, e, sem saber para onde está olhando, esbarra em um homem. O aroma dele invade seu nariz, e seus olhos ficam arrebatados ao ver quem estava à sua frente. Era Andy Alf. 

O homem mais bonito que seus olhos já tinham visto na vida. Suas bochechas coram, e ela morre de vergonha. Ao lado desse homem lindo vai uma loira da mesma altura, perfeitamente arrumada, parecendo uma rainha da beleza, com um vestido vermelho que a cobria de forma escultural. Os dois pareciam ter saído de uma revista. 

— Ei, imunda! Tenha mais cuidado — Keyra Jones, noiva de Andy Alf, diz a ela. 

— Keyra, por favor! Onde estão suas maneiras? — Andy bufa para ela. 

— Desculpe-me, eu estava um pouco distraída, sinto muito — Camille abaixa a cabeça, constrangida. 

— Agora vou ter que trocar de roupa, aquela mulher me impregnou com seu mau cheiro — diz Keyra enquanto se afastam das escadas. 

Camille tenta localizar o telefone de Marta, mas, para sua consternação, nem sequer tem dinheiro para ligar e informar que está do lado de fora. Como quis o destino, é Marta quem liga para ela. 

— Menina, o que aconteceu com você? Já dei a ordem para que você entrasse. Precisou logo esbarrar com o CEO? Que falta de sorte. 

— Dona Marta, muito obrigada. Como a senhora sabia? — ela responde, intrigada. 

— Temos câmeras em todos os lugares. Um dos homens na porta me disse que você já estava aqui, mas que não tinha o documento. Olhei para ter certeza de que era você e vi que caiu no chão. Suba, vou esperá-la imediatamente. Você deve registrar sua chegada; vou mudar o horário do compromisso. 

Camille sobe imediatamente para a empresa. Todas as instalações são equipadas com a mais alta tecnologia, os funcionários usam roupas bonitas, e ela se sente infeliz por estar vestida com aquelas peças emprestadas; seu cabelo está penteado, mas não totalmente liso. 

Quando chega até Marta, sente como todos a olham com desprezo, e por dentro há um sentimento de frustração. 

Marta explica-lhe todas as suas atribuições e a deixa em seu local de trabalho, que evidentemente correspondia ao modo como ela se vestia: um pequeno escritório atrás de todos os principais, onde não entrava muita luz — mas, ao menos, também não chegavam os olhares dos colegas mais bem-vestidos apontando sua pobreza. 

Nos dias seguintes, limitou-se a fazer os relatórios de recursos humanos da empresa, trocando palavras apenas com Marta e relacionando-se pouco com os outros. Era estigmatizada pela forma como se vestia e por sua condição econômica, apesar de este trabalho ter mudado sua vida — e isso a fazia se sentir mal. 

Era uma sexta-feira de manhã. Andy Alf, como todos os dias, começa sua rotina às quatro da manhã. Naquela noite não tivera um bom descanso, então seu humor estava terrível, mais do que o normal. Hoje seria um inferno total para os funcionários que cometessem qualquer erro. Às oito da manhã, quando todos já estavam trabalhando, sentou-se à sua mesa para revisar minuciosamente cada relatório; se faltasse um acento ou uma vírgula, o devolveria. E, para infelicidade de Camille, havia um pequeno erro de escrita no dela. 

O telefone em seu pequeno escritório toca pela primeira vez desde que ela chegou para trabalhar. Ela atende. 

— Camille Ibis, venha ao meu escritório em dois minutos. 

Ela não tinha ideia de quem a estava chamando, então pergunta a Marta, que a olha com um rosto severo e diz que ela tem trinta segundos para chegar ao escritório daquele homem. 

Camille, sem acreditar nas palavras de Marta, segue despreocupada pelo corredor que leva ao escritório de Andy, sob o olhar dos colegas. Caminha calmamente, sem medo do que aquele chefe, que ela mal conhecia, poderia lhe fazer.

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