O Tributo de Sangue da Máfia

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Capítulo 3 Anya

Três semanas passaram como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar.

Três semanas desde que fui arrancada do escritório de Viktor Petrov. Três semanas desde que descobri que eu era o Tributo de Sangue. Três semanas esperando naquele quarto no porão, no escuro, sem saber o que fariam comigo, sem saber se eu ia viver ou morrer.

Eles não me disseram nada. Não me explicaram nada. Os guardas só me traziam comida uma vez por dia e trancavam a porta atrás deles.

Eu estava sozinha com o meu medo e com o fantasma da voz do meu pai me mandando ser corajosa.

Eu tentei ser corajosa. Mas era difícil ser corajosa quando eu nem sabia o que estava por vir.

Na manhã do equinócio de outono, vieram me buscar.

Dois guardas que eu não reconheci me puxaram para fora do meu quarto antes do amanhecer. Tentei perguntar para onde estavam me levando, mas um deles enfiou um pano na minha boca. Em seguida, cobriram minha cabeça com um saco áspero que cheirava a terra e sangue. Minhas mãos foram amarradas para trás com abraçadeiras de nylon que cortavam meus pulsos.

Eu não conseguia ver. Eu não conseguia falar. Eu só conseguia sentir as mãos me arrastando pelos corredores, subindo as escadas e me jogando dentro de um carro que dirigiu por horas — pelo menos foi o que pareceu.

Meu coração não parava de disparar. Minha respiração veio rápida demais debaixo do saco. Tentei me lembrar da voz da minha mãe, tentei cantarolar as canções de ninar dela na minha cabeça para me acalmar, mas o meu medo era alto demais.

Que destino eu ia enfrentar?

Quando o carro finalmente parou, eles me arrastaram para fora e para dentro de um prédio. Ouvi portas abrindo e fechando. Ouvi passos em piso de mármore. Ouvi vozes — muitas vozes — falando em tons baixos.

Então arrancaram o saco da minha cabeça.

A luz cegava. Pisquei, tentando enxergar, tentando entender onde eu estava.

Fizeram eu me ajoelhar no mármore gelado de um salão de baile enorme. O lugar era lindo. Lustres de cristal pendiam do teto. As janelas, do chão ao teto, mostravam florestas que pareciam se estender para sempre. Tudo era preto e dourado, cheio de linhas duras, de arestas.

E havia homens por toda parte.

Dezenas deles, de ternos caros, em pequenos grupos, bebendo em taças de cristal, observando a gente como se fôssemos animais num zoológico. Os rostos eram rígidos e frios. Os olhos, vazios de qualquer bondade. Eram esses homens que mandavam em Moscou. Os homens que decidiam quem vivia e quem morria. Eu conseguia ver Viktor Petrov e Ivan no meio deles.

Eu não estava sozinha no chão. Outras seis garotas se ajoelhavam ao meu lado; estávamos vestidas com vestidos brancos, todas amarradas com abraçadeiras de nylon que continuavam cortando nossos pulsos. Algumas choravam. Uma garota tremia tanto que os dentes batiam. Outra, loira, com um sotaque ucraniano, rezava baixinho.

Eu queria chorar também. Eu queria gritar. Eu queria correr.

Mas mantive o olhar firme e fiquei quieta, porque foi isso que me manteve viva por quatro anos. Foi isso que a minha mãe me ensinou. Fique pequena. Seja esperta. E você sobrevive.

Então eu vi ele.

Na frente do salão, sobre uma plataforma elevada, havia uma cadeira que parecia um trono, feita de madeira preta e couro escuro. E nela estava sentado o ser mais aterrorizante que eu já tinha visto.

Ele era alto mesmo sentado. Devia ter quase dois metros — por volta de um metro e noventa e cinco. Tinha o cabelo escuro, um pouco bagunçado, como se tivesse passado a mão nele. O rosto tinha ângulos afiados e traços duros. Maçãs do rosto altas. Mandíbula forte. Uma boca que parecia nunca sorrir.

Mas foram os olhos dele que fizeram minha respiração travar.

Olhos cinza de tempestade. Frios e distantes como o céu de inverno. Olhos que encaravam nós sete ajoelhadas no chão dele com completa indiferença. Como se a gente não fosse nada. Como se a gente fosse menos do que nada.

Ele era devastadoramente bonito do mesmo jeito que uma tempestade de inverno é bonita. Frio, impiedoso e absolutamente mortal.

E eu percebi, horrorizada, quem ele era.

Nikolai Markov.

O filho de Leonid Markov. O homem cujo pai tinha jogado o meu pai na prisão dez anos antes. O homem que tinha ordenado a morte do meu pai um mês atrás.

Eu estava ajoelhada como uma simples oferta diante do monstro que matou o meu pai. Até onde o meu destino ainda podia piorar?

Meu estômago virou gelo. Minhas mãos começaram a tremer tanto que as abraçadeiras entraram mais fundo nos meus pulsos. Sangue pingou no meu vestido branco, deixando pequenos pontos vermelhos.

Um homem mais velho estava de pé ao lado da plataforma, segurando uma prancheta. Ele pigarreou, e o salão inteiro ficou em silêncio.

— Senhores das cinco famílias — anunciou ele, e a voz ecoou pelo salão de baile. — Estamos reunidos para o décimo Tributo de Sangue do reinado Markov. Cada família trouxe uma oferta, demonstrando lealdade e quitando dívidas antigas.

O homem começou a ler nomes na prancheta.

— Sasha Ivanova, dezenove anos, oferecida pela Bratva Volkov. Filha de um informante da polícia.

A garota loira ao meu lado foi empurrada para a frente. Ela desabou de vez, chorando tanto que não conseguia ficar em pé. Dois seguranças tiveram que arrastá-la até a plataforma.

Nikolai Markov mal olhou para ela. Fez um gesto com a mão, uma vez, com desdém.

— Mandem para os alojamentos dos empregados.

Os seguranças arrastaram Sasha embora. Os gritos dela ecoaram pelo salão de baile até uma porta se fechar e cortar o som.

— Marina Volkova, vinte e três anos, oferecida pela Bratva Ivanov. Irmã de um traidor que roubou das operações da família.

Uma ruiva de olhos ferozes se manteve firme e caminhou até a plataforma com o queixo erguido. Eu admirei a coragem dela, mesmo enxergando as mãos tremendo.

Nikolai olhou para ela por três segundos. Então fez o gesto de novo.

— Alojamentos dos empregados.

Uma por uma, as garotas foram chamadas. Uma por uma, foram mandadas embora para trabalhar na propriedade. Algumas choravam. Algumas imploravam. Uma desmaiou e teve que ser carregada para fora.

Nikolai Markov aceitava cada garota com a mesma indiferença gelada. Como se fosse entediante. Como se nós não fôssemos mais do que móveis sendo entregues.

Eu contei as garotas. Cinco tinham sido chamadas. Depois seis.

O que significava que eu era a próxima.

Meu coração batia tão forte que eu achei que ia romper as costelas. Minha visão começou a embaçar nas bordas. Eu me senti tonta, enjoada, como se fosse desmaiar também.

Por favor, eu rezei para o fantasma da minha mãe. Por favor, deixa eu sobreviver a isso.

Então o homem com a prancheta olhou direto para mim.

— Anya Koslov — anunciou, e a voz dele pareceu mais alta do que antes. — Vinte e dois anos, oferecida pela Bratva Petrov.

Eu ouvi um burburinho se espalhar pelo salão. Ouvi homens se mexendo, se inclinando para a frente, de repente interessados. Viktor Petrov ajeitou o terno, com expressão animada.

O homem continuou lendo:

— Filha do detetive Marco Koslov, o homem que matou três soldados de Leonid Markov dez anos atrás e quase destruiu todo o sistema da Bratva com o depoimento dele.

O salão ficou completamente silencioso.

Nenhum copo tilintou. Nenhum pé se moveu. Nenhuma respiração foi tomada.

Isso não era só um Tributo de Sangue. Era vingança servida fria.

Mãos fortes agarraram meus braços e me puxaram de pé. Minhas pernas tremiam tanto que eu quase caí. Os seguranças me arrastaram para a frente, em direção à plataforma, em direção a ele.

Todos os olhos no salão estavam em mim. Eu senti os olhares como lâminas cortando minha pele. Eu ouvi sussurros começando, se espalhando pela multidão como fogo.

— A filha do detetive.

— A criança do traidor.

— Ela tá morta.

Eu subi os três degraus até a plataforma com pernas que não pareciam minhas. Meus pés descalços não fizeram som no mármore.

Eu parei a poucos centímetros da cadeira de Nikolai Markov.

Ele era ainda mais assustador de perto.

Eu mantive a cabeça baixa, encarando os sapatos pretos dele, tentando não tremer, tentando não chorar, tentando não pensar que esse homem tinha matado meu pai.

— Olha pra mim — ele ordenou.

A voz dele era baixa, mas mortal. Uma ordem que parecia vir do inferno.

Eu ergui a cabeça devagar. Me obriguei a encarar aqueles olhos cinza-tempestade que pareciam prateados sob a luz do lustre.

Nikolai Markov se levantou. Ele era tão alto que, de pé, me fez parecer ainda menor. Ele desceu os degraus até mim com movimentos suaves, controlados.

Parou a poucos centímetros. Tão perto que eu sentia o calor do corpo dele. Tão perto que eu conseguia sentir o cheiro da colônia cara.

— Seu pai matou os homens do meu pai — ele disse, a voz baixa, mas alta o suficiente para todo mundo ouvir.

Eu quis defender meu pai. Eu quis dizer que meu pai era um homem bom, que ele estava tentando impedir a Bratva de machucar pessoas inocentes.

Mas as palavras morreram na minha garganta. Porque defender meu pai agora só pioraria tudo. Só deixaria Nikolai ainda mais furioso.

Então eu fiquei em silêncio.

A mão de Nikolai se estendeu devagar. Os dedos dele tocaram meu maxilar, inclinando meu rosto mais para cima, me obrigando a continuar olhando para ele.

O toque não foi gentil. Fez minha pele arder.

— Você tem os olhos dele — ele disse, baixo. — Você se lembra daquele julgamento, fantasminha?

Eu balancei a cabeça. Eu tinha doze anos quando meu pai foi preso. Não tinham deixado eu ir ao julgamento.

— Não? — eu sussurrei.

O polegar de Nikolai roçou de leve meu lábio inferior.

— Isso é bom. Porque, se você lembrasse, saberia exatamente o quanto eu odeio esses olhos.

Ele soltou meu rosto e deu um passo para trás.

— Eu aceito este Tributo de Sangue — ele disse.

O salão explodiu em aplausos e vozes. Homens ergueram os copos, sorrindo como se aquilo fosse uma grande vitória.

Mas eu mal ouvi qualquer coisa.

— Mandem as outras para os alojamentos dos empregados — ele disse, com clareza.

Então os olhos cinza-tempestade dele se prenderam nos meus outra vez.

— Essa aqui fica comigo. — Ele sorriu de canto.

O salão ficou em silêncio.

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