O Tributo de Sangue da Máfia

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Capítulo 2 Nikolai

Eu estava no meu escritório, olhando os relatórios dos meus tenentes. Remessas de drogas da família Volkov. Licenças de construção da família Zaytsev. Uma disputa entre os Voronin e os Ivanov por território que precisaria ser resolvida antes de virar uma guerra.

Essa era a minha vida. Problemas sem fim, violência sem fim, controle sem fim.

Moscou pertencia a cinco famílias. Cinco grandes Bratvas que tinham dividido a cidade como um banquete. Cada família controlava territórios diferentes, negócios diferentes e tipos diferentes de violência. E, por dez anos, eu governei as cinco famílias com controle absoluto. Consolidei poder, eliminei rivais, construí um império movido a medo e ordem perfeita. Eu era o Pakhan, o monstro que até monstros temiam, o homem que nunca sorria e nunca mostrava fraqueza.

A propriedade dos Markov ficava nos arredores de Moscou como uma fortaleza. Doze hectares de terra cercados por muros com câmeras e guardas armados no topo. A casa em si era um monumento à elegância brutal. Pedra negra e madeira escura, janelas do chão ao teto que davam para florestas que pareciam se estender para sempre.

A porta se abriu e Mikhail entrou sem bater. Ele era meu segundo em comando, a única pessoa com esse privilégio. O único homem em quem eu confiava num mundo feito de traição.

— As famílias confirmaram as ofertas para o próximo Tributo de Sangue — disse Mikhail, colocando uma pasta na minha mesa. — Sete garotas ao todo.

Eu não levantei os olhos dos relatórios. O Tributo de Sangue era uma tradição, mais antiga do que a própria memória. A cada equinócio de outono, as cinco famílias traziam ofertas. Garotas de famílias inimigas, filhas de traidores, crianças de devedores. Era uma demonstração de lealdade, um lembrete do meu poder, um ritual com o qual eu nunca me importei.

— Não me interessa — eu disse, seco.

— Você devia olhar a lista — Mikhail murmurou.

Havia algo no tom dele que me fez parar. Eu ergui o olhar para ele. O rosto de Mikhail estava cuidadosamente neutro, mas eu conhecia aquela expressão. Ele tinha encontrado algo interessante. Algo que achava que importaria para mim.

Estendi a mão para a pasta e abri. Meus olhos correram pelos nomes depressa. Filhas de ladrões, informantes, traidores. Nada fora do normal. Nada que chamasse minha atenção.

Mas então eu parei num nome.

Anya Koslov. Vinte e dois anos. Filha do detetive Marco Koslov.

Minha mão apertou o papel.

Marco Koslov. O detetive que tinha matado três homens do meu pai durante uma batida, dez anos antes. O homem que tinha deposto diante de um grande júri, que quase derrubou todo o sistema da Bratva. Meu pai, Leonid Markov, usou poder e conexões para virar o caso. O detetive acabou sendo preso no lugar. E, um mês atrás, eu tinha ordenado a morte dele poucos dias antes da data marcada para a soltura.

Eu queria que ele soubesse que nunca seria livre. Que a luta dele contra nós tinha sido inútil. Que, no fim, nós vencíamos.

— Os Petrov vão oferecer ela — disse Mikhail, observando meu rosto com cuidado. — Eles estão com ela há quatro anos, fazendo ela pagar a dívida do pai.

Quatro anos. Ela tinha sido criada deles por quatro anos enquanto o pai apodrecia na prisão. Enquanto eu erguia meu império, mais alto e mais forte. Enquanto a vida dela desmoronava, pedaço por pedaço.

— Quero ver o dossiê dela — eu disse, com a voz fria e controlada. — Tudo.

Mikhail hesitou.

— Nikolai, ela é só mais uma menina de serviço. Não tem nada de especial nela. Os Petrov provavelmente só querem te impressionar oferecendo a filha do detetive.

— Tudo — repeti, e o meu tom não deixou espaço para discussão.

Mikhail assentiu e saiu. Eu fiquei sozinho no meu escritório, encarando aquele nome no papel.

Naquela noite, Mikhail voltou com um dossiê grosso. Eu dispensei ele e passei horas lendo cada detalhe da vida de Anya Koslov.

Ela tem vinte e dois anos, mas, de acordo com as anotações, parecia ter dezesseis. Trabalhara como criada por quatro anos sem problemas disciplinares. Era quieta e obediente. O irmão mais novo dela, Dmitri, de catorze anos, tinha sido levado pela família Ivanov como garantia, e ela não o via havia quatro anos.

Havia uma fotografia presa com um clipe na frente do dossiê.

Puxei para mais perto e a examinei sob a luz. Uma menininha de olhos enormes e escuros e cabelo comprido e escuro encarava a câmera como um animal assustado. Tinha traços delicados, pele pálida, o rosto em formato de coração. Parecia frágil, quebradiça, como uma boneca de porcelana que se estilhaçaria se você a segurasse com força demais.

Ela parecia tanto com o pai.

Aqueles olhos, principalmente. Grandes, escuros e cheios de determinação.

Fiquei encarando aquela fotografia por um bom tempo. Mais tempo do que eu devia. Mais tempo do que fazia sentido.

Meu pai tinha me ensinado que misericórdia era fraqueza. Que sentimento era um luxo que a gente não podia se permitir. Cada ação tinha que servir a um propósito, tinha que fortalecer a nossa posição e tinha que lembrar todo mundo por que nós mandávamos.

E aceitar Anya Koslov como meu Tributo de Sangue mandaria um recado a qualquer um que pensasse em trair a Bratva. Nós vamos encontrar seus filhos, e vamos fazê-los pagar pelos seus pecados. Vamos tirar tudo de você, mesmo depois de você estar morto.

Era estratégico e lógico. O tipo de jogada que meu pai teria feito.

Mas não era por isso que eu não conseguia parar de olhar para a fotografia dela.

Eu não sabia por quê. Eu não queria saber por quê.

A porta se abriu de novo, e Mikhail voltou com uma garrafa de vodca e dois copos. Ele serviu sem perguntar e deslizou um copo pela minha mesa.

— Você está pensando demais nessa garota — ele disse, com cuidado.

— Eu estou pensando de forma estratégica — respondi, simples. — Marco Koslov era um problema. O depoimento dele quase nos destruiu. Pegar a filha dele deve mandar um recado.

— A gente já mandou um recado quando matou ele na prisão. — Mikhail virou a vodca de uma vez. — Essa garota não é nada. Uma criada que esfrega chão. Por que você se importa?

Eu não respondi. Eu não conseguia responder. Porque eu não sabia.

— A cerimônia é daqui a três semanas — Mikhail continuou. — As cinco famílias vão estar lá. Se você quer recusar a oferta dos Petrov, agora é a hora de dizer. Depois que você aceitar ela na frente de todo mundo, ela vira sua responsabilidade.

— Eu sei como isso funciona — eu disse, frio.

— Sabe? — Mikhail se inclinou para a frente. — Porque você nunca manteve um Tributo de Sangue antes. Você sempre manda eles trabalharem na propriedade e esquece. Mas eu vejo a sua cara quando você olha o dossiê dessa garota. Isso é diferente.

— Ela é a filha do Marco Koslov — eu disse, como se isso explicasse tudo. — O homem que tentou destruir a minha família. Que matou os homens do meu pai. Que olhou para mim naquele tribunal, dez anos atrás, com pena.

— E você quer vingança? — Mikhail disse, com as mãos no queixo.

— Eu quero justiça — eu disse, gelado.

Mikhail riu. Foi um riso curto e amargo.

— Não existe justiça no seu mundo, Nikolai. Só poder. Você sabe disso.

Ele tinha razão. Eu sabia disso. Meu pai tinha enfiado essa lição em mim à força, tinha me trancado no escuro até eu entender, e tinha me moldado exatamente no que este mundo exigia.

Mas, quando eu olhei para a fotografia de Anya Koslov, eu senti algo que não sentia havia vinte anos.

Curiosidade.

— Eu vou aceitar — eu disse por fim. — Os Petrov fizeram uma oferta inteligente. Seria um insulto recusar.

— E depois? — Mikhail perguntou. — O que você vai fazer com uma garota assustada que olha para você e vê o homem que matou o pai dela?

Eu sorri, encostando as costas na cadeira de couro.

— Vou mostrar a ela exatamente o que a retidão do pai dela custou a ela. Vou mostrar a ela que gente boa não sobrevive em Moscou.

Mikhail não disse nada. Só assentiu.

Eu não sabia o que eu queria de Anya Koslov. Eu só sabia que precisava vê-la. Precisava olhar para aqueles olhos enormes e escuros e ver se havia neles a mesma pena que o pai dela tinha. Eu precisava entender por que a filha de um homem morto tinha mexido comigo sem nunca ter me dito uma única palavra.

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