Capítulo 5 Linhas de Tensão
O espelho do elevador panorâmico devolvia a Aléxia a imagem de uma mulher que ela precisava acreditar que estava no controle. O vestido de seda na cor verde-oliva caía perfeitamente até os joelhos, combinando com o corte reto de seu cabelo e a maquiagem minimalista. Ela não queria parecer arrumada para um encontro; queria exalar a autoridade de uma sócia sênior da Santos & Medeiros. No entanto, o ritmo acelerado com que seu coração batia contra as costelas desmentia qualquer tentativa de frieza.
As portas se abriram no quadragésimo andar de um dos arranha-céus mais exclusivos da Avenida Paulista. O restaurante era uma obra-prima de iluminação cenográfica. Vigas de aço escuro cruzavam o teto alto, mas a verdadeira atração era a luz: pequenos focos quentes e amarelados banhavam as mesas dispostas ao longo das imensas paredes de vidro, enquanto a cidade de São Paulo brilhava lá embaixo como um mar infinito de néon e movimento.
— Srta. Santos? Por aqui, por favor. O Sr. Fontes já a está aguardando — disse o maître, com um sotaque discreto, guiando-a até a mesa mais isolada do local, posicionada bem diante do horizonte iluminado.
Marcos estava de pé quando ela se aproximou. A luz da cidade delineava sua silhueta imponente. Ele vestia um blazer escuro texturizado sobre uma camiseta preta de gola alta, um visual que misturava casualidade com um poder indiscutível. Quando os olhos dele, escuros e profundos, encontraram os dela, Aléxia sentiu aquela mesma descarga elétrica que tentara ignorar nos últimos dias.
— Aléxia. Você está deslumbrante — ele disse, sua voz barítona soando suave acima do jazz instrumental que ecoava no fundo. Ele contornou a mesa e, quebrando o protocolo formal, puxou a cadeira para ela.
— Obrigada, Marcos. O lugar é realmente impressionante — ela respondeu, sentando-se e tentando focar a atenção na arquitetura do espaço. — Agora entendo o que você quis dizer sobre a iluminação urbana. Os reflexos no vidro evitam o ofuscamento interno, mantendo a vista como protagonista. É brilhante.
Marcos sentou-se à sua frente, apoiando os braços na mesa. Um meio sorriso brincava em seus lábios, revelando que ele achava graça na insistência dela em manter o foco no trabalho.
— Você sempre analisa a estrutura do mundo antes de se permitir senti-lo? — ele perguntou, inclinando-se ligeiramente para a frente. O aroma de sândalo e couro que emanava dele parecia encurtar a distância entre os dois.
— É o meu trabalho, Marcos. Se eu não analisar as estruturas, as coisas desabam — ela rebateu, sustentando o olhar.
— Algumas coisas precisam desabar para que algo melhor seja construído no lugar — ele murmurou, os olhos fixos nos lábios dela por um segundo antes de chamar o sommelier com um aceno sutil. — Pedi um vinho tinto encorpado da Toscana. Achei que combinaria com a sua intensidade.
— Eu não me considero uma pessoa intensa. Sou bastante pragmática.
— Uma mulher intensa que se esconde atrás do pragmatismo é ainda mais fascinante — Marcos respondeu, os olhos brilhando com o prazer do jogo de sedução.
O jantar correu em uma linha tênue entre os negócios e a intimidade. Sempre que Aléxia tentava direcionar a conversa para os prazos de entrega dos desenhos técnicos ou para os custos dos revestimentos de freijó, Marcos contornava suas barreiras com perguntas sobre seus gostos, sua infância e suas ambições. Ele era imprevisível. Em um momento falava com uma frieza cirúrgica sobre a compra de terrenos multimilionários, e no momento seguinte olhava para ela com uma vulnerabilidade magnética, contando como havia construído seu império do nada.
Aos poucos, o vinho e a atmosfera começaram a desarmar as defesas de Aléxia. Ela se pegou rindo de uma piada dele, esquecendo-se por alguns instantes das advertências de Lucas.
— Sabe, Aléxia... — Marcos disse, girando levemente a taça de vinho entre os dedos compridos —, eu conheço muitas pessoas neste meio. Gente que sorri por interesse, que aceita qualquer exigência por dinheiro. Mas você... você me enfrentou na primeira reunião. Você defende suas curvas e seu equilíbrio com unhas e dentes. Eu respeito isso. Eu quero isso perto de mim.
A palavra perto ecoou na mente de Aléxia, pesada e cheia de segundas intenções.
— O projeto terá toda a minha dedicação, Marcos — ela respondeu, tentando reerguer o escudo.
— Não estou falando apenas do projeto — ele disse, sua voz caindo para um sussurro ressonante.
Marcos estendeu a mão sobre a mesa de madeira escura. Desta vez, ele não apenas tocou a ponta dos dedos dela. Ele envolveu a mão de Aléxia com a sua, a palma quente e firme contra a dela. A pele de Aléxia formigou. Seu cérebro gritava para que ela recuasse, mas seu corpo parecia paralisado por uma força gravitacional avassaladora. Era o mesmo magnetismo viciante que sua mãe descrevia nos homens errados: aquela sensação de estar viva apenas quando se corre perigo.
— Marcos, eu não acho que misturar as coisas seja... — ela começou, a voz falhando sutilmente.
— Eu não estou misturando nada, Aléxia. Estou sendo transparente, como eu disse que gostava de ser — ele a interrompeu, os olhos fixos nela com uma certeza quase predatória. — Eu quero você. E eu sei que você também me quer. Podemos continuar fingindo que estamos discutindo gesso e iluminação, ou podemos aceitar que o que está acontecendo aqui não tem nada a ver com arquitetura.
O olhar dele era um desafio direto ao seu controle. Aléxia sentiu o chão sumir sob seus pés. Ela olhou para a mão dele cobrindo a sua e, por um segundo terrível, desejou se entregar àquela tempestade.
Nesse exato momento, a vibração do celular de Aléxia dentro de sua bolsa quebrou o transe. O visor iluminou-se na penumbra da mesa. Era uma mensagem de Lucas.
“Só para garantir que você chegou bem. Se precisar que eu vá te buscar, qualquer que seja a hora, me avise. Estou no escritório terminando os cálculos do hotel.”
A mensagem foi como um balde de água fria na espinha de Aléxia. A imagem de Lucas — constante, protetor, o homem que nunca exigia que ela corresse riscos ou perdesse o ar para ser valorizada — surgiu em sua mente como um farol na névoa. Ela puxou a mão sutilmente, afastando-se do toque de Marcos.
— Preciso ir, Marcos. Já está tarde e amanhã temos uma entrega importante logo cedo — ela disse, a voz agora mais firme, embora a respiração ainda estivesse descompassada.
Marcos a observou recolher a bolsa. Se ele ficou frustrado com a retirada dela, não demonstrou. O meio sorriso enigmático voltou ao seu rosto, como se ele soubesse que a retirada era apenas temporária. Ela já estava fisgada; era apenas uma questão de tempo.
— Eu te acompanho até o carro — ele disse, levantando-se e deixando algumas notas altas de dinheiro sobre a mesa, sem sequer olhar para a conta.
O trajeto até a entrada do edifício foi silencioso, mas a tensão no ar era palpável. Quando o motorista de Aléxia parou o carro na calçada iluminada, Marcos abriu a porta para ela. Antes que ela entrasse, ele se inclinou e depositou um beijo lento na lateral do rosto dela, bem perto do canto de sua boca. A pele dele estava quente, e o toque de seus lábios deixou uma trilha de fogo que Aléxia sentiu mesmo depois que o carro deu a partida.
Pelo vidro traseiro, ela olhou para trás e viu Marcos parado na calçada, observando o veículo sumir na noite de São Paulo. Ele parecia um rei inspecionando suas conquistas.
Aléxia encostou a cabeça no banco de couro do carro, fechando os olhos. Seus dedos tocavam o local onde os lábios dele haviam encostado. Ela estava assustada. Não com Marcos, mas consigo mesma. A lógica que ela cultivara por uma década havia falhado no primeiro teste real.
Ela pegou o celular e olhou para a mensagem de Lucas. Uma onda de culpa e confusão a inundou. Ela digitou uma resposta rápida: “Tudo bem por aqui, Lucas. Já estou a caminho de casa. Vá descansar.”
Ao guardar o aparelho, Aléxia sentiu um aperto no peito. O aviso de Lucas ecoava em sua mente: “Os homens como Marcos não jogam com a lógica, jogam com o instinto.” Ela estava entrando no labirinto da família Santos, e a pior parte era que as portas estavam se fechando atrás dela.
