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Capítulo 4 A Arquitetura do Desejo parte 2

Marcos pegou o telefone e caminhou em direção a uma das passagens em arco, falando em um tom firme e autoritário.

Aléxia finalmente soltou o ar, sentindo os joelhos levemente trêmulos. Ela se apoiou na mesa de madeira maciça, olhando para os próprios desenhos tridimensionais que agora pareciam completamente irrelevantes. Seu coração batia com uma força assustadora contra as costelas. Ela olhou para a grande vidraça, observando os carros minúsculos na avenida lá embaixo, e uma percepção assustadora se instalou em seu peito.

Lucas estava certo. Ela estava na beira de um precipício. E o pior de tudo não era o perigo que Marcos representava... era o fato de que, pela primeira vez na vida, ela sentia uma vontade desesperada de pular.

Marcos voltou à sala de reuniões com passos felinos, guardando o celular no bolso. Sua expressão já não refletia a irritação da chamada; ele voltava a ser o homem calculista e magnético que dominava qualquer espaço.

— Desculpe a interrupção, Aléxia. Assuntos que exigem resolução imediata. Como eu dizia antes... não gosto de deixar nada pela metade.

— Não há problema, Marcos. Entendo perfeitamente o ritmo das grandes corporações — respondeu ela, forçando-se a enrolar as plantas tridimensionais para recuperar a postura profissional. — Na verdade, já anotei os ajustes de iluminação que você mencionou. Lucas e eu trabalharemos neles amanhã mesmo.

Marcos caminhou até ela, detendo-se ao lado da mesa de madeira. Observou-a fixamente, com um leve sorriso que deixava claro que ele sabia exatamente o efeito que causava nela.

— Excelente. Mas, para avançarmos mais rápido nos detalhes conceituais, precisamos sair da rigidez de uma sala de reuniões. Há um restaurante exclusivo no último andar de um edifício no centro, com uma vista perfeita do tipo de iluminação urbana que quero reproduzir. Jante comigo amanhã, às oito. Assim poderemos fechar os detalhes do contrato em um ambiente mais adequado.

Aléxia sentiu o coração dar um salto. Um jantar. A sós. Seu cérebro racional acendeu todos os alarmes imediatamente. Sabia que aceitar significava cruzar uma linha invisível, mas recusar o cliente mais importante da firma por medo do que sentia seria admitir uma fragilidade que seu orgulho não permitia.

— Um jantar de negócios parece uma excelente oportunidade para alinharmos visões — disse ela, sustentando o olhar dele com firmeza e escondendo o leve tremor das mãos. — Envie-me o endereço e estarei lá.

— Perfeito. Vejo você amanhã, Aléxia — murmurou ele, e o uso do nome dela soou quase como uma promessa perigosa.

Trinta minutos depois, Aléxia cruzava a porta do próprio estúdio de arquitetura. O aroma de café, as plantas e o design biofílico que antes lhe traziam paz agora pareciam lembrá-la da bolha que estava prestes a estourar.

Lucas estava sentado diante do computador, revisando algumas plantas estruturais. Ao ouvir os passos de Aléxia, ergueu os olhos imediatamente. Bastou um segundo para notar a agitação no olhar dela.

— Como foi? — perguntou Lucas, deixando os óculos de leitura de lado e cruzando os braços. — Você está com aquela expressão de quando um projeto complica... ou quando alguma coisa a assusta.

Aléxia deixou a bolsa sobre a mesa com um golpe um pouco mais forte do que o necessário.

— Nada me assusta, Lucas. Conseguimos que ele aprovasse o conceito principal do projeto. Tudo está correndo bem. Só que... ele quer reuniões individuais para agilizar o processo. Na verdade, amanhã teremos um jantar de negócios para fechar os detalhes do contrato.

O ambiente do escritório pareceu esfriar de repente. Lucas se tensionou visivelmente na cadeira. O brilho de preocupação em seus olhos mudou, por um instante, para algo muito parecido com ciúme, embora ele se esforçasse para manter o tom calmo de sempre.

— Um jantar? Aléxia, fechamos contratos milionários o tempo todo e nunca precisamos de um jantar a sós em um restaurante luxuoso para acertar termos. Marcos Fontes não está procurando apenas um projeto de interiores; ele está procurando você.

— Isso é absurdo! — retrucou ela, pondo-se na defensiva, embora por dentro soubesse que Lucas tinha razão. — Ele é um cliente de alto perfil. Gente assim faz negócios desse jeito. Além disso, desde quando você questiona meu profissionalismo? Eu sei perfeitamente onde termina o trabalho e começa a minha vida pessoal. Já disse que tenho tudo sob controle.

Lucas levantou-se lentamente, caminhando até ela. Parou a uma distância respeitosa, observando-a com uma mistura de tristeza e honestidade brutal que atingiu Aléxia em cheio.

— Eu não questiono o seu profissionalismo, Aléxia. Questiono a sua imunidade. Você passa a vida repetindo que é diferente da sua mãe e da sua avó, que controla o amor com lógica. Mas homens como Marcos não jogam com a lógica; jogam com o instinto. E eu tenho medo de que, tentando provar que é invencível, você acabe caindo exatamente na mesma armadilha que destruiu as mulheres da sua família.

Aléxia ficou sem palavras. A fala de Lucas atingiu seu maior medo. Quis gritar que ele estava errado, quis abraçá-lo e pedir que a salvasse de si mesma, mas o orgulho e o peso invisível de sua herança a mantiveram imóvel.

— Eu não vou cair — sussurrou ela, com a voz quebrada, mas decidida.

Lucas a observou por uma última vez, suspirou pesadamente e deu um passo para trás, voltando ao próprio escritório.

Naquela noite, ao chegar ao apartamento, Aléxia não conseguiu dormir. Ficou olhando para o teto no escuro, com o eco da voz de Marcos gravado na mente e o olhar de advertência de Lucas pesando no peito. O jogo havia começado, e as cartas da maldição das Santos já estavam sobre a mesa.

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