Capítulo 3 A Arquitetura do Desejo
A sede da Fontes Incorporadora parecia ter sido esculpida a partir de um único bloco de concreto e arrogância no coração do sofisticado bairro dos Jardins. Enquanto o elevador privativo subia silenciosamente em direção à cobertura, Aléxia ajustou a alça de sua pasta de couro texturizado. Ela havia passado as últimas quarenta e oito horas ensaiando mentalmente aquela reunião. Lembrou-se do aviso de Lucas, do tom de voz preocupado do amigo e de sua própria promessa de manter tudo estritamente profissional.
É apenas um cliente, repetiu para si mesma quando as portas do elevador se abriram com um bipe suave. Um cliente muito rico.
Ao dar o primeiro passo para fora, Aléxia sentiu-se imediatamente imersa na exata estética que definia o topo do mercado imobiliário. O espaço era um loft monumental de conceito aberto, com paredes de uma textura arenosa e fosca que capturavam a luz da tarde de São Paulo, criando sombras longas e dramáticas. Passagens em arcos perfeitos e minimalistas conectavam as salas, e enormes painéis de vidro revelavam a linha do horizonte da metrópole. Não havia excessos, apenas o equilíbrio frio do luxo contemporâneo. Era bonito, mas de uma forma que parecia intocável. Quase estéril.
— Srta. Santos. Pontual como eu previa — a voz de Marcos ecoou pelo ambiente amplo, vinda de uma das aberturas em arco.
Ele não usava o terno formal da primeira reunião. Marcos vestia uma calça de alfaiataria escura e uma camisa de linho preto com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e o vislumbre de um relógio de alta relojoaria. O cabelo estava ligeiramente desalinhado, conferindo-lhe um ar de sofisticação despretensiosa que, Aléxia sabia, era milimetricamente calculado.
— Boa tarde, Sr. Fontes — ela respondeu, sua voz ecoando sutilmente na acústica do lugar. Ela caminhou até a mesa de reunião feita de uma única tora de madeira maciça que parecia flutuar no centro da sala principal. — O seu escritório é impressionante. O uso do minimalismo orgânico aqui é exemplar.
— Eu não gosto de paredes que bloqueiam a visão, Aléxia — ele disse, aproximando-se com passos lentos, os olhos escuros fixos nela com aquela intensidade familiar que fazia o estômago dela dar voltas. — Gosto de ver o que está acontecendo ao meu redor. E gosto que as coisas sejam transparentes.
Ele parou do outro lado da mesa de madeira, a poucos passos dela. O aroma amadeirada de sândalo e couro que emanava dele parecia preencher o espaço, desafiando a frieza do concreto.
— Trouxe os detalhamentos do conceito que discutimos? — ele perguntou, embora o tom sugerisse que os papéis eram a última coisa em sua mente.
— Sim, trouxe tudo — ela se apressou em abrir a pasta, buscando o conforto de suas plantas e amostras. — Lucas e eu revisamos os cálculos de iluminação para garantir que as texturas das paredes tenham o mesmo efeito dramático que você tem aqui, mas com o aconchego necessário para uma área residencial.
Aléxia estendeu uma grande folha de papel vegetal sobre a mesa, apontando para os desenhos técnicos. Suas mãos estavam firmes, mas por dentro ela lutava contra a proximidade física de Marcos. Cada vez que ele se inclinava para observar um desenho, a pele de seu braço quase roçava no dela, enviando pequenas descargas de eletricidade direto para sua espinha.
— Veja aqui — Aléxia continuou, tentando focar. — Propomos que o arco de entrada do hall principal use uma iluminação embutida de temperatura quente. Isso tira a rigidez do concreto e...
— Você fala com muita paixão sobre pedras e luzes, Aléxia — Marcos a interrompeu suavemente, a voz caindo para um tom quase confidencial. Ele ergueu os olhos do papel e os cravou nos dela. — Mas estou mais interessado em saber o que move a designer por trás desses desenhos. Você é sempre assim? Tão... controlada?
Aléxia engoliu em seco, recuando um milímetro. A máscara profissional que ela usara como armadura por anos parecia estar rachando sob o peso daquele olhar.
— O controle é o que garante a excelência de um projeto, Sr. Fontes — ela respondeu, tentando manter o tom neutro. — Erros na nossa profissão custam caro.
— Marcos — ele corrigiu, aproximando-se um passo, quebrando a barreira da distância profissional. — Já passamos da fase dos títulos formais, não acha? E sobre custar caro... as melhores coisas da vida geralmente envolvem algum tipo de risco. Você nunca corre riscos, Aléxia?
A pergunta flutuou no ar, grávida de significado. Naquela fração de segundo, a mente de Aléxia viajou para as palavras de sua avó, para o choro de sua mãe na noite anterior, para o aviso implícito de que o sangue das mulheres Santos sempre as empurrava para o abismo. Marcos Fontes era o abismo encarnado em um homem. Atraente, perigoso, com o poder de destruir suas estruturas com um único sorriso.
— Eu prefiro os riscos calculados — ela respondeu, sustentando o olhar dele com uma bravura que não sentia de verdade.
Marcos soltou uma risada curta, um som ressonante que pareceu vibrar dentro do peito de Aléxia. O meio sorriso dele se alargou, e os olhos dele brilharam com o prazer do desafio. Ele estendeu a mão e, com uma lentidão deliberada, tocou a ponta dos dedos na mão de Aléxia que ainda repousava sobre a planta de papel vegetal.
O toque foi como um choque elétrico. A pele dele era quente, firme. Aléxia sentiu um impulso avassalador de puxar a mão, mas também uma inércia viciante que a implorava para ficar exatamente ali.
— Pois eu acho — ele murmurou, inclinando-se um pouco mais, de modo que ela podia sentir o calor de sua respiração — que você passa tempo demais calculando, Aléxia. E tempo de menos vivendo. Este projeto vai ser longo. E eu pretendo mostrar a você que algumas curvas não podem ser previstas em um pedaço de papel.
Antes que ela pudesse responder, o telefone de Marcos sobre a mesa vibrou, quebrando o feitiço instantaneamente. Ele olhou para a tela, uma expressão de leve irritação cruzando suas feições antes de recuperar a compostura fria de sempre.
— Preciso atender isto — ele disse, afastando a mão com relutância, mas sem tirar os olhos dela. — É o meu diretor financeiro sobre a compra do terreno vizinho. Não saia daí. Nós ainda não terminamos.
