O Sangue que Nos Condena

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Capítulo 2 A Ilusão do Controle parte 2

A maldição da família Santos não mandava avisos ou usava feitiçaria. Ela simplesmente entrava pela porta da frente, vestida com um terno impecável e um olhar que prometia destruição.

Aléxia aproximou-se da tela de projeção, buscando no clique do controle remoto a âncora que precisava para reaver o controle de suas próprias reações. O visor iluminou a sala de reuniões, projetando os renders tridimensionais do complexo residencial.

— A nossa proposta para a Fontes Incorporadora baseia-se no luxo silencioso — Aléxia começou, sua voz recuperando a cadência profissional e segura que a tornara uma das designers mais requisitadas da cidade. — Afastamo-nos do ostensivo. O perfil dos seus compradores busca o minimalismo orgânico. Usamos concreto texturizado, painéis de freijó lavrado e formas curvas nos arcos de transição. Queremos que o morador sinta que o apartamento é um refúgio da crueza de São Paulo.

Enquanto falava, ela caminhava sutilmente pela sala, apontando para as amostras de materiais dispostas sobre a mesa de concreto. Lucas interveio com precisão técnica, explicando a viabilidade estrutural das colunas integradas e a iluminação embutida que valorizaria as texturas naturais. Eles eram uma engrenagem perfeita. Lucas era a base; Aléxia, a sensibilidade.

Marcos Fontes, no entanto, não olhava para a tela.

Ele mantinha os olhos fixos em Aléxia. Seu olhar descia pelos gestos precisos das mãos dela, subia pelo corte elegante de seu blazer de alfaiataria e detinha-se em seus lábios sempre que ela enfatizava uma palavra. Não era um olhar vulgar; era o olhar de um predador que avaliava o terreno, mapeando cada centímetro da mulher à sua frente.

— Interessante — Marcos interrompeu, a voz barítona cortando a explicação de Lucas. Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. O perfume dele — uma mistura amadeirada de sândalo e couro — flutuou pelo ar, invadindo o espaço pessoal de Aléxia. — O conceito é visualmente impecável, Srta. Santos. Mas o luxo silencioso exige algo mais do que estética. Exige que o cliente sinta uma conexão imediata. Quase instintiva.

— E nossos projetos evocam exatamente isso, Sr. Fontes — ela respondeu, sustentando o olhar dele, embora sentisse o coração golpear as costelas. — Criamos espaços que parecem abraçar quem entra.

— E se eu quiser algo mais... arrojado? — Marcos ergueu uma sobrancelha, um brilho de pura provocação dançando em seus olhos escuros. — O equilíbrio é bonito para o mercado comum. Mas eu não sou um homem comum, e meus prédios também não são. Gosto de arestas. Gosto do risco.

— O risco na arquitetura de interiores costuma envelhecer mal — Aléxia rebateu imediatamente, com uma audácia que surpreendeu a si mesma. — O equilíbrio, por outro lado, é eterno.

Um silêncio tenso e carregado de eletricidade estendeu-se pela sala. Lucas pigarreou discretamente, mudando de postura na cadeira. Marcos, no entanto, não pareceu ofendido. Pelo contrário. O meio sorriso em seus lábios se alargou, revelando uma covinha sutil que quebrava temporariamente a crueza de suas feições.

— Uma mulher de convicções fortes. Gosto disso — Marcos disse, levantando-se. A imponência de sua altura voltou a dominar o ambiente. Ele abotoou o paletó cinza-chumbo com movimentos lentos e calculados. — O projeto é excelente. Considerem a Santos & Medeiros contratada para o desenvolvimento do conceito completo.

Aléxia piscou, pega de surpresa pela rapidez da decisão. — Nós... agradecemos a confiança, Sr. Fontes. Enviaremos o contrato formalizado ainda hoje.

— Excelente. Mas há uma condição — ele contornou a mesa, parando a poucos passos dela. A proximidade física fez o estômago de Aléxia dar um nó tenso de expectativa. — Quero que você dê as cartas neste projeto, Aléxia. Quero a sua assinatura em cada detalhe. E, para garantir que estamos na mesma página, faremos as reuniões de alinhamento diretamente no meu escritório. Ou no próprio local das obras. Sem intermediários.

Ele estendeu a mão novamente. Aléxia hesitou por uma fração de segundo, sentindo o aviso silencioso de seu cérebro disparar em todas as direções. Mas o lado profissional — e uma curiosidade perigosa que ela se recusava a admitir — falou mais alto. Ela apertou a mão dele.

O calor da pele de Marcos pareceu queimar a sua. — Será um prazer trabalhar com você, Marcos — ela disse, usando o primeiro nome dele pela primeira vez, sentindo o peso daquela concessão.

— O prazer será inteiramente meu — ele murmurou, os olhos fixos nos dela por mais um segundo antes de se virar para Lucas. — Medeiros, nos vemos em breve.

Com passos firmes e decididos, Marcos Fontes deixou a sala de reuniões. O som de seus sapatos ecoando pelo corredor pareceu levar consigo metade do oxigênio do lugar.

Aléxia soltou o ar que nem percebera que estava prendendo, apoiando as duas mãos na borda da mesa de concreto. Suas palmas estavam levemente úmidas. Ela olhou para o teto, tentando encontrar a racionalidade que sempre a definira, mas sua mente parecia um turbilhão.

— Aléxia.

A voz de Lucas a trouxe de volta. Ela se virou e encontrou o amigo de pé, com os braços cruzados e uma expressão que ela conhecia muito bem. Era o olhar de quem via além da superfície.

— Conseguimos, Lucas! — ela tentou usar um tom entusiasmado, caminhando até as plantas para começar a recolhê-las. — É o maior contrato do ano. Isso vai colocar a nossa firma em outro nível.

— Sim, o contrato é incrível. O dinheiro é incrível — Lucas disse, caminhando lentamente até ela. Ele parou do outro lado da mesa, forçando-a a olhá-lo. — Mas eu não estou falando do contrato, Aléxia. Estou falando dele. Do jeito que ele olhou para você. E, principalmente, do jeito que você reagiu.

Aléxia soltou uma risada defensiva, agitando a mão no ar como se espantasse um mosquito. — Por favor, Lucas. Ele é um cliente corporativo. Intenso, sim. Um pouco arrogante, talvez. Mas é o perfil padrão de homens poderosos em São Paulo. Eu sei lidar com isso.

— Você ficou sem ar, Aléxia — Lucas apontou, a voz mansa, mas cirúrgica. Não havia julgamento em suas palavras, apenas uma preocupação genuína que doeu no peito dela. — Eu conheço você há dez anos. Vi você lidar com CEOs, diretores e investidores difíceis. Você nunca piscou. Mas hoje... hoje parecia que você estava diante de um precipício.

— Você está exagerando — ela retrucou, a voz subindo um tom enquanto guardava as amostras de tecidos com uma força desnecessária. — Só fiquei surpresa com a rapidez dele. E um pouco intimidada pelo tamanho do projeto. Só isso.

Lucas a observou em silêncio por alguns segundos. Ele queria acreditar nela. Queria acreditar que a mulher racional e focada que ele tanto admirava — e que amava em segredo — estava no controle absoluto da situação. Mas o instinto de Lucas, livre das amarras de qualquer maldição, dizia que o perigo já havia cruzado a soleira da porta.

— Tudo bem — Lucas cedeu, aproximando-se e colocando a mão espalmada sobre as plantas que ela tentava enrolar de forma desajeitada. — Só... prometa que vai manter os olhos abertos. Homens como Marcos Fontes costumam achar que podem comprar tudo. Espaços, projetos... e pessoas.

Aléxia olhou para a mão de Lucas, tão familiar e segura, e depois para o rosto dele. O contraste entre a calmaria que Lucas oferecia e a tempestade elétrica que Marcos injetara em suas veias era quase doloroso.

— Eu prometo — ela mentiu suavemente, oferecendo um sorriso frágil. — Eu estou no controle, lembra? Eu não sou a minha mãe.

Lucas assentiu, retirando a mão e dando-lhe o espaço que ela pedia. Ele se retirou da sala com passos silenciosos, deixando-a sozinha com seus pensamentos.

Aléxia caminhou até a janela. A chuva lá fora parecia ter engrossado, lavando as ruas cinzentas da cidade. Ela levou a mão ao peito, sentindo o ritmo ainda acelerado de seu coração. Pela primeira vez em muitos anos, a certeza de que era imune ao destino das mulheres Santos pareceu vacilar.

O sangue que corria em suas veias não havia mudado. E, em algum lugar profundo de seu ser, Aléxia sabia que a maldição acabara de encontrá-la.

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