Capítulo 1 A Ilusão do Controle parte 1
O som do cinzel moldando o gesso na sala ao lado era o único ruído que competia com a chuva fina que batia contra as vidraças do escritório. Aléxia Santos respirou fundo, permitindo que o aroma de café fresco e madeira crua acalmasse seus pensamentos. Ela adorava as manhãs de terça-feira. Havia uma simetria reconfortante no início da semana, uma promessa de que, se ela seguisse o cronograma milimetricamente planejado em sua agenda de couro, nada sairia do lugar.
Ela passou a ponta dos dedos pela superfície áspera e texturizada da parede de gesso queimado de sua sala. O design biofílico que ela e Lucas haviam projetado para a sede da Santos & Medeiros Arquitetura não era apenas uma escolha estética; era um santuário. As linhas curvas das passagens em arco, os tons terrosos que flutuavam entre o areia e o terracota, e as costelas-de-adão decorando os cantos estratégicos criavam uma ilusão de paz absoluta.
Controle. Essa era a palavra de ordem na vida de Aléxia.
— Se você continuar encarando essa paleta de cores como se estivesse tentando decifrar o código da Matrix, vou começar a achar que o bege está ganhando de você — uma voz bem-humorada ecoou do arco da porta.
Aléxia sorriu antes mesmo de se virar. Lucas estava encostado no batente curvo, segurando duas canecas de cerâmica artesanal. O cabelo castanho estava levemente bagunçado, o habitual suéter de tricô cinza com as mangas puxadas até os antebraços, e aquele sorriso calmo que, há quase dez anos, era a única constante na vida dela.
— Não é apenas bege, Lucas. É 'Areia do Deserto Atacama' — ela corrigiu, fingindo indignação ao pegar a caneca que ele lhe estendia. — E estou revisando o projeto do hotel-boutique para a apresentação de hoje à tarde. Tem que estar impecável. Você sabe o que dizem sobre primeiras impressões.
— Que elas são superestimadas? — Lucas deu um gole no próprio café, entrando na sala e sentando-se na borda da mesa de madeira maciça de Aléxia. — Aléxia, você passou as últimas três semanas revisando essas plantas. O projeto está perfeito. Se o cliente tiver meio cérebro, ele assina o contrato em cinco minutos e nos dá o sinal verde.
— Clientes ricos não usam o cérebro, usam o ego — ela rebateu, embora o tom fosse leve. Ela caminhou até a grande janela que dava para uma das avenidas arborizadas de São Paulo. — Eu só preciso garantir que nada saia do controle.
Lucas a observou por um momento. O olhar dele, sempre atento e analítico, suavizou-se. Ele conhecia Aléxia melhor do que qualquer pessoa no mundo. Conhecia o brilho de determinação em seus olhos castanhos, mas também conhecia a rigidez defensiva na postura dela sempre que a palavra "controle" vinha à tona.
— Você está pensando nela de novo, não está? — ele perguntou, a voz caindo um oitavo, tornando-se o porto seguro que sempre fora.
Aléxia não precisou perguntar a quem ele se referia. Dona Aurora. Sua mãe.
— Ela ligou ontem à noite — Aléxia admitiu, os dedos apertando a cerâmica quente da caneca. — Chorando. O tal do Roberto sumiu de novo. Levou o carro dela e esvaziou a conta poupança que ela jurou que ele não tinha acesso.
Lucas soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça. — O terceiro Roberto este ano? Ou o quarto?
— O segundo Roberto, mas o quarto canalha no geral — Aléxia deu um riso amargo, desprovido de qualquer alegria. — Minha avó me ligou logo em seguida para dizer que 'é o sangue'. Que não adianta lutar contra o que está escrito nas veias das mulheres Santos. Que nós fomos feitas para carregar a cruz do amor errado.
Ela se virou para Lucas, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e uma vulnerabilidade que ela raramente mostrava a qualquer outra pessoa.
— Eu odeio essa palavra. Maldição. É uma desculpa barata para a falta de amor-próprio. Minha avó aceitou isso, minha mãe aceitou isso e transformou a vida dela em um drama de rádio. Mas eu não. Eu estudei, construí essa empresa com você, calculo cada risco da minha vida. O amor não é um feitiço misterioso, Lucas. É uma escolha lógica. E eu escolho não sofrer.
Lucas colocou a caneca de lado e se aproximou, estendendo a mão para tocar suavemente o ombro dela. O toque dele era morno, firme, uma ancoragem na realidade.
— E você está certa. Você não é a sua mãe, Aléxia. E muito menos a sua avó. Você é a mulher mais forte que eu conheço. O sangue que corre em você é seu, de mais ninguém. Você dita as regras.
Aléxia olhou para a mão de Lucas em seu ombro e sentiu um aperto de gratidão no peito. Lucas era a personificação de tudo o que era bom, previsível e seguro. Ele estava lá quando ela chorou no banheiro da faculdade porque a mãe havia sido despejada por causa de outro namorado golpista; estava lá quando abriram a firma com o dinheiro contado para o aluguel do primeiro mês. Ele era o homem bom que sua mãe e sua avó nunca souberam enxergar em suas próprias vidas. Para Aléxia, Lucas era a prova viva de que a lógica funcionava: mantendo-o na caixinha segura da amizade e da parceria profissional, ela garantia que nunca estragaria a relação mais preciosa de sua vida com os dramas do coração.
— Obrigada — ela sussurrou, oferecendo-lhe um sorriso genuíno. — O que eu faria sem você?
— Provavelmente estaria usando um bege comum em vez de 'Areia do Atacama' — ele piscou, quebrando a tensão com a facilidade de quem dominava a arte de fazê-la sorrir. — Agora, termine esse café. Nosso cliente misterioso da Fontes Incorporadora chega em trinta minutos, e a secretária disse que ele é pontual ao extremo.
Aléxia assentiu, respirando fundo mais uma vez. A menção ao novo cliente a trouxe de volta ao seu território de conforto: o trabalho. A Fontes Incorporadora estava comprando metade de um quarteirão no Jardins para criar um complexo de luxo residencial e comercial, e fechar aquele design de interiores mudaria o patamar da Santos & Medeiros.
Ela caminhou até a mesa, organizando os rolos de plantas, as amostras de tecidos de linho e as pedras vulcânicas que usaria para ilustrar o conceito do projeto. Tudo estava no seu devido lugar. Perfeito. Controlado.
Vinte minutos depois, o interfone da recepção tocou.
Aléxia e Lucas trocaram um olhar cúmplice antes de caminharem juntos até a sala de reuniões principal, cujo arco de entrada emoldurava a mesa oval de concreto aparente. Mariana, a recepção do escritório, estava de pé perto da porta, parecendo ligeiramente intimidada.
E então, ele entrou.
O mundo, que Aléxia passara anos organizando em linhas retas e ângulos previsíveis, pareceu sofrer um abalo sísmico silencioso no momento em que os passos pesados ecoaram pelo piso de madeira.
Marcos Fontes não parecia apenas um cliente rico; ele parecia uma força da natureza que havia decidido se vestir com um terno sob medida cinza-chumbo. Ele era alto, de uma imponência que parecia diminuir o teto da sala de reuniões. O cabelo escuro estava cortado de forma moderna, ligeiramente desalinhado, e os olhos, de um castanho tão escuro que pareciam quase negros, varreram o ambiente com uma intensidade que fez os pelos dos braços de Aléxia se arrepiarem instantaneamente.
Havia um magnetismo quase físico ao redor dele, um calor que parecia deslocar o ar frio e chuvoso daquela manhã. Não era apenas beleza; era poder. Um tipo de perigo mascarado de elegância.
— Bom dia — a voz de Marcos era um barítono profundo, ressonante, que pareceu vibrar direto na boca do estômago de Aléxia. Ele estendeu a mão primeiro para Lucas. — Marcos Fontes. É um prazer finalmente conhecê-lo, Medeiros. Acompanho seus projetos estruturais há algum tempo.
— O prazer é nosso, Sr. Fontes — Lucas respondeu, apertando a mão dele com a firmeza profissional de sempre, embora Aléxia tenha notado uma leve sutil tensão nos ombros do amigo.
Marcos então se virou para ela.
O olhar dele fixou-se no dela, e por um segundo que pareceu durar uma eternidade, o ruído da chuva lá fora desapareceu. Aléxia sentiu uma descarga súbita de adrenalina, uma reação biológica tão intensa que a deixou momentaneamente sem ar. Aqueles olhos escuros pareciam ler não apenas seu cartão de visitas, mas todas as defesas que ela passara a vida construindo.
— E você deve ser a mente por trás da estética — Marcos disse, um meio sorriso enigmático e perigosamente charmoso brincando nos cantos de seus lábios enquanto estendia a mão para ela. — Aléxia Santos.
Ao tocar a mão dele, uma onda de calor subiu pelo braço de Aléxia. A pele dele era quente, o aperto firme e deliberado, retendo a mão dela por um milissegundo a mais do que o estritamente necessário pelo protocolo profissional.
— Sr. Fontes — Aléxia conseguiu dizer, sua voz saindo firme, agradecendo mentalmente a si mesma por anos de treinamento em reuniões de alta pressão. Ela puxou a mão sutilmente, endireitando a postura. — Seja bem-vindo à nossa firma. Por favor, sente-se. Estamos ansiosos para mostrar o que preparamos para o seu novo empreendimento.
Marcos sentou-se, acomodando sua silhueta imponente na cadeira de design. Ele não abriu um notebook ou pegou uma caneta. Apenas cruzou as pernas, apoiou os braços nos descansos e fixou os olhos em Aléxia, como se o projeto fosse meramente um pano de fundo, e ela fosse o verdadeiro foco de sua atenção.
— Surpreenda-me, Srta. Santos — ele disse, o tom de voz carregado de um desafio implícito que fez o coração de Aléxia acelerar contra o peito. — Gosto de mulheres que sabem exatamente como moldar o espaço ao seu redor.
Aléxia engoliu em seco, sentindo pela primeira vez na vida que o chão sob seus pés decorados com texturas naturais não era tão firme quanto ela acreditava. No canto da sala, o olhar de Lucas alternava entre os dois, uma sombra de preocupação cruzando suas feições.
