Capítulo 7 Esgotado
CAPÍTULO SETE
Exausta
MILLY – PONTO DE VISTA
Kai me leva para casa em silêncio.
No começo eu estou calma, mas dez minutos depois de estrada eu começo a entrar em pânico.
Não me sobrou muito dinheiro. Eu tenho que comprar comida, e o que eu tenho mal dá para comprar metade do que a gente precisa. Não sei o que vou fazer, mas sei que não posso surtar. Preciso manter a calma. Miles e Emma percebem tudo, e o menor sinal de problema já os deixa em alerta.
— Você sabe que eu ajudaria se você deixasse — ele diz, baixinho.
— Kai… — solto um suspiro pesado.
— Eu falo sério. — Os dedos dele se apertam no volante. — Você não precisa carregar tudo sozinha.
Eu sorrio e balanço a cabeça.
— Você sabe que eu não vou aceitar seu dinheiro, Kai. Obrigada por oferecer e por me trazer. Eu vou ficar bem.
— Tem certeza, Milly? Não minta pra mim — ele sussurra, preocupado.
Eu rio para aliviar a tensão e, então, minto para ele:
— Eu estou bem. Talvez peça desculpas à Rose por mim. Queria que a gente tivesse conseguido trabalhar juntas, mas às vezes as coisas não dão certo, e tudo bem.
Ele concorda com a cabeça e sorri.
— Te vejo na segunda. Quer que eu te pegue?
— Vou de ônibus — digo, e saio do carro.
— Não vai me custar nada te buscar, Milly. — Ele balança a cabeça para mim. Já está acostumado com a minha recusa.
— Tchau, Kai! — aceno, rindo, e ele solta uma risadinha e vai embora.
Meu sorriso desaparece quando ele se afasta. Eu caminho até a porta, atravessando o mato alto. Meu coração está pesado, e eu me sinto esmagada. Sem conseguir entrar, eu me viro e vou até o barracão. Largo as sacolas e pego o cortador de grama. Está enferrujado, mas ainda funciona. Papai tinha jeito para tecnologia, e sempre soube que podia existir um cortador de grama silencioso. Mamãe quase surtou quando ele gastou tanto dinheiro nele, mas aqui estamos, alguns anos depois, e ele é útil.
Mordo o lábio inferior, arrasada, enquanto empurro a máquina pela grama.
O que eu vou fazer? Ai, meu Deus. E quando o Miles perder os sapatos? E se a Emma ficar doente? A gente vai ficar sem luz de novo?
Talvez eu devesse ligar para a Rose e implorar por uma segunda chance? Ela provavelmente não me quer mais. Ela me pediu, e eu rejeitei. Não tem como ela me querer de volta. Gente rica tem um ego enorme.
Como é que eu vou passar pela próxima semana sem dinheiro? Eu preciso de um emprego, e preciso rápido. Eu não vou conseguir me concentrar na aula e, mesmo assim, tenho mais uma apresentação.
O pânico é um punho apertado em volta do meu coração.
Eu me apoio na cerca de madeira torta, e meu peito aperta. O suor brota na minha testa.
Eu cerro o maxilar com força, fazendo o possível para não perder o controle. Eu não posso me dar ao luxo de desabar agora. Isso só vai me custar tempo e energia, que podem ser usados para coisas melhores. Eu olho para o pôr do sol.
A porta se abre, e mamãe sai.
Ela sorri para mim e pergunta, baixinho:
— Até quando você vai ficar aí parada?
Ela provavelmente soube no segundo em que eu cheguei.
Eu solto o ar devagar, os ombros caindo.
— Oi, mãe.
— Oi, minha filha. Por que você não entra e janta? — Ela vem até mim, as bochechas coradas.
Eu concordo com a cabeça, mas não me mexo. Volto a encarar o pôr do sol. O sol brilha num tom dourado, e o céu está coberto por uma mancha de luz acobreada, intensa e, ainda assim, tão melancólica.
— Sabe o que seu pai costumava me dizer?
Eu olho para ela, o coração aquecendo ao ouvir falar dele.
— Pânico não paga nenhuma conta. A gente vai dar um jeito, meu amor. Eu prometo.
Eu concordo e me agarro às palavras dela. Entramos em casa, só para sermos recebidas pela tosse da Emma.
Merda.
— Milly. — Ela corre até mim.
Eu me abaixo e franzo a testa para ela.
— Você está tossindo?
Ela balança a cabeça e tenta esconder, mas a tosse explode, quase dobrando o corpinho dela ao meio. O som é seco e áspero, e o peitinho dela estala. A gente precisa comprar xarope, mas isso é todo o meu dinheiro. Mesmo assim, não tem discussão. Preciso resolver antes que vire febre.
— Desculpa, meu amor. Vou comprar seu xarope logo depois da igreja amanhã. — Beijo a testa dela e pisco para Miles, que está desenhando.
Ele sorri para mim e pisca de volta.
Deixo Emma voltar a brincar e levo mamãe até o meu quartinho. Cheira a lápis e amaciante. Ela parece exausta, então minhas reclamações morrem na hora. As olheiras embaixo dos olhos dela parecem mais profundas do que o normal. Ela se certifica de que eu estou bem antes de sair.
Eu me jogo com força na cama estreita, o coração doendo. Estou encurralada e tão impotente. Eu odeio me sentir impotente.
Enfio a mão debaixo da cama e puxo uma caixa com os livros especiais do meu pai. O papelão está coberto de poeira. Eu limpo e tento não chorar. Ele me deu esses livros de presente, e agora eu tenho que vendê-los. Em estado impecável e muito caros.
Se vender isso significa manter minha família à tona, então eu vou vender.
