Capítulo 6 CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SEIS
ROMEO – PONTO DE VISTA
O silêncio paira por um instante depois que elas saem.
Mamãe enfim se senta, mas está mancando. Ficou de pé por tempo demais, e o estresse a afetou. Segundo os médicos e incontáveis pesquisas pessoais que fiz, ela não deveria passar por estresse, porque as mulheres costumam internalizá-lo, e isso acaba se manifestando como doenças autoimunes no corpo. A doença dela já cobrou seu preço, e mais uma não será tolerada.
“Você não deveria ter falado dela daquele jeito. Ela é uma pessoa, Romeo. Uma pessoa. Uma menina jovem presa numa vida em que não tem escolha, e, em vez de ser vítima da situação, ela está fazendo o melhor que pode. Ela poderia facilmente encontrar trabalhos ilegais, mas escolheu algo humilde e digno de ser feito. O que aconteceu com você?”, mamãe sussurra, balançando a cabeça, decepcionada.
Eu encaro minhas mãos, as cicatrizes nelas — uma constelação de ferimentos que adquiri ao longo de anos jogando futebol americano.
“Você está mesmo me ouvindo?”, mamãe suspira, e eu olho para ela.
Desde o derrame do ano passado, ela perdeu uma quantidade significativa de peso. Agora, os vestidos não servem, e ela precisou ir comprar novos há alguns meses. Ela me pediu para ir com ela naquela tarde, mas eu recusei, focado em jogar videogame. Eu não sabia que ela queria montar um guarda-roupa novo, mas isso não muda nada. Tudo o que eu sou é uma decepção para ela.
“Estou ouvindo, mãe”, eu digo, rouco, a voz áspera e pesada com toda a culpa que sinto. Eu quero ser um filho melhor para ela, mas eu só continuo falhando.
“Você deixou aquela garota sofrer bullying na escola?”, ela pergunta, baixinho.
Ela nunca grita. Mesmo antes do derrame, nunca gritou. Eu não entendo essa calma, e, por mais que eu tente imitá-la, sempre fracasso.
Minhas narinas se dilatam, a raiva se infiltrando. “Eu não quero falar da Milly.”
Ela se inclina para a frente. “Você chama ela de Milly como se tivesse intimidade. Se você odeia tanto ela, por que chama de Milly?”
Franzo a testa, sem conseguir compreender o ponto que ela está tentando fazer. “É assim que todo mundo chama ela, mãe.”
“Você deixa ela sofrer bullying na escola? Eu quero uma resposta clara. Sem desviar.” Ela pode não estar gritando, mas o tom é afiado como uma lâmina, feito de aço.
Eu pondero as palavras dela e tento encontrar a melhor forma possível de responder. Como eu descrevo insignificância da melhor maneira?
“Nossa escola é grande, mãe. Só o campo de futebol americano tem quase oito mil metros quadrados. A gente tem algumas aulas juntos, sim, mas eu estou ocupado com as aulas, os laboratórios e, mais importante, o futebol. Você sabe disso. Eu não tenho tempo para ficar vigiando a Milly quando ela é inconsequente. Eu tenho uma vida, e ela é exaustiva, mas eu me inscrevi nisso, e eu tenho uma obrigação”, eu digo, tentando ao máximo manter a calma, mas meu peito se incendeia de irritação.
Por que estamos falando da Milly?
“Inconsequente? Essa é uma palavra bem grande para descrevê-la. Então você não vê sua namorada e seus amigos fazendo bullying com ela? Sua namorada não tentou afogá-la? Nada do que ela disse aconteceu?”, ela pergunta, cuspindo a palavra namorada como se fosse um xingamento.
Ela não gosta nem um pouco da Poppy.
— Eu cuido da minha vida. Não vou me meter no que quer que a Poppy faça nem fingir me importar com uma garota qualquer da escola. Nossa escola pode ser exclusiva, mas tem muita gente. Eu nem falo com todo mundo da minha turma. O único motivo de ela me conhecer é porque eu sou o quarterback! — Minha raiva fala mais alto, enquanto o calor sobe pelo meu corpo.
Mamãe ergue uma sobrancelha, mas permanece em silêncio.
Meus pulmões se contraem, e eu digo entre os dentes:
— Desculpa. Desculpa. Não quis gritar.
— Ela te conhece porque você é o garoto estrela, e você não conhece ela porque ela é a mais inteligente da sua escola? Porque ela é. — Mamãe sorri de um jeito astuto, como se tivesse orgulho da Milly.
Solto uma risada de deboche.
— Eu sou seu filho, e também sou inteligente.
— Claro que é. Você tem a força do seu pai e a minha inteligência, mas eu também conheço suas fraquezas. A Milly é boa em tudo, e pode ser uma influência maravilhosa, te ajudando onde você vacila. — ela sugere, sorrindo.
Minhas narinas se abrem em repulsa.
— Não quero mais falar da Milly. Estou destruído e preciso descansar.
Ela passa o olhar por mim e assente.
— Dá para ver. Por que você não vai se arrumar e desce para almoçar? Bella, a chef, fez o seu prato favorito.
Assinto, sentindo o cansaço afundar nos meus ossos.
— Eu quero a Milly, Romeo. Você sabe que eu sou uma excelente juíza de caráter, e alguma coisa me diz que a Milly vai ser perfeita para as crianças. Seja lá o que esteja acontecendo na escola, resolva isso. O seu silêncio faz de você cúmplice. O silêncio é muito perigoso; beira a violência, e não podemos deixar a injustiça prevalecer. Você sabe disso melhor do que ninguém. Agora vá se arrumar. Eu te amo. — Ela me manda um beijo com doçura.
Assinto e subo as escadas.
Cada passo parece uma âncora me prendendo ao chão.
Quero gritar. Quero nadar, ou talvez só dormir pelo resto do dia.
Empurro a porta do meu quarto e gemo baixinho ao entrar naquele conforto. Jogo minha mochila no chão, tiro os sapatos com os pés e me deito na cama. Nem me dou ao trabalho de tirar a roupa.
Hoje, como todos os dias, me drenou, mas foi isso que eu escolhi.
Meus pensamentos vão para a Milly, e eu solto uma risada de desprezo, irritado.
Quem ela pensa que é?
Ela é insignificante e, ao que parece, muito atrevida. É uma covarde na escola, sempre fugindo da Poppy, e ainda assim ousa me dizer que eu não mereço nada de bom? O que ela sabe sobre bondade? Será que já provou um pingo de felicidade na vida?
Eu não jogo bola e vou mal nas provas.
Já fui mal em algumas provas, claro, mas quem ela pensa que é para me dizer isso, quando não tem absolutamente nenhuma vida social? Sempre enterrando a cara nos livros e usando aqueles óculos idiotas.
A repulsa toma conta de mim, e eu a afasto da cabeça.
Mamãe precisa de alguém, mas simplesmente não pode ser aqui. Eu não posso aceitar isso. Ela não pode ficar sob o mesmo teto que eu.
Meu celular apita, e é uma mensagem da Poppy.
Oi, bebê. Você não vai acreditar no que a Danielle fez. Você está em casa?
Ela vai ligar, então desligo o celular e me forço a dormir.
Nada importa.
