Capítulo 1 Ela tirou tudo de mim
CAPÍTULO UM
Ela tirou tudo de mim
MILICIENT STARK
— Sinto muito, Milly, mas vamos ter que dispensar você. — Chef Julius evita meu olhar ao dar a notícia.
— O... o quê? — gaguejo, me perguntando se ouvi errado.
Ele esfrega a nuca.
— Você sabe que é uma das nossas funcionárias que mais trabalham, não sabe?
Meu estômago despenca. Isso está mesmo acontecendo. Arrepios percorrem minha pele, e gotas de suor se formam na minha testa sob meu coque bagunçado. Minha pele formiga de calor sob as camadas de roupa, mas não tiro o suéter. Em vez disso, ajusto meus óculos enormes, mordo o lábio e sussurro:
— Por quê? Eu... eu fiz alguma coisa errada?
— Não, não, você foi perfeita, todo mundo gosta de você, mas... é só... negócios... o movimento não está como deveria, e precisamos cortar gastos. — ele explica, ainda sem olhar para mim.
Minha garganta está seca, e minha língua parece pesada. Meus olhos ardem de lágrimas, mas eu não choro. Não vou chorar aqui.
— Sinto muito, Milicient. Espero que isso dê para segurar você até o próximo emprego. — Ele tira notas de dólar amassadas do bolso e as aperta na minha mão.
— Obrigada. — Sorrio, embora saiba que isso não vai me ajudar muito. Tenho tantas contas para pagar.
Miles e Emma precisam de roupas novas para o dia da foto, e daqui a alguns dias também vão ao zoológico. Eu também preciso cortar o cabelo deles. Também preciso de sapatos novos, e isso mal dá para comprar um par. Fico parada ali por um segundo, afundando na autopiedade. O cansaço se infiltra nos meus ossos, mas não tenho tempo a perder. O cheiro de desinfetante e óleo paira no ar. Preciso arrumar outro emprego imediatamente, mas quem contrataria uma garota de dezoito anos sem nada no nome?
O pânico se espalha por mim, e meu peito se aperta com força.
Não sei por quanto tempo fico ali, mas solto um suspiro profundo e tiro o avental.
— Milly! — Maggie chama quando passo por ela.
Olho para ela, reprimo meu nervosismo e sorrio.
— Oi, Maggie.
Trabalhávamos bem juntas.
— Ouvi dizer que mandaram você embora. Sinto muito, Milly. — ela sussurra, me puxando para um abraço.
Permaneço em seus braços por um segundo e tento não chorar ao me afastar.
— Tenho que ir. A gente se vê por aí, Maggie.
— Você devia saber de uma coisa — ela diz, me fazendo parar na mesma hora.
Viro para ela, com as sobrancelhas erguidas.
— O quê?
— O chef não queria demitir você.
Meu pulso falha, e fico completamente confusa.
— Então por que ele fez isso?
— Porque alguém não parava de reclamar. — ela sussurra, e minha boca se abre de surpresa. Isso soa muito familiar.
— Quem? — finalmente pergunto, embora eu já saiba.
Maggie hesita por um segundo, depois me conta:
— Poppy Barnes. Ela disse que você não parava de dar em cima do namorado dela toda vez que atendia os dois.
Meu coração afunda.
Poppy Barnes.
Ela fez com que me demitissem.
— Não ouviu isso de mim — Maggie acrescenta, antes de voltar para trás do balcão.
Não respondo. Não consigo me obrigar a responder. Eu já devia estar acostumada com o bullying de Poppy a essa altura, mas não estou.
O sino da porta toca, tilintando como vidro dentro do meu crânio.
Maggie solta um muxoxo.
— Falando no diabo, olha quem aparece.
Sigo o olhar dela e congelo ao ver Poppy Barnes entrar com sua comitiva. Minha pele se aquece de vergonha, e meus olhos ardem. Ela fez com que me demitissem. Isso era a minha tábua de salvação, e ela tirou isso de mim, por quê?
— Ah, querida. — Poppy ri, agarrada ao braço do namorado.
Romeo Sinclar. O quarterback estrela da escola.
Meu peito se comprime, e meus olhos ardem de lágrimas.
O olhar cruel dela se fixa em mim, e ela sorri.
— Ah, lá está ela. Indo embora, é? Ainda bem. Já vai tarde.
Olho para ela por um milésimo de segundo, então meus olhos se voltam para o namorado dela. Os olhos dele encontram os meus, e eu sei que ele sabe o que a namorada fez, mas, claro, ele não se importa. Por que se importaria?
Preciso sair daqui, então saio. Vou em direção à porta e não olho para trás, nem quando Poppy começa a gritar meu nome — bom, o nome criativo que ela me chama. Só paro de correr quando chego ao ponto de ônibus.
As lágrimas escorrem livremente, e meu peito afunda de dor. O desespero cai sobre mim como um cobertor encharcado, e eu quero arrancar o coração do peito. Não sei o que fazer. Sessenta dólares não vão durar muito.
Depois de esperar no sol pelo que pareceu uma hora, o ônibus finalmente passa.
Sorrio calorosamente para o motorista e me sento junto à janela, como sempre.
Vinte minutos depois, desço, aceno para ele e caminho para casa.
Minha casa é um bangalô pequeno e decadente. Foi uma das coisas que o papai deixou antes de morrer. Sou constantemente grata por isso, porque não precisamos pagar aluguel. Meu olhar percorre o mato crescido no quintal. Preciso arrumar tempo para cortá-lo.
Empurro a porta e entro no calor da casa. O cheiro de comida caseira toma o ambiente, e meu estômago ronca.
— Milly! — Emma grita e corre na minha direção.
— Oi, bebê. — Sorrio e a seguro no colo. Tento não gemer. Ela não tem mais cinco anos. Tem oito, e já é uma mocinha. Logo, não vou mais conseguir carregá-la.
Ela me abraça forte, e eu tento não derreter.
— Onde está seu irmão? — pergunto, colocando-a no chão com cuidado.
— Na cozinha — ela me diz, os olhos brilhando.
Vamos até a cozinha, e encontro minha mãe ali, mexendo alguma coisa enquanto Miles corta cebolas.
— Nosso pequeno chef. — Faço cócegas nele, e ele ri. — Oi, Milly.
— Você voltou cedo. — Mamãe franze a testa para mim.
Meu sorriso desaparece, e eu sussurro, envergonhada:
— Fui demitida.
Ela para de mexer por um segundo, e a colher fica imóvel no ar, então ela sorri e me tranquiliza:
— Nós vamos dar um jeito.
Passei o resto da noite limpando a cozinha e conferindo nossas tarefas de casa. Fiz questão de dormir cedo para conseguir acordar na hora.
Na manhã seguinte, assim que o sol começa a nascer, eu também me levanto. Acordo os gêmeos, o que leva um tempo, depois dou banho neles e sirvo o café da manhã. Mamãe finalmente acorda, então os deixo com ela enquanto me arrumo rápido para a escola. Prendo o cabelo em um coque apertado, visto meu suéter azul-marinho e coloco um jeans desbotado. Calço meus sapatos gastos e apresso as crianças para sairmos.
— Tchau, meus amores! — Mamãe se despede com um aceno.
Deixo os gêmeos rapidamente na escola e solto um suspiro de alívio quando finalmente entro no corredor lotado da Riverfield High.
A primeira aula começa em cinco minutos, então abro caminho pela multidão até meu armário, só para ser derrubada com força por trás. Minhas palmas batem no chão, e meus livros se espalham por toda parte.
Poppy sorri para mim, os olhos faiscando de crueldade.
— Você devia ter ficado em casa hoje, porque, se acha que fazer você ser demitida foi ruim, então você ainda não viu nada.
