Capítulo 7 Virada de Mesa
Capítulo 7: Virada de Mesa
POV: Alessandro Moretti
O ruído das hélices do helicóptero parecia martelar a minha têmpora, mas minha mente estava longe daquela aeronave. Eu encarava o mapeamento térmico da fazenda colonial na tela do tablet, os três pontos de calor estáticos na mata ao redor do casarão.
Havia algo errado. Algo terrivelmente errado.
Domênico Ferraz era um velho lobo do mercado, mas não era um estrategista de campo. Se ele tivesse o meu irmão em mãos e quisesse os documentos, ele não deixaria três homens parados como alvos fáceis em um perímetro aberto, esperando a minha chegada. Ele jogaria com o tempo, sabendo que cada minuto de atraso sangraria o Grupo Moretti.
— Samuel — chamei pelo comunicador, a voz saindo cortante, mais baixa e fria do que o habitual.
— Na escuta, Alessandro — a voz do meu diretor jurídico veio limpa pelo fone de ouvido. — Vocês estão a dez minutos do pouso.
— Cancele a aproximação. Mande o piloto dar meia-volta agora.
Ao meu lado, Aurora se sobressaltou. Ela virou o rosto rapidamente na minha direção, os olhos semicerrados em pura desconfiança. Ela esticou a mão e segurou o meu antebraço com força, os dedos cravando no tecido do meu paletó.
— Você enlouqueceu? — ela exigiu, o tom ríspido, sem qualquer traço da submissão que muitos teriam diante do meu comando. — O prazo está correndo, Alessandro! O seu irmão está lá embaixo!
— O meu irmão não está lá — respondi, segurando o pulso dela com firmeza, apertando o suficiente para que ela entendesse que eu não aceitava insubordinação, mas sem machucá-la. Conduzi a mão dela para longe do meu braço, mantendo os meus olhos fixos nos dela. — Aquilo lá embaixo é uma distração. Três pontos de calor estáticos há mais de meia hora no meio do mato? É um blefe. Deixaram rastros óbvios demais na planta da fazenda para nos atrair para longe da holding no dia da fusão.
Aurora tentou puxar o pulso de volta, mas eu não cedi. Aproximei o meu rosto do dela, diminuindo o espaço entre nós até que ela pudesse sentir a rigidez da minha mandíbula.
— Eu dito as regras aqui, Aurora — sussurrei, a voz pausada e gélida. — Se você quer o seu legado protegido e o meu irmão vivo, vai se sentar e me deixar jogar. Eu conheço os meus inimigos melhor do que você.
Ela sustentou o meu olhar, respirando fundo, o peito subindo e descendo contra o corte sofisticado de sua blusa. Havia uma faísca de fúria nos olhos dela, mas ela cedeu, recostando-se no banco de couro com um puxão brusco para soltar a mão.
— E onde ele está, então? — ela sibilou, cruzando os braços.
Ignorei a pergunta e acionei o canal direto de Miguel Torres, o chefe da minha segurança particular.
— Miguel, mude para o plano de contingência beta. O cativeiro não é na fazenda. Rastreie o sinal de vídeo original que recebemos no escritório. Não o IP mascarado, mas a frequência de oscilação da lâmpada de teto que aparecia no fundo da imagem.
Houve um silêncio de cinco segundos do outro lado da linha. Miguel conhecia os meus métodos. Ele sabia que eu não deixava nenhum detalhe passar.
— Entendido, chefe — a voz de Miguel ecoou, tensa. — A frequência da rede elétrica no vídeo... não é do interior. É da rede antiga da zona industrial da capital. Próxima aos galpões desativados da antiga metalúrgica que a Moretti comprou no ano passado.
— Exatamente — dei um meio sorriso sombrio, a adrenalina finalmente tomando o lugar da suspeita. — Eles achavam que nos mandariam para o interior enquanto mantinham o Lorenzo no quintal da nossa própria empresa. Mobilize a equipe tática. Quero o perímetro cercado em cinco minutos. Eu vou entrar primeiro.
O helicóptero mudou de rota bruscamente, inclinando-se de volta em direção à malha urbana. Aurora me observava, a expressão mudando de raiva para uma realização silenciosa. Ela entendeu a jogada.
Vinte minutos depois, a aeronave pousou no heliponto de um edifício vizinho à zona industrial. Descemos rápido. Eu não dei escolha a Aurora; ordenei que ela ficasse no carro com dois dos meus melhores homens, mas ela simplesmente ignorou a ordem, batendo a porta do veículo e caminhando logo atrás de mim pelo asfalto rachado do galpão abandonado.
— Eu disse para ficar no carro — ordenei, parando abruptamente e virando-me para ela.
— E eu já disse que não sou sua propriedade, Moretti — ela rebateu, dando um passo à frente, batendo de frente com o meu peito. — É a planta do meu pai que está lá dentro. Se houver alguma armadilha biométrica ou um painel que precise do meu nome, você vai perder tempo tentando me buscar. Eu vou com você.
Prendi o maxilar, a audácia daquela mulher testando o limite do meu controle. Mas não havia tempo para discutir. Segurei-a pela cintura com uma das mãos, puxando-a para perto, sentindo o calor do seu corpo contra o meu terno.
— Fique atrás de mim. Se você der um passo em falso, eu tranco você naquele carro e nunca mais devolvo o estúdio do seu pai. Entendido? — a minha voz saiu como um comando absoluto, os meus olhos fixos nos dela até ver o assentimento relutante em sua expressão.
Avançamos. Miguel e a equipe tática já haviam neutralizado os dois vigias na entrada sem fazer um único ruído. As portas de ferro do galpão estavam entreabertas.
Entrei primeiro, com a arma empunhada na mão direita, o corpo tenso. O ambiente cheirava a óleo velho e poeira. No centro do pavilhão, exatamente como na transmissão ao vivo, Lorenzo estava amarrado à cadeira de metal sob a luz fraca da lâmpada.
O homem de terno que estava de pé ao lado dele, segurando um maço de documentos, virou-se assustado ao ouvir o som dos meus passos pesados contra o cimento. Não era Domênico.
Antes que ele pudesse esboçar qualquer reação ou alcançar a arma sobre a mesa, eu avancei. Dei dois passos rápidos, desferi um soco direto em sua mandíbula, ouvindo o estalo seco do osso, e o joguei contra o chão, pisando firmemente em seu peito enquanto apontava a pistola para a sua testa.
— Acabou — ditei, a voz sem qualquer alteração, o tom de quem está apenas assinando um memorando de demissão.
Aurora correu em direção a Lorenzo, rasgando a mordaça do meu irmão revelando a urgência que ela guardava.
— Você demorou, irmãozinho — Lorenzo tossiu, a faísca desafiadora brilhando em seu rosto ensanguentado enquanto exibia um sorriso fraco. — E quem é a mulher bonita?
— Sua cunhada — respondi, retirando o pé do peito do homem desmaiado e guardando a arma. Olhei para Aurora, que ajudava Lorenzo a se levantar, desatando as cordas com agilidade. — Samuel está na holding agora, convocando a coletiva de imprensa para anunciar a fusão e o fechamento do balanço financeiro. Domênico e o conselho acham que vão pedir a minha cabeça em duas horas por falta de quórum e pela ausência do VP financeiro.
Lorenzo limpou o sangue da testa com a manga da camisa rasgada, endireitando a postura com a arrogância típica dos Moretti.
— Então acho que nós temos uma reunião de conselho para estragar — meu irmão deu um meio sorriso.
Olhei para Aurora. Ela limpava a poeira das mãos, o queixo erguido, sustentando o meu olhar. A parceria forçada havia funcionado, mas o verdadeiro teste começaria agora.
— Prepare-se, Aurora — avisei, caminhando em direção à saída do galpão sem olhar para trás. — O resgate foi a parte fácil.
