Capítulo 6 O Pacto do Silêncio
Capítulo 6: O Pacto do Silêncio
POV: Alessandro Moretti
O relógio digital na parede do escritório marcava o início da contagem regressiva. Vinte e quatro horas. Esse era o prazo que separava a vida do meu irmão de um desfecho que eu não permitiria que acontecesse.
Afastei-me da vidraça, deixando a imagem dos arranha-céus cinzentos para trás, e encarei a mulher parada diante da minha mesa. Aurora estava pálida, mas a linha de sua mandíbula permanecia rígida, sem o menor vestígio das lágrimas que a maioria das pessoas derramaria se estivesse no lugar dela. Ela processava a ameaça com a precisão de quem reconstrói estruturas antigas: analisando os danos antes de decidir onde apoiar o peso.
— Eles querem que eu abra o cofre — ela disse, a voz saindo em um tom surpreendentemente firme, quebrando a atmosfera pesada do cômodo. — Meu pai nunca me deu uma chave, Alessandro. Se há um cofre naquela fazenda, eu sequer sei onde fica.
— A chave não é um objeto físico, Aurora — respondi, contornando a mesa com passos lentos. Parei a pouca distância dela, observando a ação de suas mãos, que se fecharam em punhos ao lado do corpo, prontas para o combate. — O sistema de segurança da propriedade foi projetado pelo meu avô e pelo seu pai usando criptografia biométrica combinada. O acesso às fundações estruturais da casa principal só é liberado com o registro genético dos herdeiros diretos. Por isso o contrato exigia o casamento. Juridicamente, a fusão dos nossos nomes ativa a guarda dos documentos. Fisicamente, a sua presença é a única forma de passar pela tranca sem acionar os explosivos de segurança.
Aurora soltou uma risada curta, sem humor, dando um passo atrás.
— Explosivos? Meu pai era um arquiteto, não um terrorista.
— Seu pai estava lidando com os homens que hoje controlam o conselho desta holding, Aurora — rebati, a voz caindo para aquele barítono pausado que eu usava para ditar as regras do jogo. — Homens que limparam os fundos da empresa e que, se os documentos forem destruídos ou caírem nas mãos erradas, governarão o mercado sem qualquer oposição. Seu pai sabia o risco que corria. Ele protegeu você da única forma que conhecia: tornando-a indispensável.
Ela engoliu em seco, assimilando o peso da herança que acabara de desabar sobre seus ombros. O silêncio que se seguiu foi denso, interrompido apenas pelo clique suave da porta quando Samuel entrou, trazendo um relatório impresso nas mãos.
— A assessoria de imprensa acabou de disparar o comunicado oficial do casamento para os jornais — Samuel anunciou, o tom seco de sempre, embora o cansaço começasse a marcar as linhas ao redor de seus lábios. — As ações da holding estabilizaram. Domênico e os outros conselheiros estão oficialmente encurralados pela reação do mercado, mas a calmaria não vai durar. Eles vão exigir a presença do Lorenzo para a validação dos fundos nas próximas doze horas.
— Lorenzo não estará aqui em doze horas — falei, sem desviar a atenção de Aurora. — Nós vamos para a fazenda. Agora.
— Alessandro, isso é uma armadilha óbvia — Samuel alertou, dando um passo à frente, a preocupação fazendo-o esquecer a habitual formalidade. — Se você levar a Aurora até lá, estará entregando a eles exatamente o que precisam para sumir com as provas e eliminar vocês dois. Deixe que a equipe do Miguel Torres faça uma varredura tática primeiro.
— Não há tempo para varreduras — cortei, o tom definitivo encerrando qualquer possibilidade de discussão. — Miguel vai com o segundo escalão de segurança, mas manterá distância. Eles estão monitorando a propriedade através do satélite da holding. Se virem qualquer movimentação suspeita antes da nossa chegada, o plano muda. Mas nós entraremos pela porta da frente.
Samuel assentiu, sabendo que era inútil tentar me fazer mudar de ideia quando a vida do meu irmão estava em jogo. Ele guardou o relatório na pasta e saiu do escritório para coordenar a logística com a equipe de transporte.
Voltei-me para Aurora. Ela me observava em silêncio, tentando ler o que havia por trás do meu controle absoluto.
— Você está me usando como isca — ela afirmou, não como uma acusação, mas como a constatação de um fato.
— Estou usando a única vantagem que nós temos — corrigi, aproximando-me até que a distância entre nós fosse mínima. Senti o calor que emanava dela, uma energia intensa que parecia colidir com a minha rigidez. — Eles acham que estão no controle porque estão com o Lorenzo. Mas eles não conhecem a propriedade , e não sabem o que acontece quando o contrato é ativado no local. Você confia em mim, Aurora?
Ela sustentou o meu olhar por longos segundos. Havia uma tempestade de dúvidas por trás daquela expressão orgulhosa, mas a determinação venceu o medo.
— Eu confio na promessa que você fez de trazer o seu irmão de volta vivo — ela respondeu, a voz firme. — E confio no fato de que você não vai querer perder o seu império corporativo. Isso é o suficiente por enquanto.
— Ótimo. Pegue as suas coisas. O helicóptero está nos esperando na cobertura.
Dez minutos depois, subimos as escadas de metal em direção ao topo do edifício. O vento forte da altitude bagunçava os cabelos pretos de Aurora, que voavam ao redor do seu rosto enquanto ela caminhava com passos decididos em direção à aeronave. O barulho das hélices cortando o ar tornava qualquer conversa impossível, o que era perfeito. Eu não precisava de palavras; precisava de ação.
Assim que nos acomodamos nos bancos de couro e o helicóptero subiu, deixando a malha urbana para trás em direção ao interior, retirei o tablet da minha pasta. A tela exibia o mapeamento térmico em tempo real da fazenda colonial dos Vasconcelos.
O casarão principal, cercado por uma mata fechada, parecia calmo na imagem de satélite, mas três pontos de calor estáticos nos arredores indicavam que os homens de Domênico já haviam tomado posições estratégicas. Eles estavam esperando por nós.
Olhei para Aurora ao meu lado. Ela mantinha os olhos fixos na paisagem que mudava lá embaixo, os dedos batucando levemente no apoio de braço em um ritmo acelerado. Aproximei minha mão e apoiei os meus dedos sobre os dela, interrompendo o movimento. O toque causou uma reação imediata; ela tensionou os ombros, virando o rosto na minha direção.
Não retirei a mão. Mantive o aperto firme, transmitindo uma segurança que eu precisava que ela absorvesse para as próximas horas. O jogo de aparências havia acabado. O que estávamos prestes a iniciar naquelas terras antigas era uma guerra declarada pela sobrevivência do nosso legado. E o preço de cada movimento seria cobrado em sangue.
