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Capítulo 5 O Alvo na Parede

Capítulo 5: O Alvo na Parede

POV: Aurora Vasconcelos

A porta do escritório de Alessandro se fechou com um clique pesado, deixando o burburinho do corredor corporativo do lado de fora. Eu ainda sentia a adrenalina correndo pelas minhas veias após o confronto com Domênico Ferraz. Olhei para Alessandro, que já estava sentado atrás de sua imensa mesa de vidro escuro, os olhos fixos na tela do celular.

A rigidez nos ombros dele e a forma como sua mandíbula se travou indicavam que o jogo político do conselho era a menor das nossas preocupações.

— O que tem nesse e-mail, Alessandro? — perguntei, dando um passo à frente, apoiando as duas mãos na borda da mesa. A frieza do vidro contrastava com o calor que subia pelo meu pescoço. — Você mentiu para o conselho. Disse que o Lorenzo chegaria hoje, mas nós dois sabemos que ele está nas mãos de quem enviou aquela foto.

Alessandro não respondeu de imediato. Ele apenas girou o aparelho em minha direção e deslizou o dedo pela tela, iniciando uma transmissão de vídeo ao vivo que acabara de ser descriptografada por Samuel.

— Olhe você mesma — ele murmurou, a voz tão baixa que era quase um sussurro perigoso.

Aproximei-me, estreitando os olhos para focar nas imagens tremidas. O vídeo exibia uma sala escura, com paredes de concreto cinzento e descascado, iluminada apenas por uma lâmpada fraca que balançava no teto. Sentado em uma cadeira de metal bem no centro do cômodo, estava Lorenzo. Ele vestia a mesma camisa social da noite anterior, agora amassada e manchada. Havia um corte superficial na sua testa, com um rastro de sangue seco que descia até a sobrancelha, mas seus olhos  mantinham a mesma faísca desafiadora e impulsiva de sempre. Seus braços estavam fortemente amarrados para trás, e uma mordaça preta impedia que ele falasse.

Meu estômago revirou. Aquilo era real. O irmão dele estava sendo mantido em cativeiro enquanto nós fingíamos um casamento perfeito nos andares mais altos da cidade.

— Meu Deus, Alessandro... — a palavra escapou dos meus lábios antes que eu pudesse conter. Olhei para ele, esperando ver algum sinal de pânico, mas o "Rei do Silêncio" permanecia uma estátua de gelo. A única coisa que o entregava era o movimento rápido do músculo de sua bochecha.

— Continue olhando — ele ordenou, o tom cirúrgico.

A câmera no vídeo começou a se mover devagar, afastando-se do rosto de Lorenzo e focando em uma mesa de ferro colocada logo ao lado da cadeira. Sobre ela, não havia armas, cordas ou ferramentas de tortura, como eu esperava.

Havia apenas um papel. Um documento grande, antigo, ligeiramente amarelado pelo tempo e coberto por uma fina camada de poeira. A câmera deu um zoom na folha, revelando linhas finas de nanquim, anotações técnicas e, no canto inferior direito, um brasão familiar impresso em relevo.

Prendi a respiração. Meu coração errou uma batida, martelando dolorosamente contra as minhas costelas. Eu reconheceria aquele brasão e aquele traço em qualquer lugar do mundo. Era a planta arquitetônica de restauração da antiga fazenda colonial da minha família no interior do estado. Uma propriedade que meu pai havia trancado e proibido qualquer pessoa de visitar antes de morrer. Uma propriedade que, por herança, pertencia exclusivamente a mim.

— Essa é... essa é a minha planta — murmurei, dando um passo atrás, sentindo o chão faltar sob os meus pés. Virei o olhar para Alessandro, a mente girando em um turbilhão de perguntas. — Como eles conseguiram isso? O que a propriedade do meu pai tem a ver com o sequestro do seu irmão?

Alessandro pegou o celular de volta, cortando a transmissão antes que o vídeo terminasse. Ele se levantou lentamente, ajeitando o paletó  com uma calma que me irritou profundamente.

— Eu avisei que o contrato de casamento não foi criado para proteger ações ou fundos bancários, Aurora — ele disse, caminhando até a imensa vidraça do escritório e olhando para a imensidão de São Paulo. — O casamento é a chave jurídica para abrir aquela propriedade sem disparar um processo de auditoria externa do governo. O que está escondido nas paredes que o seu pai restaurou pode colocar metade do conselho desta empresa e do cenário político na cadeia.

— E por que você não me contou isso antes? — perguntei, a indignação queimando na minha garganta. Dei dois passos rápidos na direção dele, parando a poucos centímetros de suas costas. — Você me deixou assinar um contrato, me trouxe para o meio de um tiroteio corporativo e omitiu que o alvo estava desenhado nas minhas costas!

Alessandro virou-se devagar. A proximidade física fez com que o aroma amadeirado do seu perfume invadisse os meus sentidos, misturando-se com a tensão elétrica que sempre surgia quando estávamos perto demais. Ele se inclinou ligeiramente, fixando os olhos negros nos meus com uma intensidade que me fez dar um passo atrás.

— Eu omiti porque, até dez minutos atrás, eu achava que o segredo estava seguro no cofre do meu avô — ele disse, a voz gélida e pausada. — Mas quem está com o Lorenzo não quer apenas o dinheiro do grupo. Eles querem os documentos. E agora eles sabem que, para entrar naquela fazenda legalmente, precisam de você.

O celular dele apitou uma última vez, exibindo uma nova mensagem de texto logo abaixo do link do vídeo. Olhei por cima do ombro dele e li as palavras escritas pelo remetente anônimo.

Tragam a arquiteta até a fazenda em 24 horas. Se o casamento for real, ela abrirá o cofre para nós. Se recusarem, o próximo vídeo do Lorenzo será o último.

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