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Capítulo 4 O Teatro do Poder

Capítulo 4: O Teatro do Poder

POV: Alessandro Moretti

O trânsito pesado da manhã paulistana parecia arrastar as horas enquanto o carro blindado cortava a Avenida Paulista. Ao meu lado, a respiração de Aurora era curta, um compasso apressado que contrastava com o meu silêncio rígido.

Eu sentia o olhar dela queimando meu perfil, exigindo as respostas que eu ainda guardava no bolso, junto com o celular que vibrara minutos antes. No tabuleiro em que fomos jogados, a informação era a moeda mais valiosa, e eu não pretendia gastá-la antes da hora.

— Alessandro — a voz de Aurora quebrou o silêncio dentro do veículo. Ela se inclinou na minha direção, cruzando as mãos firmemente sobre os joelhos revelando a tensão que tentava mascarar. — O que o Domênico Ferraz estava fazendo na casa da sua mãe em plena madrugada? E por que o sinal dele foi usado para hackear a holding?

— Domênico é o presidente do conselho há mais de duas décadas — respondi, sem desviar os olhos do vidro escuro, a voz perfeitamente modulada. — Ele transita pela minha família desde antes de eu assumir a presidência. Ele tem chaves que muitos diretores nem sabem que existem.

— Isso não justifica ele estar lá no momento exato em que o seu irmão sumiu — ela rebateu, os olhos verdes estreitando-se com aquela inteligência analítica. — Sua mãe estava tensa. Aquela pose de rainha de gelo não me enganou. Ela sabe que há algo errado com o Lorenzo, mas preferiu atacar o meu trabalho a encarar a verdade.

Olhei de relance para ela. O corte sofisticado de suas roupas e a postura firme mostravam que ela não recuaria diante das aparências.

— Minha mãe protege o sobrenome Moretti acima de qualquer coisa, inclusive da própria família — soltei as palavras com uma frieza calculada. — Naquele mundo, Aurora, a culpa e a proteção andam de mãos dadas. Se ela sabe de algo, não vai falar até ter certeza de quem está com a faca no pescoço.

— E quem está com a faca no pescoço agora somos nós — ela murmurou, voltando a olhar para a janela. — Duas famílias presas a um fantasma de vinte anos atrás. O que tem de tão perigoso nessa propriedade antiga que o contrato tenta proteger?

— Dinheiro compra silêncio, mas segredos garantem a sobrevivência — respondi, mantendo o mistério. Eu sabia o que o cofre guardava, mas revelar aquela verdade para Aurora agora significaria transformá-la em um alvo ainda maior. — Você saberá no momento certo. Por enquanto, foque no nosso papel.

O carro parou com suavidade em frente à sede da Moretti Global. O edifício de vidro espelhado de cinquenta andares erguia-se contra o céu cinzento como um monumento ao poder. Antes de abrir a porta, segurei o pulso de Aurora. O toque rápido fez com que ela parasse por um instante, os olhos fixando-se nos meus.

— A partir deste momento, o teatro começa — alertei, a voz caindo um tom. — Nós entramos juntos. Nenhum sinal de dúvida. Mostre a eles a esposa que você prometeu ser.

Aurora engoliu em seco, mas a hesitação durou apenas um segundo. Ela endireitou os ombros, o queixo erguendo-se com dignidade.

— Eu sei fazer o meu trabalho, Moretti — ela disse, desvencilhando-se do meu toque com delicadeza acha eu só quero ganhar.

Caminhamos pelo saguão sob os olhares curiosos dos funcionários. Quando as portas do elevador privativo se abriram no andar da presidência, Samuel já nos aguardava no corredor com o semblante sério.

— O conselho já está reunido — Samuel disse, o tom de voz seco. Fez um aceno respeitoso para Aurora antes de voltar os olhos para mim. — Domênico convocou uma sessão extraordinária. Ele não sabe que nós assinamos o contrato. Ele acha que vai pedir a sua cabeça hoje.

— Deixe que ele ache — respondi, ajeitando os punhos da minha camisa.

Abri as portas duplas da sala de conselho. O ambiente era imenso, dominado por uma mesa oval cercada por doze homens de expressões severas. Na cabeceira, Domênico Ferraz exibia a sua habitual postura impecável.

Assim que entramos, o silêncio tornou-se absoluto. Os olhos de Domênico se moveram para Aurora, e por um milésimo de segundo, vi a tensão travar os cantos de sua boca. Ele não esperava vê-la ali.

— Alessandro — Domênico começou, a voz polida. — Esta é uma reunião restrita do conselho. Creio que a presença de civis é inadequada para o momento.

Conduzi Aurora até a cadeira ao meu lado, puxando-a para que se sentasse antes de assumir o meu lugar.

— A presença da herdeira Vasconcelos é perfeitamente adequada, Domênico — falei, o tom baixo e pausado fazendo com que todos se inclinassem para ouvir. — Considerando que ela assinou a fusão dos bens e agora responde como minha esposa.

Um murmúrio tenso ecoou pela sala. Domênico endireitou a postura, os dedos longos batucando levemente sobre o tampo de madeira.

— Um casamento repentino no meio de uma crise? — Domênico soltou uma risada curta. — Isso parece uma manobra desesperada de relações públicas, Alessandro. O conselho precisa de estabilidade, não de um romance de fachada.

— Não é um romance, Ferraz — Aurora cortou, a voz ecoando com uma clareza cortante. Ela encarou o presidente do conselho com um sorriso gelado. — É uma aliança jurídica com base no legado dos nossos pais. E se o senhor entende tanto de estabilidade, deveria saber que as ações da Moretti Global já subiram dois pontos percentuais nos mercados futuros nas últimas duas horas, apenas com os boatos da nossa união.

Domênico cerrou os dentes discretamente. A narrativa estava escapando do seu controle.

— Muito bem — Domênico disse, forçando um tom amigável. — Se a fusão é real, parabéns ao casal. Mas onde está o vice-presidente financeiro? Lorenzo deveria estar aqui para assinar a validação dos fundos. Sem a assinatura dele, o contrato não passa de um pedaço de papel inútil.

O silêncio voltou a reinar, mas desta vez, era o silêncio do perigo. Domênico sabia exatamente por que Lorenzo não estava ali. Ele estava testando o meu limite, jogando a isca para ver se eu confessaria o sequestro diante do conselho.

Sob a mesa, a mão de Aurora moveu-se discretamente, tocando a lateral da minha perna em um aviso mudo. Ela também sentia o cheiro da armadilha.

— Lorenzo está finalizando os trâmites da transferência de ativos fora da cidade, Domênico — respondi, mentindo com precisão cirúrgica. — Ele estará aqui antes do fechamento do pregão. A reunião está encerrada.

Levantei-me, e os conselheiros me acompanharam em um movimento automático. Domênico permaneceu sentado por alguns segundos, o olhar fixo no meu, uma promessa silenciosa de guerra.

Girei sobre os calcanhares e saí da sala com Aurora. Caminhamos em direção ao meu escritório, e assim que Samuel fechou a porta atrás de nós, desabei na cadeira de couro, retirando o celular do bolso. O e-mail na tela continha um link de transmissão ao vivo que havia acabado de carregar.

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