Capítulo 3 Linhas de Sangue
Capítulo 3: Linhas de Sangue
POV: Aurora Vasconcelos
O banco de couro do carro de Alessandro parecia uma cela de luxo em movimento. Bianca olhava fixamente para a janela, o reflexo das luzes da Avenida dançando em seus óculos, enquanto eu mantinha os olhos cravados nas minhas próprias mãos, ainda sentindo o formigamento térmico nos dedos onde a caneta — e a mão dele — haviam tocado.
— Você tem noção do tamanho do ninho de cobras onde acabou de pisar, não é? — a voz de Bianca cortou o silêncio do carro, carregada daquele sarcasmo defensivo que ela usava sempre que o medo tentava assumir o controle. — Eles levaram o irmão do cara, Rory. O Lorenzo. Ele é o VP financeiro da holding, o queridinho da mídia. Se isso vazar...
— Não vai vazar — respondi, surpreendendo a mim mesma com a frieza do meu tom. — Alessandro não vai deixar. Ele sabe que a queda da Moretti Global arrasta o meu estúdio e as fundações da nossa família junto.
— Você o chama pelo primeiro nome agora? — ela me encarou, arqueando uma sobrancelha, os olhos analíticos de advogada escaneando minha postura rígida. — Duas horas atrás ele era "o monstro corporativo". Agora você está agindo como se fizesse parte do clã.
— Eu assinei o papel, Bianca. Pelos próximos três anos, eu sou uma Moretti — olhei para a janela, vendo o reflexo da minha própria expressão determinada. — E eu não vou deixar que destruam o legado do meu pai por causa de uma guerra que eu sequer comecei.
O carro parou com suavidade em frente ao meu prédio. Nos despedimos com um abraço tenso, e Bianca prometeu passar a noite revisando as brechas de contingência do contrato. Subi para o meu apartamento, mas o sono passou longe. Passei a madrugada em claro, andando de um lado para o outro na minha sala, rodeada por esboços de restauração de fachadas e livros de história antiga que, pela primeira vez, pareciam não ter resposta para os meus problemas.
Às seis da manhã, meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha. O visor exibia um número desconhecido.
— Esteja pronta em trinta minutos — a voz barítona e controlada de Alessandro ecoou pelo alto-falante. Não havia um pingo de cansaço nela, apesar dos acontecimentos da noite anterior. — Um carro vai buscar você. Nós vamos visitar a minha mãe.
— Bom dia para você também, Alessandro — ironizei, limpando uma mecha de cabelo do rosto enquanto calçava meus sapatos. — Posso saber por que a pressa para tomar café em família?
— Ontem à noite houve um acesso não autorizado ao sistema da holding. O sinal veio de dentro da mansão de Helena Moretti — ele fez uma pausa milimétrica, e o silêncio que se seguiu foi quase audível. — Ela não sabe que eu sei. Nós vamos agir como o casal recém-casado que vai dar a notícia à matriarca. Seja convincente.
Ele desligou antes que eu pudesse retrucar. Uma mistura de raiva e adrenalina subiu pelo meu peito. Helena Moretti era a presidente da fundação beneficente da família, uma mulher conhecida pela elegância fria e por comandar a alta sociedade com mão de ferro. Se ela estava envolvida no sumiço do próprio filho caçula, a podridão daquela família era mais profunda do que eu imaginava.
Exatamente meia hora depois, o carro me deixou nos portões de uma mansão luxuosa no bairro do Morumbi. A arquitetura era neoclássica, com colunas imensas e um jardim perfeitamente podado que exalava uma opulência antiga. Alessandro já me esperava na entrada da casa, vestindo um terno cinza-chumbo impecável, os cabelos pretos levemente ondulados perfeitamente alinhados.
Quando me aproximei, ele não disse nada. Apenas estendeu o braço esquerdo para mim. Olhei para o tecido caro do seu paletó e, depois, para os seus olhos castanho-escuros, que pareciam duas pedras de obsidiana sob a luz da manhã. Respirei fundo e entrelacei meu braço no dele. O contato físico instantaneamente disparou aquela mesma eletricidade incômoda da noite anterior, mas mantive a postura firme.
As portas duplas de madeira maciça foram abertas por um mordomo silencioso, que nos conduziu até a sala de jantar de teto alto. Sentada à cabeceira de uma mesa de banquete, Helena Moretti tomava café em uma xícara de porcelana com detalhes em ouro. Aos sessenta anos, ela parecia uma rainha em seu trono; a postura impecável, os cabelos castanhos presos num coque perfeito e um olhar que congelaria o inferno.
— Alessandro — Helena disse, pousando a xícara sem fazer um único ruído contra o pires. Seus olhos se moveram para mim, estreitando-se com uma desaprovação indisfarçável. — E você deve ser a herdeira Vasconcelos. Não sabia que a criadagem da restauração histórica andava frequentando os Jardins tarde da noite.
— O mundo está mudando, Senhora Moretti — respondi antes que Alessandro pudesse abrir a boca, exibindo um sorriso educado que carregava todo o meu desdém. — Alguns de nós trabalham para restaurar o passado, enquanto outros parecem ocupados demais tentando destruí-lo.
Helena tensionou os ombros imperceptivelmente, a primeira microação de desconforto que consegui arrancar dela. Alessandro apertou levemente o meu braço contra o corpo dele, um aviso silencioso que misturava alerta e, talvez, uma ponta de admiração pela minha audácia.
— Nós nos casamos ontem à noite, mãe — Alessandro soltou a bomba com a sua habitual voz baixa e ritmada, retirando o documento assinado do bolso interno do paletó e colocando-o sobre a mesa, ao lado do bule de prata. — O contrato do meu avô foi ativado. A fusão das empresas está em andamento neste exato momento.
Helena empalideceu. Seus dedos longos e adornados com anéis de esmeralda travaram sobre o guardanapo de linho. Ela olhou para o papel e depois para o filho, a máscara de frieza refinada rachando para dar lugar a uma raiva contida.
— Você enlouqueceu? — ela sibilou, levantando-se da cadeira com uma elegância que não conseguia mascarar o tremor em suas mãos. — Trazer essa... essa garota para a nossa família? Ativar esse pacto ridículo? Você não sabe o que fez, Alessandro! Esse casamento é uma heresia contra tudo o que construímos!
— Eu fiz o que foi necessário para salvar o grupo do escândalo que o conselho armou — Alessandro deu um passo à frente, liberando o meu braço e assumindo uma postura predatória que dominou o ambiente. — E para proteger o patrimônio. Onde está o Lorenzo? Ele deveria ter chegado da viagem de negócios de madrugada.
Helena piscou, e por um breve segundo, vi algo que parecia pura culpa passar por aqueles olhos frios, uma sombra de vinte anos atrás que ela tentava esconder a todo custo.
— Eu não sei do seu irmão, Alessandro. Ele deve estar em alguma das suas festas habituais — ela respondeu, virando as costas para nós e caminhando em direção à imensa janela que dava para o jardim de inverno. — Agora, se me dão licença, tenho uma reunião com o conselho da fundação.
Alessandro não insistiu. Ele apenas pegou o papel de volta, fez um aceno formal e me guiou para fora da mansão. Caminhamos em silêncio até o carro, mas assim que as portas se fecharam, o clima dentro do veículo ficou denso.
— Ela mentiu — falei, virando-me para ele no banco traseiro. — Ela sabe onde o Lorenzo está, ou pelo menos sabe quem o levou. A reação dela quando você falou do contrato não foi de surpresa, foi de pânico.
Alessandro manteve os olhos fixos na estrada à nossa frente, a mandíbula travada. Ele retirou o celular do bolso e digitou uma mensagem rápida.
— O IP do acesso de ontem à noite foi confirmado — ele disse, a voz saindo tão fria que fez meus pelos arrepiarem. — Não foi a minha mãe quem usou a rede da mansão. Foi um dispositivo móvel clonado, mas registrado no nome de outra pessoa que estava na casa ontem à noite.
— Quem? — perguntei, aproximando-me dele, esquecendo por um instante as barreiras que havíamos colocado entre nós.
Alessandro virou o visor do celular para mim. Na tela, os detalhes técnicos do rastreamento terminavam em um nome que fez meu coração errar uma batida.
— Domênico Ferraz — ele murmurou. — O presidente do conselho estava na casa dela ontem à noite. E o e-mail com a foto do carro do meu irmão acabou de receber uma atualização.
Olhei para a tela que começava a carregar um novo arquivo de vídeo, a barra de progresso avançando enquanto o medo gelava o meu sangue.
