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Capítulo 2 O Peso do Silêncio

Capítulo 2: O Peso do Silêncio

​POV: Alessandro Moretti

​O silêncio sempre foi a minha melhor arma. No mundo dos negócios, quem fala demais entrega o jogo, e quem grita demonstra fraqueza. Mas ali, encarando a tela daquele tablet, o silêncio era um peso sufocante que testava cada gota do meu autocontrole.

​A imagem do sedã preto capotado na rodovia estadual brilhava contra os meus olhos. Era o carro de Lorenzo. Meu irmão mais novo. O gênio financeiro que eu jurara proteger quando nosso pai nos deixou.

​— Rastreie a origem do e-mail agora, Samuel — ordenei. Minha voz saiu baixa, pausada, sem que um único rastro do pânico que subia pela minha espinha transparecesse. — Use os servidores externos. Não quero que o conselho saiba disso.

​— Já estou fazendo isso — Samuel respondeu, os dedos voando pelo teclado com a agilidade de quem conhecia a gravidade de um segredo dos Moretti. O humor seco do meu diretor jurídico havia sumido por completo. — Mas quem enviou sabia exatamente o momento em que Lorenzo cruzaria o trecho sem sinal da serra. Eles estavam esperando por ele, Alessandro.

​Ao meu lado, senti a presença de Aurora Vasconcelos. Ela não recuou. Diferente de todas as pessoas que costumavam se afastar quando a minha aura de controle ameaçava ruir, ela deu um passo à frente. Seus olhos, antes cheios de uma indignação orgulhosa por causa do contrato, agora carregavam uma seriedade cortante. Ela observava a foto, a mente brilhante trabalhando rápido atrás daquela fachada elegante.

​— Isso não foi um acidente — Aurora murmurou, a voz firme — A mensagem é clara. Eles sabiam do casamento antes mesmo de nós assinarmos o papel. Alguém dentro da sua empresa vazou a informação.

​Eu me virei devagar para ela, mantendo as mãos nos bolsos do terno sob medida para esconder o punho cerrado. A avaliação que eu fizera dela minutos atrás estava errada. Aurora não era apenas uma arquiteta; ela era observadora. Inteligente demais para deixar algo passar despercebido.

​— O contrato estava trancado no cofre da presidência, Senhorita Vasconcelos — falei, aproximando-me dela até que o aroma sutil de jasmim que emanava de sua pele quebrasse o cheiro de tensão da sala. — Apenas eu, Samuel e a minha avó sabíamos da existência dele até hoje.

​— Então sugere que um de vocês três quer ver o seu irmão morto? — ela rebateu, erguendo o queixo, sustentando o meu olhar sem hesitar. — Porque se a resposta for não, o seu círculo de confiança é bem mais poroso do que a sua reputação no mercado sugere.

​A audácia dela teria me irritado em qualquer outro momento, mas a lógica era impecável. Domênico Ferraz, o presidente do conselho, vinha tentando minar a minha autoridade há meses usando o escândalo financeiro como desculpa. Se ele descobrisse que o casamento salvaria as ações do grupo e trancaria os documentos na antiga propriedade da família, ele faria qualquer coisa para impedi-lo. Inclusive usar Lorenzo como aviso.

​O telefone no meu bolso vibrou. Atendi no primeiro toque, levando o aparelho ao ouvido sem mudar a postura.

​— Moretti — ditei.

​— Alessandro? — A voz do outro lado era contida, mas eu reconheceria aquele tom em qualquer lugar. Era Miguel Torres, o chefe da equipe de segurança avançada que eu havia designado para monitorar os passos de Lorenzo discretamente. — Localizamos o veículo na altura do quilômetro 42. Houve uma interceptação forçada. O motorista está inconsciente, mas vivo. Lorenzo não está no local.

​O ar sumiu dos meus pulmões por um milésimo de segundo. Sequestro. Não queriam matá-lo ainda; queriam barganha. Queriam o fim do contrato.

​— Encontre-o, Miguel. Mobilize o segundo escalão. Quero relatórios a cada dez minutos — desliguei sem esperar resposta.

​Olhei para Samuel, que já entendera a situação apenas pela minha expressão estática. Ele assentiu, pegando o paletó e saindo da cobertura em silêncio para acionar os nossos contatos na polícia federal.

​Fiquei sozinho com Aurora. A imensidão da sala minimalista parecia ainda maior sob a luz fria da cidade. Ela me encarava, processando o turbilhão que acabara de invadir a sua vida nas últimas duas horas.

​— O que nós vamos fazer? — ela perguntou. O uso do "nós" não passou despercebido por mim. Ela já entendera que o destino dela estava selado ao meu.

​— Você vai voltar para o seu apartamento com a sua prima — respondi, caminhando até a mesa de vidro e recolhendo as duas vias do contrato assinado. — Minha equipe vai intensificar a sua segurança. A partir de amanhã, o mercado saberá que somos marido e mulher. O plano não muda.

​— O plano não muda? — Aurora deu uma risada curta, incrédula, dando um passo na minha direção. A saia social de corte sofisticado se moveu com elegância enquanto ela gesticulava.

— O seu irmão foi levado por profissionais, Alessandro! Eles sabem sobre nós. Se nós seguirmos em frente com essa fachada pública, eles vão cumprir a ameaça.

​Aproximei-me dela com passos lentos, usando a minha altura para cercar o seu espaço, mas ela não recuou um milímetro. Olhei bem no fundo daqueles olhos verdes, deixando que ela visse a frieza implacável que me fizera o homem mais temido daquela cidade.

​— Se nós recuarmos agora, Aurora, eles vencem — sussurrei, a voz caindo para um tom quase perigoso. — Se o casamento for cancelado, as ações desabam amanhã às nove da manhã. O grupo vai a leilão, as fundações da sua família são confiscadas pelo banco e o controle passa para os mesmos homens que pegaram o meu irmão. Eu não negocio com o estômago vazio, e não entrego o meu legado de bandeja para assassinos corporativos.

​Ela prendeu a respiração, o peito subindo e descendo rapidamente. A proximidade física nos permitia sentir o calor um do outro, uma eletricidade incômoda e intensa que parecia errada diante do caos que nos cercava. Aurora engoliu em seco, assimilando o peso das minhas palavras. Ela sabia que eu tinha razão. O casamento era a nossa única armadura.

​— Três anos — ela lembrou, a voz um pouco mais baixa, mas ainda firme. — Esse é o preço do acordo. Mas eu quero o seu irmão de volta, Moretti. Vivo.

​— Ele é meu sangue, Aurora. Ninguém toca no que é meu e sai ileso — afastei-me, guardando os papéis na minha pasta de couro. — Bianca está esperando você lá embaixo. Meu motorista vai levar vocês.

​Ela me olhou por mais um longo segundo, como se tentasse decifrar o que havia por trás do "Rei do Silêncio". Depois, sem dizer mais nada, girou sobre os calcanhares e caminhou em direção ao elevador com a postura impecável de uma rainha indo para a guerra.

​Assim que as portas de metal se fecharam, tirando-a da minha vista, a máscara de gelo rachou por um instante. Peguei o copo de cristal sobre o aparador e o joguei contra a parede de mármore escura. O som do vidro se estilhaçando ecoou pelo apartamento vazio.

​Eles achavam que podiam me quebrar usando Lorenzo. Iam descobrir que um Moretti encurralado era muito mais perigoso do que um Moretti no topo.

​Caminhei até o escritório privativo, ligando o monitor principal que exibia as câmeras de segurança da holding. Eu precisava achar a falha. Precisava achar o traidor antes que o sol nascesse. Foi quando uma notificação piscou no canto inferior esquerdo da tela. Um acesso não autorizado à rede interna do Grupo Moretti, realizado há exatamente dez minutos.

​A localização do IP de origem fez o meu sangue congelar na mesma hora. O sinal vinha de dentro da mansão da minha própria mãe, Helena Moretti.

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