O Preço do Teu Toque

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Capítulo 1 A Moeda de Troca

​POV: Aurora Vasconcelos

​O cheiro de papel antigo e mofo costumava ser o meu refúgio, mas naquela tarde ele parecia sufocante. Eu encarava o documento amarelado sobre a mesa de mogno do escritório de advocacia da minha prima, Bianca, tentando fazer as letras pararem de dançar diante dos meus olhos. Minhas mãos, sempre firmes ao manusear pincéis delicados de restauração, tremiam de leve.

​— Isso é uma piada de mau gosto, não é? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. Levantei os olhos para Bianca, que andava de um lado para o outro, o salto agulha estalando contra o piso de madeira.

​— Eu gostaria que fosse, Rory — Bianca parou, cruzando os braços sobre o terno sob medida. O sarcasmo que costumava ditar o seu tom de voz havia sumido, dando lugar a uma seriedade preocupante. — O contrato é real. Tem o selo notarial, a assinatura do seu pai e a do velho Matteo Moretti. Foi firmado há mais de vinte anos, em segredo absoluto.

​Passei os dedos pelo contorno do meu nome escrito à caneta-tinteiro. Aurora Vasconcelos. Ao lado, o dele. Alessandro Moretti. Eu sabia quem ele era, o mercado inteiro sabia. Um homem que destruía impérios sem alterar o tom de voz. E, de acordo com aquele papel, o meu futuro marido.

​— Meu pai me disse que tínhamos uma dívida de gratidão com os Moretti — murmurei, sentindo um nó apertar minha garganta. — Gratidão por terem ajudado a salvar o escritório dele na época. Ele nunca mencionou que eu era a moeda de troca.

​— O contrato diz que, se qualquer uma das famílias enfrentasse uma crise que ameaçasse a existência do patrimônio, os herdeiros deveriam se unir em casamento para fundir os bens e ativar uma cláusula de proteção mútua — Bianca se aproximou, apoiando as duas mãos na mesa e inclinando-se em minha direção. — E você sabe o que está acontecendo com a Moretti Global agora. O escândalo financeiro do desvio de fundos está sangrando as ações deles. Eles vão ruir se não ativarem essa cláusula. E se eles ruírem, levam tudo o que seu pai deixou para você e para as fundações.

​— E se eu disser não? — Desviei o olhar do papel, encarando os olhos atentos da minha prima. — Se eu simplesmente rasgar isso e seguir com a minha vida?

​— Se você recusar, o contrato estipula a liquidação automática de absolutamente tudo — Bianca soltou o ar devagar, a gravidade de suas palavras pesando no ambiente. — As empresas, os imóveis, os bens da sua família e as ações da Moretti. Até as fundações beneficentes que a sua mãe ajudou a construir seriam vendidas para o maior lance do mercado. Nós perderíamos tudo, Aurora. Você ficaria sem o seu estúdio, sem o legado do seu pai, e milhares de pessoas que dependem da fundação ficariam desamparadas.

​A injustiça daquela situação queimou no meu peito. Eu sempre pautei minha vida pela verdade e pela ética, dedicando meus dias a trazer o passado de volta à vida através da arquitetura. Agora, o meu próprio passado se revelava uma mentira arquitetada nos bastidores do poder. Senti uma onda de indignação substituir o choque inicial. Eu não seria uma peça passiva no tabuleiro de homens poderosos que já haviam morrido.

​— Nós temos trinta dias para casar, não é? — perguntei, endireitando a postura e sentindo a rigidez tomar conta dos meus ombros.

​— Vinte e nove, na verdade — Bianca deu um meio sorriso tenso, endireitando os óculos. — O relógio já está correndo. Alessandro Moretti exigiu uma reunião hoje à noite na cobertura dele. Ele quer avaliar a "situação".

​— Avaliar? — Uma risada seca escapou dos meus lábios enquanto eu me levantava, pegando minha bolsa. — Ele acha que sou um relatório financeiro que precisa de auditoria. Pois ele vai descobrir que eu não abaixo a cabeça para os Moretti.

​Duas horas depois, o elevador privativo do edifício de luxo nos Jardins se abriu diretamente no hall da cobertura de Alessandro. O silêncio do lugar era quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo som sutil do vento contra as imensas vidraças que exibiam a linha do horizonte de São Paulo iluminada pela noite. O apartamento era minimalista, decorado em tons de cinza, preto e mármore escuro. Uma elegância fria e calculada, exatamente como o dono.

​Bianca caminhava ao meu lado, mas parou assim que entramos na imensa sala de estar. Samuel Duarte, o diretor jurídico do grupo nos aguardava de pé ao lado de uma mesa de centro de vidro, onde uma cópia idêntica do contrato repousava. Ele nos cumprimentou com um aceno formal.

​Mas meus olhos não ficaram em Samuel. Eles foram atraídos para a silhueta alta que estava de costas para nós, observando a cidade através do vidro.

​Alessandro Moretti parecia ainda mais imponente do que nas fotos de revistas. Seus ombros largos preenchiam perfeitamente o paletó de um terno sob medida alinhado. Os cabelos pretos, levemente ondulados, estavam arrumados de forma impecável. Quando ele se virou devagar, o impacto dos seus olhos castanho, quase negros, me atingiu como uma força física. Ele mantinha as mãos nos bolsos da calça, a postura emanando uma autoridade natural que dispensava qualquer esforço.

​Ele não disse uma palavra de imediato. Apenas caminhou em nossa direção com passos medidos, o olhar analítico varrendo minha figura de cima a baixo, detendo-se nos meus olhos por alguns segundos antes de descer para a pasta que Bianca carregava. O silêncio dele era uma arma, feita para fazer o outro lado ceder pelo nervosismo. Mas eu mantive o queixo erguido, sustentando o olhar.

​— Senhorita Vasconcelos — a voz de Alessandro preencheu a sala. Baixo, controlado, perfeitamente modulado. Não havia calor ali, apenas negócios. — Imagino que sua advogada já tenha lhe explicado os termos.

​— Ela me explicou a armadilha em que nossos parentes nos enfiaram, Senhor Moretti — respondi, dando um passo à frente, cruzando os braços para esconder o fato de que meu coração martelava contra minhas costelas. — E não pretendo ser tratada como um termo de liquidação.

​Um lampejo quase imperceptível de surpresa passou pelos olhos dele, mas sua expressão permaneceu uma máscara de gelo. Ele se aproximou da mesa, pegando uma caneta de metal pesado.

​— Não temos tempo para sentimentalismos ou discussões morais. O Grupo Moretti precisa dessa fusão para estancar o sangramento das ações causado pelo escândalo do conselho — ele falou com uma frieza cirúrgica, colocando o documento diante de mim. — Precisamos proteger nossos legados. Assine, e estabeleceremos as regras de convivência. Recuse, e amanhã de manhã ambos estaremos falidos.

​Olhei para a caneta que ele me estendia. O toque dos seus dedos contra os meus, enviou um choque térmico pelo meu braço, uma eletricidade súbita que me fez prender a respiração. Olhei para o papel, pensando nas fundações, no nome do meu pai e no preço da minha liberdade. Peguei a caneta e firmei minha assinatura na linha correspondente.

​Alessandro pegou o papel de volta, assinando logo abaixo com traços firmes e rápidos. Quando terminou, ele ergueu os olhos para mim, a seriedade esculpida em suas feições marcantes.

​— Três regras — ele disse, a voz caindo um tom, tornando-se ainda mais intimidadora. — Três anos sem divórcio. Aparência pública perfeita. E ninguém, absolutamente ninguém, pode saber o real motivo disso. Se uma vírgula vazar, o controle do grupo vai direto para os nossos concorrentes e nós perdemos tudo. Entendido?

​— Entendido — respondi, sentindo o peso do sobrenome Moretti se instalar sobre meus ombros. — Mas se vamos dividir o mesmo teto, fique sabendo que eu não serei uma esposa de troféu silenciosa.

​Alessandro deu um passo lento na minha direção, diminuindo a distância entre nós até que eu pudesse sentir o aroma sutil do seu perfume amadeirado. Ele se inclinou ligeiramente, seus olhos negros fixos nos meus, sustentando uma promessa sombria que fez meu estômago revirar.

​— Você pode falar o quanto quiser entre estas quatro paredes, Aurora — ele murmurou. — Mas lá fora, você é minha esposa.

​Ele se afastou, pegando o telefone que vibrava em seu bolso, mas parou abruptamente quando Samuel se aproximou com o tablet em mãos, o rosto mais pálido do que antes.

​— Alessandro — Samuel interrompeu, a urgência clara em seu tom de voz seco. — Você precisa ver isso. Acabou de chegar uma mensagem no e-mail criptografado da presidência.

​Alessandro pegou o aparelho. Eu observei a mandíbula dele se travar de tal forma que os músculos do seu rosto pareceram pedra. Ele não gritou, não praguejou. Mas o ar na sala pareceu congelar instantaneamente.

​— O que foi? — perguntei, dando um passo à frente, a intuição me alertando de que o perigo já havia batido à porta.

​Alessandro virou a tela do tablet na minha direção. Havia a foto de um carro capotado em uma estrada escura — o carro que Lorenzo, o irmão mais novo dele, deveria estar usando naquela noite para voltar de uma viagem de negócios — e uma única frase escrita em letras garrafais abaixo da imagem.

​"O casamento foi o seu primeiro erro, Moretti. O segundo custará a vida do seu irmão."

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