O Nortista

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O vestido e a fera

Eu não tinha mais paz, então saí da Queda de Poseidon.

Mas meu inabalável espírito de aventura não conseguia tirar os olhos do navio que se aproximava. À medida que o sol subia no céu, meu pai não perdeu tempo em preparar a costa para a chegada da embarcação. Ainda era cedo demais para eles desembarcarem, mas permaneci sob a segurança das árvores enquanto fitava o mar. O navio já não parecia tão pequeno. O zumbido curioso das conversas podia ser ouvido entre os soldados, sentados à espera. Eu fiquei ali.

A praia estava movimentada para aquela hora da manhã, e era bom. Normalmente era silenciosa, e eu vagava por ali sozinha, mas até que gostava da companhia deles, embora ninguém ainda pudesse me ver.

Eu não havia percebido a imensidão do oceano, pois pelo menos uma hora já tinha se passado e os nortistas ainda pareciam estar a um mundo de distância. Meu dia começaria em pouco tempo, então forcei meus olhos a se desviarem do mar cintilante e caminhei em direção à praia.

Fui recebida por murmúrios surpresos dos soldados, que me encaravam enquanto eu passava. A maioria foi respeitosa, abrindo espaço para mim, e eu agradeci, mas sempre havia uma ou outra maçã podre que fazia comentários grosseiros sobre minha camisola fina, acreditando que eu não podia ouvi-los. Eu sempre podia.

— Alteza, não sabíamos que a senhora ainda estava aqui fora. Caso contrário, eu mesmo teria providenciado uma escolta para levá-la de volta ao palácio.

Xavier era um bom soldado; não foi surpresa alguma quando meu pai o nomeou chefe da guarda no verão passado.

— Não precisa, Xavier. — Olhei ao redor para os outros soldados, que em sua maioria mantinham o olhar abaixado. — Estou voltando. Mas toque o berrante quando eles chegarem. As crianças vão gostar muito.

Xavier sorriu ao ouvir a menção às crianças e assentiu.

— Claro, Alteza.

...

Como princesa, você tinha muitos deveres, tanto reais quanto de ambição pessoal. Um que eu aguardava com desespero era a contação de histórias que prometi às crianças de Covas. Todas as manhãs, de agora em diante, não muito depois do amanhecer, alguém me encontraria na escola local, cercada pelos pequenos, muitos deles mal tendo aprendido a andar.

— E Thor, com seu poderoso martelo, gritou sua fúria pelo céu escuro. Alguém havia enfurecido o guerreiro. Logo o trovão ribombou pelo céu, estalando alto e feroz. As crianças se agarravam às mães, os bebês choravam, e os relâmpagos brilhavam com tanta intensidade que se refletiam na escuridão de suas pupilas.

Estava estranhamente silencioso. Histórias de lendas e guerreiros infames eram minhas favoritas.

Eu precisava acalmar a respiração; sempre fui apaixonada por contar histórias. Daisy olhou para mim do outro lado da delicada sala de aula e soltou uma risadinha por trás da mão. Será que aquilo não tinha sido um bom começo? Foi então que abaixei o olhar para as crianças e percebi suas expressões confusas e assustadas, assim como os maxilares tensos de suas mães.

“Desculpem. Isso foi um pouco sombrio para uma manhã tão perfeita.” Sem graça, prendi atrás da orelha alguns fios soltos de cabelo, e juro que até ouvi alguém murmurar, de fato.

Além das minhas histórias assustadoras, havia uma empolgação fervilhando sob a superfície; eu conseguia senti-la.

“Não se preocupe, Alteza, as crianças logo vão se acostumar com suas histórias coloridas.”

Assim que me despedi das crianças praticamente traumatizadas, Daisy começou a me preparar para receber nossos convidados.

...

Saímos para fora, e as pessoas andavam com passos rápidos e rostos iluminados. Eu conseguia ouvir as águas daqui. O navio estava mesmo ancorado e sendo descarregado pelos soldados.

“Eles já devem estar em seus aposentos, se preparando para o almoço”, Daisy comenta em voz alta. Meu coração acelera só de pensar nisso. Estou alarmantemente intrigada com essas pessoas novas. Covas não era um lugar de receber visitantes. O mundo achava melhor nos deixar em paz, já que nossa ilha ficava estranhamente longe demais dos continentes, mas não exatamente perto da borda da Terra. Em termos simples, quem não precisava vir, não vinha.

“E eu preciso me juntar a eles?”

Daisy nos faz parar de caminhar.

“Claro! A senhora é a razão pela qual eles atravessaram o mar, Alteza.”

“Sim, sim, está bem. Acho que devo ir me arrumar.”

Entrar no palácio foi uma experiência diferente hoje. Criados carregando bagagens estrangeiras, mas eu ainda não tinha visto um nortista sequer. Fui para meus aposentos, ansiosa para ver o que mamãe tinha separado para mim. Eu não tinha dúvida de que ela escolheria meu vestido para esta ocasião, já que, compreensivelmente, não podia deixar inteiramente nas minhas mãos a tarefa de parecer ‘na moda’.

Minha respiração fica presa na garganta quando vejo o vestido. É vermelho-escuro, e o decote não é tão modesto. De certa forma respeitável, mas chamativo.

“Hum.”

Rapidamente o visto e me sento diante da penteadeira, esperando que as criadas arrumem meu cabelo. Elas decidem prender minha juba escura e revolta num coque bonito e deixam minha maquiagem leve, apenas realçando o castanho dos meus olhos com kajal. Fiquei agradavelmente surpresa com o reflexo. Espero mesmo que o nortista seja bonito, porque, caso contrário, que desperdício!

“Estou pronta.”

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