O Irmão Alfa da Melhor Amiga

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Capítulo 2

POV da Ava

Acordei e me vi deitada na calçada na entrada do hotel, largada ali como uma moradora de rua e gelada até os ossos, com uma dor de cabeça pulsando. Eu estava quase completamente entorpecida, mas, de algum jeito, ainda conseguia sentir dentro de mim pedaços do vínculo quebrado com o Ethan, cortando meu coração e meu estômago como estilhaços de vidro.

Algumas pessoas que passavam me lançaram olhares estranhos, do jeito que os Humanos fazem. Isso mesmo. Eu estava no Mundo Humano.

Eu nem podia voltar para casa naquele momento. Havia um estreito do mar separando o Mundo Humano do Território dos Lobisomens. O Ethan disse que precisava passar a noite de Ano-Novo aqui por causa de uns negócios com humanos. Então eu vim para cá por ele, hoje, numa balsa. Agora eu precisava esperar a primeira balsa de amanhã para voltar para casa.

Consegui me sentar e, depois, bem devagar, fiquei de pé. Apoiei a mão direita na moldura metálica da porta da frente do hotel e deixei a cabeça pender para a frente. A pressão atrás dos meus olhos batia no mesmo ritmo do meu coração, e eu me senti vagamente traída por ele ainda estar funcionando, ainda bombeando sangue para um corpo que parecia danificado além de qualquer reparo.

Olhei ao redor. A rua era um céu de luzes coloridas. As decorações de Natal e de Ano-Novo espalhavam alegria sobre a fina camada de neve branca na calçada e no asfalto. Fiz uma careta para tudo aquilo por estar alegre demais e abaixei o olhar procurando a minha bolsa.

Ali. Quando estiquei a mão, trêmula, para pegar a bolsa, vi que minha aliança não estava no dedo. A Olivia deve ter tirado do meu corpo desacordado como uma saqueadora de túmulos, e a imagem que isso me trouxe quase me fez vomitar.

Depois de colocar a alça da bolsa no ombro, encostei de novo na entrada e deixei a cabeça descansar na placa dourada, congelante. Aquilo aliviou um pouco a dor.

Melhor ainda: bem do outro lado da rua havia um bar agachado ali — madeira aconchegante, vitrais e letreiros de neon prometendo IPAs e Bacardi.

Eu sabia que provavelmente deveria procurar um quarto de hotel primeiro. Mas, traída pelo meu marido e pela minha melhor amiga numa noite fria de Ano-Novo, eu não resisti a uma bebida num bar quentinho como aquele.

Cheguei à porta, e um rapaz alto passou por mim roçando o ombro. Ele cheirava a colônia cara, e havia algo estranhamente familiar na postura dele e no cabelo loiro, liso. Eu levantei os olhos, mas ele era um desconhecido.

Os olhos verdes dele encontraram os meus de leve, avaliando meu rosto marcado de lágrimas. Bufando para a pena dele, virei o rosto e caminhei decidido até o balcão, que estava quase vazio.

O bartender — um jovem bem arrumado, com tatuagens coloridas subindo e descendo pelos braços definidos — fez um gesto com a cabeça para mim e colocou um porta-copo no balcão quando eu me sentei num banco alto.

— Blue Sapphire com gelo e limão — pedi, percebendo que o lugar estava quieto para uma noite de Ano-Novo. Só havia mais dois clientes no balcão, cada um agarrado ao próprio copo, e alguns casais nas mesas espalhadas.

Quando o bartender voltou com a minha bebida, eu estava encarando meu dedo nu e tentando entender a minha nova vida. Qual seria o meu futuro sem o Ethan? Sem a Olivia?

A ideia de perder os dois doía do mesmo jeito — assim como a minha raiva pela traição deles. Eu estava culpando ele, mas eu tinha amado o Ethan de verdade, se eu conseguia sentir aquilo? Eu tinha certeza de que sim.

Dei um gole. A bebida desceu quente, confortável pela minha garganta.

— Blue Sapphire com gelo e limão — disse uma voz grave, masculina, quando o rapaz da porta se sentou à minha direita.

Ué. Eu achei que ele estivesse indo embora.

De novo, ergui os olhos para encontrar os olhos verdes dele e fui tomada por aquela sensação de familiaridade.

— Espero que você não se importe — ele disse com um sorriso calmo. — Soou tão bom quando você pediu que eu pensei em pedir igual.

A sensação ficou mais forte.

— A gente já se encontrou antes?

O sorriso dele se abriu, e eu percebi que tinha soado como uma cantada.

— Você é um Humano que mora por aqui? — perguntei depressa, envergonhada, para mudar de assunto.

— Eu sou um lobisomem.

— Ah. — Fiquei surpresa. Era raro ver outro lobisomem andando sozinho no mundo humano na noite de Ano-Novo. — Você vai voltar para casa para visitar a família nas festas?

— Faz muito tempo que eu não vou para casa. Eu prefiro morar aqui sozinho, no mundo humano — ele disse, sorrindo, enquanto o bartender entregava a bebida dele. Ele olhou para o copo por um instante, tomou um gole, assentiu e colocou de volta no balcão. — Mas amanhã eu vou voltar.

Acho que ele era um desses Lobisomens jovens que decidiam ficar no Mundo Humano, como o Chris.

“Tenho uns assuntos de família pra resolver”, ele disse em seguida. Ele olhou pra mim, e as luzes penduradas sobre o bar recortaram as maçãs do rosto altas dele e atravessaram o nariz reto. A pele era clara, com um aspecto macio, e eu me peguei imaginando como ele seria em forma de lobo.

“Não é uma coisa pela qual eu esteja ansioso”, ele admitiu. “Mas, se você não se importar de eu dizer… imagino que não seja tão ruim quanto o que você passou hoje.”

Eu fiquei estranhamente encantada com a franqueza dele depois de um dia cheio de mentiras e traições.

“Traição?”, ele perguntou. Os olhos dele estavam curiosos e gentis, mesmo quando eu percebi que tinha pensado em voz alta.

Dei de ombros, notando que a dor já tinha diminuído um pouco — embora eu não soubesse dizer se era por causa do álcool ou da companhia. “Eu fui companheira marcada por anos de um homem e tenho que aceitar que ele nunca se importou de verdade comigo.” Levantei o dedo, nu, e mostrei a marquinha clara deixada pelo anel. “Parece que ele prefere a minha melhor amiga. Ex-melhor amiga.”

“Pelo visto, ele tinha um gosto péssimo”, o homem disse baixo e, apesar de ser claramente uma graça charmosa, meio jogada, eu senti meus olhos arderem.

Balancei a cabeça. “Ela é bonita e jovem. Ele preferir ela a mim até faz sentido. Eu só nunca pensei que ele fosse descartar o nosso vínculo de marca com tanta facilidade.”

Esfreguei a testa, que ainda doía, e sorri pra ele com cansaço. Sem pensar muito, percebi que eu estava completando alguns detalhes, incluindo a garrafa de champanhe para dois e o comentário da Olivia sobre acabar com a própria vida. Para minha surpresa, ele começou a ficar com raiva.

“Você está dizendo que o seu marido quebrou o seu vínculo? Assim, do nada?”

Eu assenti, um pouco preocupada com aquela veemência.

Mas os olhos dele voltaram a ficar suaves, dessa vez com admiração. “E você está aqui, de pé. Você deve ser muito forte… passar por uma coisa dessas e não precisar ficar a próxima semana inteira na cama.”

Dei de ombros. “Eu desmaiei. Acordei do lado de fora do hotel. Me largaram como se eu fosse um saco de batatas.” Virei o resto do meu drinque e fiz sinal pro barman me servir outro.

“Incrível”, ele disse, balançando a cabeça. “Seus dois ex são uns idiotas.”

Minha boca se abriu pra agradecer, e o gosto de sal invadiu quando uma lágrima escorreu pelo meu lábio de cima e chegou na minha língua. Os olhos dele seguiram o caminho dela, e os dedos gentis dele enxugaram a umidade.

Fechei os olhos, mas as lágrimas não pararam. Apesar de eu estar falando com o homem mais atraente que eu já tinha conhecido, eu me sentia miserável e acabada, vazia e quebradiça.

Um calor estranho subiu às minhas bochechas, e eu abri os olhos úmidos pra ver que o rosto dele estava a um palmo do meu. Ele hesitou e, então, encostou os lábios nos meus com uma delicadeza que me arrancou um suspiro. Diferente dos beijos mandões e agressivos do Ethan, aquele beijo oferecia um conforto profundo e um desejo tão simples, tão honesto, que eu quase não conseguia pensar. Eu senti o dia embaçar na minha mente — e eu aceitei aquilo.

Mas uma parte do meu cérebro, ainda alerta, percebeu outra coisa no beijo. Por mais doce que fosse, os lábios dele tinham uma pontinha de incerteza, e eu me afastei.

“Quantos anos você tem?”, eu perguntei.

Ele também se afastou, olhando pra bebida. “Vinte e cinco”, ele disse, quase na defensiva.

“Minha Deusa”, eu gemi. Primeiro meu vínculo foi quebrado, e agora eu estava beijando uma criança? O dia ainda podia ficar mais humilhante?

Olhei pra ele e só disse: “Isso não vai dar certo.” Estendi a mão pra pegar minha bolsa pendurada no encosto do banco alto.

Se o rapaz tivesse me agarrado, eu teria puxado o braço na hora, mas a mão que tocou meu pulso era tão macia, quase hesitante.

“Eu queria fazer você esquecer esse dia de merda”, ele disse com um sorrisinho nos lábios cheios e rosados que mexeu com o meu estômago.

“Eu devia ir pra casa.” Aí eu me lembrei de que eu não tinha mais uma. Eu ficaria com a casa enquanto o Ethan se mudava pro casarão do Alfa com a Olivia?

Eu ergui o olhar praqueles olhos verdes e dei de ombros. “Eu não tenho pra onde ir.”

“Isso não é verdade”, ele disse, com significado.

“Você não está facilitando”, eu reclamei.

“Ótimo.” Ele olhou pra minha mão sem anel. “Você aceitou a traição deles. Por que rejeitar conforto, se eu posso te dar?”

Jovem demais pra mim ou não, ele tinha razão.

Dessa vez, eu o beijei.

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