Capítulo 5 A troca
Capítulo Cinco: A Troca
A propriedade dos Ainsworth estava silenciosa quando o comboio preto chegou.
Cinco veículos. Vidros escurecidos. Silenciosos. Estacionaram com precisão militar na entrada de cascalho. O ar mudou. Todo empregado que observava por trás das cortinas sabia exatamente quem tinha vindo.
Zayn Kingsley.
Só o nome já trazia tensão. Medo. Poder.
Gerard Ainsworth esperava nos degraus da entrada, vestido com um terno cinza e luvas pretas. O sorriso dele era fino. Controlado.
Quando Zayn saiu do primeiro carro, os homens atrás de Gerard se enrijeceram.
Zayn nem olhou para eles. Ergueu o olhar para a casa, a expressão indecifrável. Um guarda jovem abriu a porta para ele, e Zayn entrou sem dizer uma palavra.
Dentro da sala de estar, Gerard aguardava.
As portas se fecharam.
Zayn se sentou na poltrona de frente para ele. Sem aperto de mão. Sem cortesia.
— Agradeço por ter vindo — disse Gerard.
— Eu não vim pra gentilezas. — A voz de Zayn era calma. — Eu vim por aquele que machucou a minha irmã.
— Claro. E você vai tê-lo. Mas me permita explicar as circunstâncias.
Zayn recostou, os braços cruzados.
Gerard se inclinou para a frente.
— Não foi um ataque. Não foi planejado. O garoto pegou o carro sem permissão. Ele é... problemático. Isolado. Tem questões, e, infelizmente, o comportamento dele envergonha a minha família há anos.
Zayn não disse nada.
— Ele é meu primogênito — continuou Gerard. — Lucien. Nasceu primeiro, mas fraco demais para ser digno do nome da família. Eu o mandei embora quando era jovem. Quando Cassian nasceu, eu foquei no filho que demonstrou potencial.
— Então esse... Lucien — disse Zayn, devagar — é quem pegou o carro.
— Sim. Sozinho. Ninguém sabia. Cassian descobriu tarde demais.
O maxilar de Zayn se contraiu.
— E onde está esse seu filho agora?
— Trancado. Ele não tem permissão para sair dos aposentos. Ele... está envergonhado.
— Eu quero vê-lo.
Gerard hesitou.
— Claro. Mas eu preciso perguntar — não como defesa — e sim como pai... Selene vai se recuperar?
— Ela talvez nunca volte a andar. — As palavras de Zayn cortaram o ar. — E seu filho talvez também não. Dependendo do que eu decidir.
Gerard não piscou.
— Então eu o entrego a você. Vou assinar a transferência. Ele é seu. Ele não vai falar em nome desta família nunca mais.
— Você está me dando o seu filho.
— Eu estou te dando um problema. Um erro. Faça com ele o que achar melhor. Mantenha-o trancado. Mate-o. Use-o. Eu não me importo.
Zayn se levantou.
— Fechado.
No andar de cima, Lucien estava sentado na beira da cama.
A bandeja do café da manhã continuava intacta.
Ele não tinha visto Cassian.
A criada que normalmente entrava sem fazer barulho não apareceu.
Mas ele sabia que tinha algo errado. Ele sentia.
Passos.
Então a porta foi destrancada.
Dois guardas entraram.
— Em pé.
Lucien se levantou devagar. — Para onde vocês vão me levar?
— Não fale.
Eles agarraram os braços dele e o conduziram pelo corredor. Ninguém o encarou. Passaram pela escadaria, passaram pela biblioteca e desceram até o pátio dos fundos.
Os carros já estavam esperando.
Ele foi empurrado para o banco de trás do terceiro veículo.
A porta bateu.
Zayn Kingsley estava sentado à frente dele.
Lucien travou.
Zayn não falou. Não piscou. Apenas encarou.
Lucien abaixou a cabeça.
O motor ligou.
E, assim, os portões da propriedade Ainsworth se fecharam atrás dele.
O passado tinha ficado para trás.
O futuro, ninguém sabia.
~~~~~
O saguão do aeroporto estava silencioso àquela hora da manhã. Uma luz pálida atravessava as grandes janelas de vidro, projetando sombras compridas no piso polido. Cassian estava no Portão 7 com o casaco dobrado no braço, passaporte na mão, observando o painel piscar “NO HORÁRIO”.
O coração dele parecia mais pesado do que a bagagem.
Ele não tinha dormido. Não tinha comido. Tudo desde o acidente tinha se misturado num borrão, mas aquilo — aquele momento — era nítido. Era definitivo.
— Chamada final para o voo 228 com destino a Zurique.
Cassian fechou os olhos.
Ele se lembrou da expressão no rosto de Lucien naquela noite no salão de festas. Do jeito quieto com que ele assentiu quando mandaram que sumisse. Do peso que ele carregava e que nunca foi dele. E agora ele tinha ficado para trás naquela casa, com um pai que nunca o enxergou como filho.
Cassian virou um pouco e olhou para o guarda que o acompanhara desde a propriedade. O homem estava rígido, em silêncio, ali para garantir que ele embarcasse. Sem desvios. Sem despedidas.
O celular de Cassian vibrou.
Uma nova mensagem.
De: Desconhecido
Assunto: Entregue
“A nota está embaixo do caderno dele. Eu garanti.”
Cassian não respondeu. Só ficou encarando a tela até a mensagem se perder no meio de outras dezenas que não importavam.
Ele apertou mais o celular na mão e soltou um fôlego que tremeu um pouco mais do que ele esperava.
Então, devagar, ele se virou na direção do portão de embarque.
Pouco antes de passar, olhou por cima do ombro mais uma vez. Como se talvez Lucien fosse aparecer correndo. Como se talvez existisse um motivo para ficar.
Não existia.
Ele seguiu em frente. O portão o engoliu.
Quando o avião decolou, Cassian Ainsworth já tinha desaparecido.
