O GAROTO QUE PODIA GERAR UM HERDEIRO

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Capítulo 3 A chama não convidada

Capítulo Três: A Chama Indesejada

O sol já começava a descer devagar por trás das colinas quando as governantas passaram a acender velas ao redor do salão de baile. As arandelas douradas cintilavam nas paredes, arranjos altos de lírios e rosas azuis enfeitavam cada mesa comprida, e um quarteto de cordas impecável ensaiava baixinho num canto.

Lucien ficou logo além das portas duplas, vestindo um colete preto que um dia tinha sido de Cassian. Ficava um pouco folgado nos ombros, e as mangas coçavam, mas era a única peça decente que não tinham trancado longe dele.

Ele não pertencia àquele lugar. Não no meio de convidados chegando em carros luxuosos e vestidos cintilantes. Não numa festa dada por um homem que não conseguia dizer o nome dele sem veneno na voz. E, ainda assim — lá estava ele. Só mais uma sombra no canto de uma celebração grandiosa.

Ele viu Cassian receber os convidados com o charme de sempre, se movendo com naturalidade pela multidão. Cassian parecia, em todos os detalhes, o herdeiro perfeito, exibindo o sorriso que o pai deles adorava. Logo atrás, Selene Kingsley caminhava com graça; o vestido verde-escuro abraçava suas curvas, e o cabelo preto, comprido, caía num ondulado brilhante sobre um ombro.

Lucien só a tinha visto uma vez antes. De longe. Mas agora, de perto, dava para entender por que Cassian tinha se rendido. Havia um fogo silencioso no olhar dela — daquele tipo que não precisa arder alto para ser perigoso. Existia elegância na forma como Selene cumprimentava as pessoas com um aceno, e em como mantinha o braço enlaçado ao de Cassian como se pertencesse ali.

O pai deles estava perto da escadaria principal, assentindo para investidores e falando baixo com vereadores e figuras importantes da política local. Ele parecia orgulhoso. Satisfeito. Mais vivo do que Lucien o via havia anos.

Por causa dela.

Por causa dos Kingsley.

Lucien ergueu os olhos para o lustre. Por um instante, se perguntou se aquilo tudo não ia desabar — a ilusão, a ganância, as mentiras. Mas não desabou. Ainda não.

Mais cedo, naquela mesma manhã, a casa tinha acordado carregada de tensão. Lucien esfregava o chão do hall de entrada quando ouviu, sem querer.

“Ela vem hoje à noite”, disse Gerard para um dos assessores, andando de um lado para o outro no escritório.

“A garota Kingsley?”, perguntou o homem.

Gerard abriu um sorriso. “Selene. Irmã do próprio Zayn Kingsley. Você faz ideia do que isso significa para o nome da nossa família?”

“Uma aliança?”

“Um futuro”, disse Gerard, com os olhos brilhando. “Cassian traz ela pra dentro, e vira o centro da nossa expansão. Os Kingsley vão ficar nos devendo alguma coisa. Um filho entre os dois poderia garantir —”

Depois disso, Lucien parou de ouvir. Ele apertou o pano com mais força entre os dedos.

Para o pai, Selene não era uma pessoa. Era uma conexão. Um prêmio. Mais um nome para acrescentar ao legado dos Ainsworth.

E Cassian — será que ele sabia?


Agora, horas depois, Lucien circulava pela borda do salão. Reabastecia taças de vinho, ajeitava toalhas de mesa e passava por trás dos garçons sem chamar atenção. Aquele era o papel dele. O gêmeo fantasma.

“Lucien.”

Ele se virou, sobressaltado.

Cassian estava diante dele, segurando duas taças de vinho. Entregou uma a Lucien.

“Você não devia estar trabalhando hoje”, disse Cassian. “Devia estar descansando.”

Lucien olhou ao redor, nervoso. “Se o Pai vir—”

“Ele está ocupado”, disse Cassian. “Não se preocupa. Só… respira. Curte a música por um minuto.”

Os dois se encostaram numa coluna próxima, observando a multidão.

“Ela é linda”, disse Lucien, baixinho.

Cassian sorriu. “Ela é.”

“Você ama mesmo ela.”

“Amo.”

“E o Pai?”

O sorriso de Cassian se apagou. “Ele quer uma Kingsley à nossa mesa. Pra ele, tanto faz qual de nós vai trazer ela.”

Lucien encarou o irmão. “E você, o que você quer?”

Cassian deu um gole no vinho. “Eu quero que ela esteja segura. Quero que ela sinta que pode confiar em mim. Mesmo que todo o resto pegue fogo.”

O olhar de Lucien caiu para o chão. Ele sabia como era ver tudo pegar fogo.

Cassian cutucou o irmão de leve. “Vai lá pra cima. Faz uma pausa. Eu dou conta do resto da noite.”

Lucien hesitou, depois assentiu. Saiu do salão em silêncio, deixando para trás o barulho, a música, a ilusão.

De volta ao quarto, sentou-se junto à janela e viu a noite se adensar. Segurou a corrente prateada no pescoço e fechou os olhos.

Pela primeira vez, desejou que nada mudasse.

Mas mudaria.

Tudo mudaria.

O céu ainda estava limpo naquela noite. Sem presságio. Sem lua vermelha. Só estrelas, espalhadas como poeira num céu de veludo.

Lucien saiu do quarto quando o corredor já estava vazio. Ele não gostava de ser visto com as roupas do irmão, ainda mais pelas pessoas que cochichavam e apontavam pelas costas dele. Mas Cassian tinha dito para ele descansar, e o barulho da festa estava lhe dando dor de cabeça. Pensou que talvez pudesse dar uma volta atrás do jardim ou visitar a estufa, onde a velha cozinheira costumava plantar manjericão antes de ser mandada embora.

Ele desceu pela escada dos fundos, aquela que os empregados usavam, mantendo a cabeça baixa. Mas, na metade do caminho, vozes subiram até ele. Vozes familiares.

— Você não devia andar sozinha.

Cassian.

Lucien parou.

— Eu sei me cuidar — respondeu Selene.

— Mesmo assim... pelo menos deixa eu pegar o carro.

Lucien ouviu os passos deles lá embaixo, seguidos de um leve arrastar. Curioso, ele se inclinou sobre o corrimão — só o bastante para ver Cassian oferecendo o paletó a Selene. Ela olhou para ele com algo entre diversão e carinho.

— Eu só preciso respirar um pouco — disse ela. — A sua casa é meio sufocante.

— Você tinha que ver quando não tem festa.

Ela riu baixo.

Cassian olhou ao redor e abaixou a voz.

— Não vai muito longe. O pai não quer você por aí.

— Seu pai não manda em mim — disse ela, calma. — E eu não vou demorar.

Lucien recuou para as sombras. Não queria ser pego bisbilhotando, mas também não queria passar por eles.

Alguns segundos depois, ele ouviu a porta lateral ranger ao abrir e fechar. Em seguida, os passos de Cassian ecoaram escada acima.

Lucien tentou se virar e voltar para o quarto, mas Cassian o viu.

— Ei.

Ele parou.

— Você tá bem?

Lucien assentiu.

— Só precisava de ar.

Cassian se aproximou e colocou na mão dele uma chave pequena.

— Eu deixei um caderno novo na gaveta da sua escrivaninha. Caso você tenha vontade de escrever de novo.

Lucien pegou a chave.

— Obrigado.

Cassian sorriu, cansado, mas sincero.

— Vou descer de novo. Você devia descansar um pouco.

Ele foi embora sem esperar resposta.

Lucien voltou para o quarto, deixou a chave no criado-mudo e se sentou na cama. Esfregou os próprios braços, inquieto.

Tinha alguma coisa errada.

Ele não sabia o quê, mas o ar tinha mudado.


O grito rasgou o silêncio.

Veio de fora. Agudo. Repentino. E então o chiado de pneus.

Lucien se levantou num salto e correu até a janela.

Lá embaixo, na entrada em curva sob a grande escadaria da mansão, um carro preto e elegante tinha se chocado contra um dos pilares de mármore. Fumaça se enroscava para fora do capô. Cacos de vidro brilhavam sobre a pedra.

Um corpo estava sendo puxado para fora da batida.

Selene.

Lucien não pensou. Ele correu.

Pelo corredor, escada abaixo, passando por empregados confusos e seguranças alarmados. Empurrou as portas laterais e disparou pelo gramado, com os pés afundando um pouco na grama.

Cassian já estava lá, agachado ao lado dela. Sangue manchava a têmpora de Selene. A perna dela estava dobrada de um jeito errado. Ela não estava consciente.

— Chamem uma ambulância! — Cassian gritou.

Um segurança falou rápido no rádio.

Lucien ficou paralisado.

Então Gerard apareceu.

— Que porra foi essa?

Alguns segundos de silêncio. Aí um funcionário disse:

— Ela pegou o carro. Sozinha. Ninguém sabia.

Cassian se levantou, respirando com dificuldade.

— Ela só queria tomar um ar. Eu ia dirigir pra ela, mas ela disse—

— Ela é irmã do Zayn Kingsley! — Gerard berrou. — Você entende o que você fez?!

Lucien abriu a boca, mas antes que pudesse falar, Gerard se virou devagar na direção dele.

— Você — disse ele. Frio. Calculista.

Lucien piscou.

— O quê?

Gerard deu um passo mais perto.

— Você estava lá em cima. Te viram. Perto do carro. Perto dela.

— Não, eu—

— Você quer todo mundo morto? — Gerard sibilou. — Você quer que os Kingsley tragam uma guerra pra nossa porta?

Cassian olhou de um para o outro.

— Pai, para. Ele não teve nada a ver com isso.

Gerard o ignorou.

— Lucien vai dizer que pegou o carro. Que assustou ela. Que foi culpa dele.

Lucien sentiu aquelas palavras baterem como gelo.

— Não — disse Cassian.

Gerard se virou para ele.

— Você acha que eles vão te perdoar? Você é o herdeiro. A cara pública. Se eles acharem que você colocou a irmã do Zayn Kingsley em perigo, não vai ser só a nossa reputação — vai ser a nossa vida.

Cassian hesitou.

Lucien olhou para o irmão. Depois para Selene, pálida e quebrada sobre a pedra.

E ele entendeu.

Gerard não precisava de um bode expiatório.

Ele sempre soube quem seria.

Lucien abaixou os olhos.

— Eu peguei o carro — sussurrou.

A voz de Cassian falhou.

— Lucien, não.

Mas já estava feito.

Gerard se virou para os seguranças.

— Garantam que a história fique limpa. Nada de vazamento.

A ambulância chegou instantes depois.

Lucien permaneceu imóvel, invisível de novo.

Só que, desta vez, ele tinha realmente desaparecido.

Para dentro da história que viraria sua prisão.

Para dentro da mentira que definiria o seu destino.

E, bem longe, nos cantos escuros da cidade, um nome começou a se mexer.

Zayn Kingsley...

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