O Executor

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3. O BEIJO DO DIABO

SELINE

Um toque não deveria queimar a pele. Não deveria fazer o coração tropeçar, o ar prender. NÃO.

Firme. Quente. Possessivo. Eu estou ao menos sã? Porque essa é a única palavra que encaixa no jeito que aquilo caiu em mim: errado e, ao mesmo tempo, absurdamente certo. Não era pra ser assim. Eu deveria estar me afogando em ódio.

O toque dele deveria ser como ele. Frio e... ah... espera... alguém está atacando a gente.

Porra, ótimo.

Olhei ao redor quando mais três carros se aproximaram devagar da gente.

Eles estão atrás de quem? De mim ou dele?

Tenho certeza de que ele tem muitos inimigos.

Eu também tenho.

Eles só não sabem que são meus inimigos até eu cortar a garganta deles.

— Abaixa — avisou Kade, a voz lisa e reta como uma lâmina.

Olhei pra minha mão na dele e, por instinto, puxei a manga preta que ele usava. Ele me encarou como se eu tivesse perguntado alguma idiotice, como se a ordem fosse óbvia. Talvez fosse. Eu não lido bem com ordens. Eu só aceito as minhas — de mim mesma.

Tentei sustentar o olhar dele, nos ancorar naquele aperto, mas ele arrancou a mão como se tivesse se queimado. O movimento foi repentino, duro, um recuo quase culpado.

Ele ficou parado demais para um homem que estava sendo atacado.

Eu, por outro lado...

Eu também sou silenciosa.

Só que, diferente da garota dócil e muda que eu inventei, eu gosto do arrepio de ser caçada.

O celular de Kade vibrou. A voz de Dante veio do outro lado, fina de pânico. — Fomos atingidos — ele disse. — Eu fui ao porto checar o carregamento. Era pra ser cocaína. Tem garotas. Kade, você precisa vir pra cá.

Kade não respondeu na hora. Depois: — Aquele desgraçado do Luca... — ele praguejou, baixo. — Dante, fica aí. Aqui também estão atacando a gente. O Luca está nos desviando. Ele armou isso pra me tirar de perto do carregamento. Eu vou chegar aí logo.

— Você foi atacado? A Seline também estava aí. Como ele pode— — A voz de Dante morreu numa pergunta engasgada.

Kade encerrou a ligação e me olhou. O rosto dele era ilegível: uma linha entre raiva, triunfo e algo parecido com pena. Eu não sabia dizer o que era.

Nem queria.

As mãos de Kade viraram o pulso do carro quando ele cortou entre os veículos que se fechavam, metal guinchando quando um deles raspou no nosso para-choque.

A gente disparou pela via do porto num rastro de ar salgado e luz amarela dos postes, guindastes e contêineres passando em flashes.

Ele desligou o motor, jogou a jaqueta quente dele sobre os meus ombros e, com um “Fica” baixo, sumiu nas sombras como se pertencesse a elas.

Tá, por que diabos ele me deu a jaqueta dele?

Eu não estou com frio, nem com medo, nem sem jaquetas. Eu tenho uma.

Saí do carro, a jaqueta dele ainda pesada nos meus ombros, e fui atrás dele, leve, entre pilhas enormes de contêineres.

Ele não virou. Só murmurou por cima do ombro, baixo e cortante:

— Seline, volta pro carro. Agora.

Antes que eu respondesse, um soluço fino, rachado, flutuou pelo labirinto de metal. O choro apavorado de uma garota rasgou a noite.

Kade congelou. Ergueu a cabeça, os olhos se estreitando quando outro gemido abafado ecoou.

— Luca — ele soltou, a voz como uma lâmina. — Aquele bastardo quebrou o código.

Essas pessoas são realeza da máfia. Duvido que elas tenham códigos.

Olhando pro meu futuro primo por afinidade, eu percebi que tinham, sim — e que meu noivo quebrou isso.

Mas Luca era um subchefe. Ele vai herdar o trono do Kai, pai do Kade.

Kade é só um executor.

Se ele for um filho legítimo, talvez... só talvez... fosse ele que eu acabaria casando.

Graças a Deus, não era. Meus planos teriam se desfeito com aquele casamento como açúcar na chuva.

Dante surgiu da escuridão como uma explosão, a voz seca, encaixando as peças: Luca vinha traficando meninas em desafio direto às ordens de Don Kai — um ato de motim.

O problema era a prova. Eles ainda não conseguiam ligar a culpa ao nome de Luca.

Quando o caos baixou e as meninas foram levadas embora, Kade atravessou o pátio com a certeza lenta de um predador. Ele parou a um palmo de mim; nossas roupas quase se tocaram. Quase.

“Este é o homem com quem você pretende se casar”, ele disse, baixo o bastante para só eu ouvir. “Ele vende mulheres e crianças. E você ainda quer ficar?”

Se eu dissesse não, eu sairia de cena, sairia do mundo dele — e era exatamente isso que ele queria.

Se eu dissesse sim, ele cavaria. Desenterraria a vida que eu enterrei.

Se ele descobrisse quem eu realmente era, ele transformaria minha vida num inferno — se é que já não tinha começado.

Porque ela está morta.

Eu estou viva.

Eu não sou ela.

Então eu fiz a única coisa que falava uma língua que ele entenderia. Ergui o queixo e mostrei o dedo do meio.

Ele reagiu como uma lâmina. Num movimento rápido, agarrou minha mão e a torceu para trás, prendendo-a nas minhas costas.

Quando eu empurrei com a mão livre, ele a pegou com a mesma facilidade, o mesmo controle.

Reflexos.

Minha respiração falhou; meu peito bateu no dele. Nossos rostos ficaram a um sussurro de distância. Senti o calor do hálito dele no meu nariz e, por um instante, o mundo se estreitou até a proximidade cortante, impossível, dele.

O olhar de Kade desceu dos meus olhos para a minha boca, só por um segundo, e então voltou ao meu rosto.

Olhos cor de mel, mais escuros na borda, pegaram a luz dura do porto e ficaram líquidos. Uma cicatriz fina cortava da sobrancelha esquerda até a beirada da maçã do rosto, um talho pálido que deveria tê-lo estragado, mas só o deixava mais afiado. O olho que ela atravessava estava intacto, atento, vivo.

A mandíbula dele era uma linha limpa e dura, daquelas que falam de dentes cerrados e paciência perigosa. O cabelo preto, grosso e um pouco indomável, tinha o mesmo tom do meu.

Ele cheirava a maresia e a algo mais escuro: couro, a ardência leve de uísque.

O mundo ao nosso redor encolheu até virar respiração e batimento. Os dedos dele apertaram de leve meus pulsos — não o bastante para doer, só o bastante para me lembrar de que ele podia.

“Ainda tem certeza”, ele murmurou, a voz rouca, baixa, roçando o espaço entre nós, “de que quer se casar com ele?”

Cada palavra vibrou dentro de mim, um desafio e um aviso. Eu devia ter recuado. Em vez disso, encarei aqueles olhos cor de mel e sustentei, porque dar um passo para trás parecia a única coisa que eu não podia fazer.

O uivo repentino de sirenes rasgou a noite, agudo o bastante para fazer meus dentes tremerem.

Antes que eu conseguisse me soltar, Kade fechou o último centímetro entre nós e esmagou a boca dele na minha.

Por um segundo atordoado, eu fiquei rígida, a respiração presa, me recusando a ceder.

Não era um beijo; era uma ordem, um diabo marcando território.

Então o clarão vermelho se derramou sobre nós, se aproximando.

Instinto, sobrevivência e alguma coisa primal atravessaram meu corpo.

Eu soltei o ar, fechei os olhos e me deixei inclinar até que nossas bocas se encontrassem de verdade.

O calor veio com força, duro e implacável.

Os lábios dele estavam quentes, ásperos, com um leve gosto de uísque — o arranhão do controle e do perigo.

Quando ele finalmente se afastou, as sirenes já estavam praticamente em cima de nós, e os olhos dele, escuros como mel, ardiam com a promessa de que aquilo estava longe de ter acabado.

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