Ele disse não?
Meus olhos se chocaram com os olhos azuis mais frios e intensos que eu já tinha visto. O olhar dele era afiado, gelado e profundamente calculista, como se já estivesse dissecando tudo sobre mim sem precisar de permissão. Não havia nada de suave ou acolhedor na expressão dele. O maxilar era rígido e bem marcado, quase perfeito de um jeito antinatural, combinando com a precisão de tudo nele. O terno parecia caro num nível absurdo, alinhado e passado à perfeição, sem um único vinco fora do lugar. Até o cabelo escuro estava impecavelmente arrumado, sem um fio sequer fora do lugar, como se o próprio caos evitasse chegar perto dele.
A presença dele preenchia a sala de um jeito que parecia mais pesado do que o ar e, pela primeira vez, eu aceitei um pensamento que vinha evitando. Eu nunca tinha ficado diante de alguém com esse nível de controle e carisma, e essa constatação fez alguma coisa em mim hesitar diante de aceitar esse acordo.
— Você está encarando há tempo demais. Acho isso falta de educação — a voz dele cortou o silêncio, fria e precisa, sem calor nenhum.
Eu não tinha a intenção de encarar, mas ele não era nem de longe o que eu tinha imaginado. — Peço desculpas, mas é prudente que eu olhe para o homem que eu deveria vestir.
— É bastante lamentável que não vai haver necessidade disso — disse ele, seco, antes de desviar os olhos para a Srta. Emily. Ele balançou a cabeça uma vez, devagar e com desdém. — Eu não aprovo ela. Tenho certeza de que você consegue coisa melhor.
— Como é?
— Sr... Sr. Roberto — começou a Srta. Emily, nervosa, com a voz ficando tensa. — Ela é uma designer de ponta...
— Eu disse que você consegue coisa melhor. E ponto final.
— Com licença, eu estou bem aqui — rebati, com o tom ficando mais cortante.
— Eu sei muito bem disso — respondeu ele, sem nem olhar para mim direito.
— E daí? Como você pode me menosprezar na minha frente?
— Você acabou de ver — disse ele, calmo. — Eu não considero você adequada para ser minha stylist.
— Então por que você me procurou e com base em que critério está julgando meu trabalho? — perguntei, apoiando as duas mãos com firmeza na mesa à minha frente.
— Primeiro, eu não procurei você. Eu deleguei essa tarefa à minha secretária, e ela obviamente falhou. Segundo, eu não devo explicação nenhuma a você.
— Infelizmente, deve sim — devolvi na hora. — Ah, deve, sim, porque você e a sua secretária desperdiçaram o meu precioso tempo com esse contrato. Eu cancelei reuniões e eu deveria estar com um cliente agora, mas estou aqui. Então não me diga que esse contrato não vai acontecer.
Ele me lançou um olhar frio, indecifrável. — Não é culpa minha se você parece desesperada.
— Lamento informar que o desesperado aqui é você.
A atmosfera na sala ficou mais pesada, mais fria, como se o próprio ar tivesse se contraído. Ninguém interveio. Ninguém sequer respirou alto. Era só eu e ele, presos numa guerra silenciosa de controle.
Pela primeira vez desde que eu o conheci, a atitude displicente dele mudou. Ele finalmente me deu atenção de verdade, como se eu tivesse acabado de me tornar um pouco mais interessante do que um incômodo passageiro.
Ele enfiou as mãos nos bolsos. — E o que levou você a essa conclusão? Eu gostaria de informar que Luciano Roberto não está desesperado pelos serviços de ninguém.
Inclinei levemente a cabeça e pigarreei. — Bom, essa não foi a impressão que a sua secretária me passou. A senhorita Emily apareceu na minha empresa depois do expediente e exigiu uma reunião. Sem horário marcado, sem e-mail, sem convite. Ela insistiu que era urgente e que não podia esperar. Eu tinha outros compromissos e só aceitei porque a minha assistente pessoal disse que era importante.
O senhor Roberto virou o rosto devagar na direção da senhorita Emily, que desviou o olhar na hora. Ele voltou a olhar para mim e soltou o ar pelo nariz.
— Isso está longe de ser desespero — ele disse.
— Então, quando finalmente eu a atendi, ela praticamente implorou para eu aceitar o trabalho — continuei. — Se vocês não estão desesperados, por que oferecer um contrato de dez milhões de dólares por apenas um ano? Eu não a culpo. Se é assim que o senhor trata todo stylist que encontra, trabalhar para o senhor seria um pesadelo.
— E, mesmo assim, aqui está você, brigando para entrar no contrato — ele retrucou, frio.
— Porque eu não desisto e eu gosto de desafios. O senhor desafiou a minha profissão e insinuou que eu não era boa o suficiente. Eu adoraria ver o senhor perceber o quanto está errado. E eu já perdi tempo demais e cancelei reuniões demais. Eu tive prejuízo, então não vou voltar à estaca zero. Esse acordo vai acontecer. Agora.
Mantive o tom controlado, profissional, mas havia algo mais fundo por baixo disso. Eu precisava daquilo mais do que deixava transparecer.
Eu precisava desse contrato.
Mesmo que isso significasse trabalhar sob um homem como ele.
Não era só negócio. Eu precisava de uma desculpa. Eu precisava de distância. Eu precisava de algo concreto para apresentar à Lilian e ao Greg, para que eles parassem de questionar meu tempo e meus passos. No fundo, eu só precisava de espaço de tudo. Eu não entendia completamente o porquê, mas eu precisava que esse contrato de um ano acontecesse.
O senhor Roberto bateu duas vezes na mesa, lento e deliberado, antes de se voltar para a senhorita Emily.
— Eu não mudei de ideia. Vamos embora.
— Desculpe, mas nós... nós não podemos, senhor — ela disse depressa.
Ele franziu a testa. — E por quê? O que faz você dizer isso?
— Senhor... a coleção da senhorita Roberto sai daqui a uma semana — ela explicou, aflita. — A gente já está sem tempo para styling e divulgação. Se a gente não fechar um contrato agora, eu não sei se vamos encontrar outro stylist competente até lá e, mesmo que encontremos, vai ser tarde demais.
— Você trabalha para uma das maiores empresas do país — ele respondeu, gelado. — Como alguma coisa pode ser tarde demais?
— O senhor não entende — ela insistiu. — Quem for escolhido vai precisar das suas medidas e preferências antes que qualquer peça possa ser ajustada do jeito certo. Nós já estamos muito atrasados no cronograma.
— Existem milhares de stylists nesta cidade.
— Mas eu não acho que exista alguém mais capaz do que ela — a senhorita Emily disse rápido, apontando para mim. — Ela tem avaliações excelentes, e eu já vi o trabalho dela. Eu acredito que ela é a melhor opção. Se a gente não assinar agora, a coleção da senhorita Roberto pode—
— Certo. Tá bom — ele interrompeu, seco. — Mas você vai me ver no meu escritório quando a gente voltar, e vai ter muita explicação para me dar.
Lutei para conter o sorriso, mantendo a expressão neutra com dificuldade. Eu mal conseguia acreditar que tinha acabado de garantir um contrato com aquele homem. Aquilo era uma grande vitória para a minha empresa, e eu estava pronta para correr o risco.
Nossos olhares se encontraram de novo, e a sala ficou imóvel entre nós.
Ele resmungou entre dentes, baixo o bastante para eu ouvir.
— É melhor que essa porra valha a pena.
