Conhecendo ele...
— Bom dia, doutora. Estou animadíssima.
A voz da Clara ecoou no instante em que eu entrei no escritório. Na hora, franzi a testa para ela.
— E o que exatamente está te deixando tão animada? Até onde eu sei, você já fez aniversário este ano.
Me joguei na cadeira, larguei a bolsa e liguei um dos meus notebooks, abrindo a agenda do dia.
Clara soltou um suspiro dramático e se atirou na cadeira à minha frente. O corpo dela bateu no couro com um baque alto, o som seco reverberando pelo escritório.
— Hm, peço desculpas por isso, doutora — disse, com a maior cara de pau. — Já me falaram que calça de couro deixa minha bunda meio dura, então faz barulho sempre que eu sento em couro. É tipo uma carga elétrica—
— Cala a boca, Clara.
Não consegui segurar a risada que me escapou.
— Isso é informação demais, e eu não tenho o menor interesse no que a sua bunda faz quando ela tromba com cadeiras de couro.
Ela sorriu, sem graça.
— Foi mal, doutora. Eu fico tagarela quando estou animada.
Os olhos dela voltaram a brilhar.
— Isso me lembra. O motivo de eu estar animada não é meu aniversário, como você falou. É algo muito melhor. Você esqueceu?
Ela enfiou a mão na bolsa e tirou o iPod.
— A gente tem um contrato de dez milhões de dólares pra assinar hoje.
Fez uma pausa dramática e se corrigiu:
— Quer dizer, você tem um contrato de dez milhões de dólares pra assinar hoje.
Levantei os olhos do notebook.
— Certo. Mas só se eu decidir assinar.
O queixo dela caiu.
— Você está pensando nisso? Você está mesmo em dúvida sobre assinar um contrato de dez milhões de dólares? Sério, quem é que faz uma coisa dessas?
Revirei os olhos para o drama dela e parei de digitar para dar atenção total.
— O fato de ser dez milhões de dólares não transforma automaticamente isso numa boa decisão, Clara. Dinheiro não é motivo pra alguém ficar burra de repente.
Me recostei na cadeira.
— Eu tenho que pensar direito. Eu vou estar assinando um contrato.
— Um contrato? — ela repetiu. — O que tem de tão sério nisso? É só por um ano, e você é excelente no que faz. Sinceramente, isso parece moleza pra você. Eu não entendo por que você está tão hesitante.
Uma risada seca escapou dos meus lábios.
— Eu estou hesitante porque vou me comprometer a dar atenção total a alguém por um ano inteiro. Um ano inteiro, Clara.
Cruzei os braços.
— Isso é muita coisa. Pelo cronograma que eles mandaram, pode ter dias em que eu vou estar com ele todos os dias, e ainda tem cláusulas sugerindo que eu talvez tenha que passar a noite na casa dele, dependendo das demandas do trabalho.
Os olhos dela se arregalaram.
— Pera. Eles já mandaram o contrato? Eu achei que eles iam trazer hoje.
— Vão trazer.
Tamborilei os dedos de leve na mesa.
— O que mandaram foi uma cópia de exemplo por e-mail. Eles queriam que eu analisasse antes, pra assinatura do oficial hoje ser mais rápida.
Suspirei.
— A Emily comentou alguma coisa sobre o chefe dela ser extremamente ocupado e impaciente.
Parei, ainda irritada com a lembrança do documento.
— Mesmo assim, eu vou conferir a versão final que eles trouxerem hoje, só pra garantir que incluíram as alterações que eu devolvi.
Clara se inclinou para a frente na hora.
— Alterações? O que exatamente tinha lá? Me conta tudo. Isso está ficando interessante de verdade.
Endireitei a postura e soltei o ar.
— Aquela gente é genuinamente maluca.
O sorriso dela aumentou.
— Imagina as coisas que eles tiveram coragem de colocar. O chefe deles parece uma máquina que exige tudo.
Peguei o rascunho impresso sobre a mesa e balancei levemente.
— O contrato literalmente diz que eu tenho que atender sempre que ele ligar. A qualquer hora.
Clara piscou.
“Diz aqui que eu não posso cancelar reuniões, mas ele pode desmarcar comigo quando bem entender. Ele tem o direito de me visitar quando quiser ou me ligar a qualquer hora, mas eu não tenho permissão pra fazer o mesmo.”
Balancei a cabeça, sem acreditar.
“Eu sabia que dez milhões de dólares não iam vir fácil, mas, caramba. Parece que eu tô assinando a minha vida.”
Soltei o ar devagar.
“Mas é só por um ano, né.”
Pelo menos era isso que eu ficava repetindo pra mim mesma.
“Um ano, e eu finalmente consigo terminar meu projeto.”
O rosto da Clara se iluminou.
“Então você tá considerando aceitar o acordo?”
Encarei ela.
“Foi isso, sinceramente, que você tirou de tudo o que eu acabei de dizer?”
Apertei os olhos.
“Foi isso que te chamou atenção?”
Ela deu de ombros, sem o menor pudor.
“Você vai responder a um bilionário rico, bonito e poderoso.”
Ela foi contando nos dedos.
“Um dos vinte bilionários mais jovens do mundo.”
O sorriso dela ficou malicioso.
“E é isso que te incomoda?”
Ela deu um gritinho contido.
“Você vai ficar em mansões e coberturas diferentes, viajar de jato particular e comer em vários cantos do mundo.”
Ela apertou o peito, dramática.
“Desculpa, mas sim, é exatamente nessa parte que eu vou escolher focar.”
Balancei a cabeça, meio divertida apesar de mim mesma.
“Você já tem dinheiro, Ana, mas mal sai da cidade — imagina então sair do país. Pelo menos isso vai te obrigar a finalmente ver o mundo.”
O sorriso dela se abriu ainda mais.
“Eu amei.”
Observei Clara por um instante.
“Você fala desse homem como se ele fosse algum tipo de celebridade.”
Me recostei na cadeira.
“Me mostra a foto dele.”
Uma pausa.
“E qual é exatamente o nome dele?”
Clara sorriu, começando a digitar rápido no celular, provavelmente procurando a imagem.
“Enquanto eu procuro a foto, o nome dele é Luciano Nicholas Roberto.”
Ela levantou o olhar, com um sorriso provocador.
“Um nome quente, né?”
Na minha cabeça, o nome deslizou fácil.
Luciano Nicholas Roberto.
Um nome de poder.
Um nome que soava caro, perigoso e impossível de ignorar.
“Tá, aqui está a foto.”
Ela estendeu o iPod pra mim.
Eu fui pegar, mas, antes que meus dedos tocassem a tela, alguém bateu na porta.
“Pode entrar”, eu disse, me levantando.
Um dos meus funcionários entrou.
“Eles já chegaram, senhora.”
Assenti uma vez.
Meu pulso acelerou.
Peguei meu bloco de anotações e a caneta.
“Vamos, Clara.”
Saímos do meu escritório e seguimos pelo corredor.
Quando cheguei à sala de reuniões, eu já sentia a tensão pressionando minha pele.
Parei um segundo do lado de fora e puxei um fôlego fundo antes de empurrar a porta.
“Bom dia, senhorita Fisher. Que prazer revê-la.”
Emily se levantou na hora, estendendo a mão.
Eu aceitei o aperto de mão e me sentei.
Então olhei em volta.
A primeira coisa que eu notei foi que a sala parecia diferente.
Mais pesada.
O próprio ar parecia mais escuro.
Dessa vez não eram só três homens de terno.
Eram dez.
Todos com ternos pretos impecáveis.
Todos de postura rígida.
Todos vigiando o ambiente com uma quietude inquietante.
Alguma coisa ali fez a nuca formigar.
Aquilo não era uma reunião comum com cliente.
“Onde está o seu chefe?”, perguntei.
Odeiei como minha voz saiu nervosa e impaciente ao mesmo tempo.
Emily sorriu.
“Ele já está aqui.”
Então a expressão dela mudou, ficando quase reverente.
“Olha. Ele chegou.”
Bem naquele instante, a porta se abriu de novo.
Todo instinto dentro de mim se aguçou.
Aos poucos, levantei os olhos.
Meu olhar subiu dos sapatos pretos, brilhando… pelas pernas longas e fortes, cobertas por um terno escuro perfeitamente ajustado… pelos ombros largos que pareciam dominar a sala inteira…
E então, por fim… eu olhei para o rosto dele.
