O estilista do Mafia Don

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À deriva...

— Como você está, querida? Faz tanto tempo que a gente não se vê.

A voz maternal de Lilian veio pelo telefone, suave e acolhedora, e de algum jeito acalmou a tempestade dentro de mim.

Já tinham se passado quase quarenta e oito horas desde a minha experiência infeliz no Dream Club.

Dizer que eu ainda estava assustada seria pouco.

Eu tinha tentado ao máximo empurrar aquilo para o fundo da cabeça, fingir que nada tinha acontecido, mas a verdade era muito mais feia do que isso. Toda vez que eu fechava os olhos, pedaços daquela noite voltavam a rastejar pelos meus pensamentos, como sombras que se recusavam a morrer.

Nada do que eu tinha feito até agora estava funcionando.

Por isso eu tinha ligado para Lilian.

Ela era a melhor pessoa para conversar quando minha mente ficava desse jeito.

Claro, eu não tinha a menor intenção de contar a ela o que tinha acontecido.

Ela ia entrar em pânico.

Pior: ia insistir para eu voltar pra casa imediatamente, e, agora, eu não tinha condições de lidar com isso.

— Sim, Lilian, faz uns dias — eu disse, forçando um sorriso nos lábios, mesmo ela não podendo ver. — Eu sinto muita falta de você e do Greg. Ia ser tão bom finalmente ver vocês dois de novo. Minha última visita foi tão rapidinha.

— Foi rapidinha mesmo — ela respondeu, com um leve tom de reclamação na voz. — Eu fiquei chocada quando o Tom me contou que você já tinha ido embora. Você nem ficou pro café da manhã.

Soltei um suspiro baixo.

— Você sabe como o meu trabalho é importante pra mim. Eu simplesmente não podia me dar ao luxo de me atrasar, e naquele dia eu já estava enrolada. Eu só...

— Ana, você é a chefe — Lilian me interrompeu. — Ninguém vai te punir por chegar alguns minutos atrasada no seu próprio trabalho. Além disso, você nem estava tão atrasada assim.

Eu conseguia ouvir a irritação na voz dela.

Essa era a Lilian.

Protetora até demais.

Ela sempre tinha sido assim comigo, sempre de olho, como se eu pudesse desaparecer no instante em que ela desviasse o olhar.

Eu sabia que vinha do amor.

— Eu sei, Lilian — eu disse, com carinho. — Mas eu não sou esse tipo de chefe. Você sabe o quanto eu levo a sério a minha ética de trabalho. É importante liderar pelo exemplo. Se eu mostrar disciplina, então meus funcionários não vão ter escolha a não ser fazer o mesmo.

Soltei um pequeno suspiro e suavizei o tom.

— Mas chega de trabalho. Eu estou morrendo de saudade da sua comida caseira maravilhosa. Só de pensar nela, já me dá água na boca.

Ela deu uma risadinha.

— Ai, meu Deus, agora você me deixa toda sem graça. Não tem nada como comida caseira, né? Por que você não vem pra cá hoje? Eu vou adorar fazer a sua comida favorita.

Fiquei em silêncio por um momento.

Era domingo.

Tecnicamente, eu estava livre. Mas a ideia de sair de casa fez alguma coisa dentro de mim se contrair.

Eu não estava com vontade de ir a lugar nenhum.

— Queria muito poder — eu disse, com cuidado —, mas hoje eu vou ter que recusar. Estou meio preguiçosa e também um pouco ocupada. Amanhã é dia de trabalho, e segunda-feira sempre é estressante, então eu preciso mesmo descansar. Eu vou aí amanhã.

Eu odiei a hesitação na minha voz.

Eu sabia que ela andava sentindo minha falta ultimamente, mas eu realmente não tinha escolha.

Eu não estava no estado de espírito certo para encarar nenhum dos dois.

Eles iam perceber na hora que tinha algo errado.

E a última coisa que eu queria era que eles soubessem.

Amanhã já ia ser estressante o suficiente.

Então caiu a ficha. A reunião. O acordo de dez milhões de dólares.

Eu tinha esquecido completamente disso.

Meu estômago gelou.

Eu devia dar uma resposta para eles amanhã.

“Você ainda não consegue vir hoje?” Lilian perguntou, com a voz mais baixa agora. “Você vive inventando desculpa ultimamente. Desde que você saiu da nossa casa, você tem ficado distante, pra dizer o mínimo. Aconteceu alguma coisa? Você está… se afastando da gente?”

Aquelas palavras me atingiram mais do que deveriam.

Eu me endireitei no sofá.

“Ah, Lilian, fala sério.”

Minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia.

“Como é que você consegue dizer uma coisa dessas? Você realmente acha que eu estou me afastando de vocês de propósito?”

A dor no meu peito virou irritação.

“Eu só estou ocupada, Lilian. Não é nada grave. Eu literalmente fui ao café faz nem dois dias, e eu mando mensagem para vocês dois todos os dias. Eu até passei aí na segunda passada e fiquei o dia inteiro. Eu faltei ao trabalho na terça de manhã só porque eu queria mais tempo com vocês dois.”

Eu fiz uma pausa, sentindo o peito subir e descer.

“Como é que você pode achar, de verdade, que eu estou me afastando? O que mais eu tenho que fazer pra provar que eu me importo?”

Eu estava genuinamente ofendida.

Eu amava Lilian e Greg profundamente.

Eu fazia questão de mandar pelo menos uma mensagem por dia.

Eu visitava os dois pelo menos três vezes por semana.

Eu mandava fotos.

Atualizações.

Áudios.

O que mais ela queria de mim?

Mesmo quando eu passava fins de semana inteiros com eles, no instante em que eu ia embora, ela reclamava que eu estava distante.

Às vezes, isso realmente me confundia.

Quanto de mim eu tinha que entregar até ser o suficiente?

A voz dela amaciou.

“Eu não quis dizer desse jeito, Ana. Mas você tem que me entender também. Não é fácil ficar longe de você. Eu só sinto sua falta, só isso. Me desculpa.”

A raiva dentro de mim diminuiu quase na hora.

“Você não precisa pedir desculpa”, eu disse baixinho. “Eu entendo que não é fácil pra você, e eu estou começando a entender melhor isso agora. Mas você também precisa entender que eu não posso estar por perto o tempo todo.”

Eu engoli em seco.

“Eu não quero que você fique me esperando e se decepcione toda vez. No fim, isso só me faz me sentir culpada.”

Minha voz ficou ainda mais suave.

“Desculpa, e eu me importo muito com você. Eu preciso que você se lembre sempre disso.”

Eu olhei a hora.

“Tá ficando tarde. Vai jantar e descansa. Boa noite.”

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, eu desliguei.

O apartamento mergulhou no silêncio.

Um silêncio pesado, quase sufocante.

Por horas, minha mente ficou indo e voltando entre pensamentos sobre Lilian e Greg e o contrato me esperando amanhã.

Dez milhões de dólares.

O número ecoava na minha cabeça como uma tentação. Eles tinham concordado que a minha empresa podia continuar pegando clientes e novas propostas, mas eu, pessoalmente, não tinha permissão para produzir mais ninguém.

O contrato estava ligado diretamente a mim. Só a mim.

Eu já era rica.

Confortavelmente rica.

Mas dez milhões de dólares não era algo que ninguém ignorava.

E, se o que Clara tinha dito fosse verdade — se aquele homem fosse realmente tão influente quanto todo mundo parecia insinuar — então uma boa avaliação dele podia levar a minha empresa a um patamar que eu só tinha imaginado.

Podia mudar tudo.

Eu me afundei no sofá, encarando a escuridão do meu apartamento.

As sombras no cômodo pareciam mais fundas hoje. Mais pesadas. Então estava decidido.

Amanhã, eu finalmente encontraria o homem disposto a me pagar dez milhões de dólares.

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