O erro de um irmão (Assassins Can Love Book 2)

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Prólogo

Piscar. Um. Dois. Três. Ele não conseguia evitar contar. Isso tornava mais fácil compreender que aquilo estava mesmo acontecendo.

Austin Cyner encarou os três corpos invadindo o espaço dele com apatia. Três pares de lábios, e nenhum deles se mantinha fechado. Ele se agarrou ao som da própria respiração, baixa e discreta. Na ausência de qualquer esforço, ela mal se distinguiria ao ouvido humano no meio dos sons naturais do mundo; para Austin, era tudo o que existia. Desde pequeno, ele dominara a arte de se desligar; uma habilidade que usaria mais vezes do que teria paciência de contar na vida adulta. As vozes ao redor foram se afastando até virarem só um sussurro abafado, como se viesse de outro plano.

A imagem dos pais frustrados e do filho teimoso diante dele oscilou, desfocando aos poucos, até que Austin conseguiu fingir que seu escritório voltara a ser um lugar intocado e silencioso — do jeito que ele preferia. E, ainda assim, ele sabia que o assunto grave da família estava destinado a se infiltrar no tempo dele, pouco importando que naquele mesmo mês já tivessem despejado em cima dele mais do que ele queria aguentar. Tempo era sempre o que mandava. Ele não tinha nenhum que quisesse desperdiçar.

Quanto mais ele repassava os fatos que tinha ouvido quando eles arrombaram a porta do seu escritório, mais atribuía aquela bagunça a um nível recorde de falta de noção. Era só deixar na mão do Colin e ele, com certeza, iria direto para o caos. Austin sabia que também carregava um pouco daquela energia caótica, mas aprendera a canalizar a dele para fazer algum bem. “Bem” estava longe de ser um sentimento objetivo. Austin sabia que havia muita gente que condenaria o trabalho da vida dele, mas era essa a graça da subjetividade e da filosofia de cada um.

Ele era livre para pensar, dizer e fazer o que quisesse, sem precisar moldar a própria mente à de outra pessoa.

Doía nele concluir, então, que Colin tinha exatamente esse mesmo direito de fazer o que bem entendia — como convinha a um homem de caráter tão detestável. Nenhuma conversa, sermão ou tortura mudaria a cabeça de Colin. Os pais dele não entendiam isso?

Austin esticou os dedos e os baixou para tamborilar, com descaso, uma melodia qualquer sobre sua mesa de madeira escura, em L, com acabamento envernizado. As notas que martelavam seus tímpanos trouxeram, atravessando a barreira invisível que ele erguera, o som das vozes da família em desacordo — uma intrusão indesejada nos pensamentos dele.

Ao que parecia, o irmão dele, o cabeça-dura que era, tinha engravidado uma mulher qualquer e, apesar da tentativa dos pais de convencê-lo — se é que aquela tentativa nojenta de súplica podia ser elevada ao ponto de persuasão — a se casar com ela, Colin se recusava repetidamente a assumir esse compromisso. Ele não pensava no escândalo que aquela notícia traria para a família. A mente dele estava decidida.

Decidida e sem um pingo de remorso.

Austin, por outro lado, não conseguia entender a necessidade de aquele dramalhão familiar acontecer na casa dele; Colin nunca tinha sequer pisado na rua dele antes. Austin achou curioso terem feito questão de colocá-lo atrás daqueles muros de tijolo por causa de uma briga de família.

Austin praguejou mentalmente a governanta, Abigail. As atitudes bem-intencionadas dela, muitas vezes, causavam mais transtorno do que ela estava disposta a admitir. Ele tinha deixado instruções rígidas para mandar embora qualquer um que aparecesse à sua porta; ela ouviu? Que nada. As palavras entraram por um ouvido e saíram voando pelo outro. Em vez disso, assim que os olhos dela reconheceram a família dele, ela abriu os portões de aço sem fazer uma única pergunta.

Pelo menos, ela teve inteligência suficiente para não entrar no escritório junto com eles. Ela conhecia o temperamento dele quando o desobedeciam. Apenas os foi conduzindo para dentro e seguiu o próprio caminho. Aquela mulher ainda ia ser a morte dele. Talvez estivesse na hora de fazê-la se aposentar.

— Austin, você não faria seu irmão enxergar a razão? — Austin voltou o olhar para o pai, com a linha de raciocínio interrompida mais uma vez. Austin sabia que não podia fazer Colin enxergar a razão, mas os olhos do pai suplicavam. Havia quinze minutos ele tentava, com calma, aconselhar o filho mais novo a fazer a coisa certa, e tudo o que recebia em troca eram gritos e palavrões. Ele já conhecia o desfecho e, mesmo assim, lutava para mudar o rumo.

As marcas no rosto do pai pareciam mais profundas do que Austin se lembrava. O tempo passava depressa e não perdoava ninguém.

Austin entreabriu os lábios para falar. Ele não tinha a menor intenção de se deixar puxar para aquilo. Já tinha se conformado em, com gentileza — tão gentil quanto ele conseguia fingir —, convidar a família a levar aquela briga para outro lugar. Como ele poderia convencer Colin de qualquer coisa? Era loucura da mãe e do pai acharem o contrário. Eles, mais do que ninguém, sabiam que as palavras de Austin não tinham peso nenhum para Colin, não tinham encanto algum.

— Irmão? — Colin repetiu a palavra com uma careta de ódio. Se pudesse destruir o significado dela, destruiria. Ele odiava ter um termo tão afetuoso o ligando ao homem que os observava por trás do seu trono blindado, como se fossem moscas insignificantes das quais ele nem se dava ao trabalho de se livrar.

O olhar ameaçador de Colin puxou toda a atenção de Austin para ele. Os dedos de Austin pararam o ataque distraído ao tampo da mesa. Os olhos de Austin desafiavam Colin a transformar em realidade, com a própria voz, os pensamentos ofensivos refletidos naqueles olhos de serpente.

— Ele não é nada pra mim além do bastardo que a minha mãe pôs no mundo antes de se casar com você. — Colin se recusou a se calar diante do olhar ameaçador de Austin, então falou com o pai. — Ele não passa do resultado de um comportamento irresponsável. — Ele cuspiu, com desdém, jogando a resposta em cima de um casal já atormentado.

Ele teve coragem? Austin conteve os lábios para não se dobrarem num sorriso. Colin tinha criado coragem, não tinha? Falar daquele jeito, insolente, dentro da casa de Austin exigia peito. Não que as palavras de Colin o ferissem. Mal arranhavam a superfície. O plano de Austin de permanecer totalmente alheio e indiferente foi por água abaixo. Por quê? O ego dele. Simples assim. Por que sair em silêncio quando ele podia dar ao querido irmão ainda mais motivo para espumar de raiva?

Era divertido provocar caos nos outros. E ele tinha talento pra isso. Por isso, toxinas eram seu método preferido de destruição mortal.

Provavelmente ele só ia atiçar um pouco mais e, depois, expulsá-los dali, pensou Austin. Ele ainda não tinha nenhuma vontade duradoura de bancar o consertador no desastre que Colin tinha criado.

Austin encarou a mãe. Ele tinha adiado o máximo que pôde, porque sabia que o estado dela ia mexer com ele. As mãos frágeis tremiam; ela nem ousava sustentar o olhar dele. Ela detestava a ideia de alguém um dia amaldiçoar o filho chamando-o de bastardo, mas Austin só aceitava aquilo como verdade. Ele era um filho bastardo, uma criança ilegítima, e não tinha motivo para se encolher diante dessa acusação. Os dedos da mãe apertavam a bolsa, à procura de um jeito de despejar a frustração; os lábios estavam comprimidos numa linha dura.

Austin alternou o olhar atento entre os pais. Eles tinham sido encurralados por palavras que exigiam que ficassem em silêncio. Eles tinham pena dele? Pena do filho que nunca tinha conseguido, de fato, ser aceito numa família nova? Numa família com a qual ele não tinha laços de sangue? Por quê? Tudo porque o filho legítimo deles tinha dito umas palavras grosseiras?

Austin não tinha nenhuma ilusão sobre a atitude do irmão em relação a ele. Era verdade: eles só compartilhavam a mãe. As palavras de Colin eram mais desrespeitosas com ela do que com Austin. A mãe dele… a mãe dos dois tinha se casado com o pai de Colin e, embora o homem não fosse de sangue, tinha assumido o papel de pai para Austin muito antes de Colin nascer. Ele tinha amado os dois meninos por igual; a origem de Austin não tinha sido problema até Colin ficar velho o bastante para transformar aquilo em problema.

Colin tinha crescido irresponsável, mimado e paparicado — traços que o pai deles achava que não tinham lugar no mundo dos negócios —, e por isso declarou Austin como seu herdeiro. Foi mais ou menos nessa época que a relação de Austin com Colin se tornou irreparável. Não que houvesse alguma coisa a salvar.

O irmão vivia dizendo que o filho bastardo estava tentando roubar o negócio da família, mas Austin não precisava da fortuna nem dos contatos do pai deles, e nunca os cobiçou. Austin tinha sua própria carreira de sucesso, embora secreta. Não fazia diferença que essa carreira envolvesse tirar almas do seu lugar nesta terra.

A disposição do pai deles de entregar a ele o trabalho de uma vida tinha sido sufocante e exaustiva, mas Austin seguia com zelo e cuidado, na esperança de que um dia o irmão fosse responsável o bastante para assumir as rédeas.

Austin nunca tinha pedido nada ao pai. O homem tinha acolhido Austin e a mãe quando eles não tinham nada e ninguém. Aceitou Austin quando não tinha obrigação nenhuma. Aquilo sempre bastou para Austin jurar lealdade a ele. A única coisa que Austin queria era aliviar a necessidade crescente de retribuir. Como se paga uma dívida com alguém que já tem tudo?

Talvez envenenar o filho inconsequente dele resolvesse? Austin ponderou, sombrio. Afastou o pensamento com um sorriso. Mas que seria divertido, seria.

— Colin! — Os olhos do pai deles estavam tristes. — Você não pode dizer esse tipo de coisa sobre o seu irmão. — Ele balançou a cabeça baixa, derrotado. Estava no limite. A mãe de Austin entrelaçou os dedos no braço do marido, na esperança de que ele encontrasse apoio no toque dela.

Austin entendeu aquilo como o seu momento. Ele se levantou, ajeitou os punhos do terno bem passado e encarou todos na sala. — Colin está certo. — ele sorriu de canto, saboreando o jeito como Colin estremeceu sob o olhar dele. — O nosso relacionamento fica bem aquém de um laço de família; então eu não vi motivo nenhum para você aparecer na minha casa esta noite. — disse, para Colin.

— Como se eu fosse pôr os pés, por vontade própria, nessa monstruosidade que você chama de lar. — Colin cuspiu as palavras, virando-se de supetão, com os braços cruzados sobre o peito.

— Acho que você deixou bem claro que é dono das próprias decisões. — Austin retrucou, com um humor calculado, feito sob medida para irritar e provocar o irmão; a pequena vingança que prometia acalmar o próprio ego. Nada do que Austin planejava dava errado. Colin se virou de novo para encarar Austin, a intenção evidente e cruel. Ele estava decidido a ir embora. Austin se deu por satisfeito com a reação que conseguiu arrancar dele. Já estava pronto para pedir que os pais fizessem o mesmo. Ele não podia ajudá-los. Havia virtude em saber quando a batalha estava perdida.

— Ah, meu Deus... — A mãe contornou a mesa num sobressalto e pegou a mão de Austin entre as dela. Espinhos gelados, puxados do ar e guardados nas pontas dos dedos, passaram para a pele dele. — Você não pode nos ajudar a consertar isso? Seu pai ficaria humilhado se isso viesse à tona. — Ela deslizou os dedos frágeis e frios para envolver a dobra do cotovelo dele.

Austin olhou para o pai e suspirou. Ele parecia um homem que tinha perdido qualquer chance de esperança. O próprio filho biológico saindo de casa, frustrado, sem a menor intenção de remediar o erro que estava cometendo. Era terrível que Colin não sentisse afeto nenhum pela criança que estava prestes a trazer ao mundo — aquela constatação acertando em cheio um nervo exposto que Austin jurava ter enfaixado e escondido do mundo, até de si mesmo. Mas algumas cicatrizes eram profundas demais, pensou. Ele decidiu interpretar aquelas emoções incômodas como seu senso inato de moralidade... bom, na medida em que ainda funcionava, afinal, ele matava gente por dinheiro.

Foi instigado pelo anjo no ombro a pagar a dívida que devia ao homem que chamava de pai. Lançou um olhar demorado para o casal à sua frente: a mãe à beira das lágrimas, os olhos prestes a transbordar de tanto tentar conter a força esmagadora; o marido envolvendo-a com os braços, dando tapinhas reconfortantes nos ombros dela.

Austin suspirou. Deus me livre ele estar piorando ainda mais as coisas, mas as palavras jorraram sem que pensasse melhor, com medo de abandonar qualquer ideia de retribuição ou de moralidade.

— Se ele não quiser casar com ela, eu caso.


NOTA DA AUTORA

Este é o segundo volume da minha série Assassins Can Love. O primeiro livro já está finalizado e disponível no anystories. O nome dele é His Tempting Captive.

Edit: estou escrevendo o livro 3; sigam meu Instagram ou falem comigo no Facebook (meu nome é Shivani Gopeechand) para mais novidades!

Para quem está chegando agora nesta história, muito obrigada pelo apoio! Espero que vocês gostem. <3

As atualizações são diárias, com um capítulo por dia. Então leiam por sua conta e risco! XD

Obrigada a todo mundo que lê minhas histórias e interage comigo nos comentários. Fiquem à vontade para me dizer o que acharam! Eu adoro ouvir vocês.

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