O CONTRATO QUE MUDOU A MINHA VIDA

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Capítulo 3 Atrevida

Fernanda Gusmão

Alguns minutos depois a mulher retorna para a recepção, senta em sua cadeira acolchoada, me lança um olhar sério e diz:

— Sinto muito, mas a vaga já foi preenchida. Sendo assim, pode se retirar.

Fico indignada com a sua frieza e por praticamente ter sido enxotada como se tivesse uma doença contagiosa.

"Quem essa mulher pensa que é para me tratar desse jeito?"

"Posso ser pobre, sim, mas tenho minha dignidade. E perante Deus somos todos iguais, mas se ela não sabe disso, deixarei bastante claro e será agora."

Penso a olhando de cima a baixo, da mesma maneira que ela fez comigo desde o princípio, cruzo os braços e falo:

— Quê? Como assim, a vaga já foi preenchida? Não tem nenhuma candidata aqui nessa recepção, além de mim. A senhora sequer me olhou desde que cheguei, e com certeza deve ter fingido que iria me anunciar e ao entrar naquela sala deve ter gargalhado da minha cara, enquanto procurava essa desculpinha esfarrapada para me dar.

Solto tudo de uma vez, sempre fui atrevida e nunca levei desaforo para casa, e não seria agora que isso iria mudar. Estava sim dentro de uma multinacional, mas como eu disse antes, ninguém é melhor do que o outro e jamais devemos tratar nosso semelhante com desprezo, seja ele quem for.

Continuo com os braços cruzados a encarando, a mulher sequer retira os olhos da tela do computador, apenas bufa e com desdém diz:

— Não me faça perder tempo mocinha e se retire daqui imediatamente. Ou prefere que chame o segurança para te ajudar?

Bufei de ódio, revirei os olhos, mas nada disse. Com certeza estavam me monitorando pelas câmeras e o dono deve ser casado, e a mulher já me jogou para escanteio antes mesmo de me conhecer. Olho pela última vez para a mulher grosseira, que me olha de um jeito irônico e debochado, como se estivesse adorando me ver daquele jeito.

"Meu Deus, mais uma porta fechada, até quando isso?"

Penso deixando escapar uma lágrima no canto do olho direito, mas limpo rapidamente antes que àquela mulher percebesse e se sentisse vitoriosa ao me ver destruída.

Sai do prédio como um foguete. Eu queria fugir e desaparecer, mas não poderia fazer isso, não era justo, a minha mãe precisava de mim. Então eu tinha ser forte, por ela, por nós. Continuei caminhando sem destino, até que avistei uma praça, me sentei no banco pra descansar um pouco e em cima do mesmo encontrei um jornal todo amassado. Abri e lá havia o seguinte anuncio:

"Procura-se acompanhante..."

Só consegui ler esse trecho, porquê o restante estava rasgado.

— Droga! Que falta de sorte! — esbravejo com raiva e sinto uma gota de orvalho cair no meu rosto, estávamos na estação do inverno e o frio já estava a todo vapor

Continuo olhando aquele anúncio e a única coisa que dava pra ver era o endereço. Olho bem e não acredito no que vejo.

"Não pode ser, isso deve ser alguma brincadeira do destino."

"Acabei de sair desse lugar praticamente enxotada e agora o Senhor me envia esse papel? É alguma piada?'

Olho para o céu e balanço a cabeça em negação.

"Eu não vou lá. Não vou ser humilhada outra vez por aquela nojenta." — falo mentalmente, mas quando estava prestes a jogar o jornal no lixo uma borboleta esverdeada pousa no meu ombro, olho para ela e penso:

"Deve ser um bom sinal. Não custa tentar ir até lá pra ver, quem sabe dessa vez tenho mais sorte. Mas vou fazer isso amanhã, porque agora está tarde e minha mãe deve estar preocupada."

Peguei o jornal, coloquei dentro da minha bolsa e fui direto para casa. Ao chegar, encontro meu amigo Luan me esperando com um sorriso largo no rosto. Eu o amo de paixão, fomos criados praticamente juntos, temos um ano de diferença de idade, mas nunca rolou nada entre a gente. Confesso que de vez enquando o peguei me olhando, principalmente para o meu decote, ou quando eu andava pela casa de calcinha e sutiã quando estávamos só ele e eu. Nunca vi problema nisso, pois sempre o enxerguei como um irmão, mas confesso que eu adorava provoca-lo. Minha mãe dizia que ele não arrumava namorada por minha causa, e vice versa, que ainda iríamos nos casar. Eu sempre gargalhava daquilo, mas confesso que o Lu me excitava, quando ele ficava sem camisa, aquele corpo esbelto, forte, aqueles olhos cor de mel, era difícil segurar. Mas, por algum motivo, ainda não rolou nada.

O cumprimentei, disse que não rolou a vaga de assistente, ele fucou um pouco triste, disse que iria tentar me ajudar, mas pedi para ele deixar isso quieto, pois o que eu menos desejava era que ele tivesse problemas no trabalho por minha culpa. Entramos em casa e nós três conversamos muito, porém decidi não falar do anúncio, até porque não queria deixa-los preocupados, pois poderia ser tudo, mas estou torcendo que seja apenas acompanhante de algum idoso ou doente. Porém, não sei o que vou fazer se não der certo, meu dinheiro da recisão e do seguro desemprego praticamente estão no fim, e já temos quatro prestações da casa atrasadas. E se a gente perder aquela casa, não teremos pra onde ir e aí sim ficaremos num beco sem saída.

Nós jantamos, em seguida minha mãe foi descansar, porque estava com muitas dores no corpo. Luan e eu ficamos arrumando a cozinha, e depois ficamos até tarde assistindo a série Arrow na Netflix. Já era quase meia noite quando nos despedimos e logo depois fui dormir, ansiosa para que amanhã seja melhor do que hoje. Fiz ma breve oração e dormi em paz, pensando:

"Seja o que Deus quiser."

[...]

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