O CEO Acima da Minha Mesa

Download <O CEO Acima da Minha Mesa> grátis!

BAIXAR

Capítulo 3 Interrupção

Violet

Os telefones não param. Nunca param. Só vão revezando vozes diferentes, com níveis diferentes de senso de direito.

Às 9h17, eu já neguei três pedidos “urgentes”, remarquei duas reuniões e driblei um visitante surpresa que tentou passar pela segurança como se as regras deste prédio não valessem pra ele.

Valem.

Valem pra todo mundo.

Meu headset está quente encostado na orelha quando a próxima ligação entra e a tela pisca um número que eu não reconheço — identificador bloqueado, sem nome de empresa, sem nome. Só o tipo de chamada que não está nem aí pra minha agenda.

Eu deixo tocar uma vez. Duas. Uma hesitação controlada.

Aí atendo. “Ashcroft Industries.”

Uma pausa. Uma respiração. O peso de um homem que acha que está falando com alguém pequeno.

“Violet Pierce?”, ele pergunta.

Minha coluna enrijece sem eu me mexer.

“Sim.”

“Aqui é o detetive Calder, da polícia da cidade.”

Minha mão para sobre o teclado.

Só por uma fração de segundo. É o suficiente pro meu corpo me entregar.

Detetive. Polícia. Cidade.

Meu irmão.

Eu obrigo meus dedos a continuarem se mexendo — clicando, digitando, fazendo alguma coisa inútil só pra eu parecer normal. Deixo minha voz sem emoção. Profissional. Entediada.

“Certo”, eu digo. “Do que se trata?”

“Você que me diga”, ele responde.

Nem simpático, nem neutro. Desconfiado desde o primeiro segundo.

Eu mantenho os olhos no saguão. Nas portas de vidro. No conjunto de elevadores. Em qualquer lugar, menos no ponto do meu peito que acabou de ficar gelado.

“Se o senhor está perguntando do Drew Pierce”, eu digo, “eu já dei meu depoimento. Já registrei a ocorrência. Já entreguei—”

“Eu sei”, ele interrompe, seco. “Eu li.”

O jeito como ele fala faz parecer piada. Como se o sumiço do meu irmão fosse uma pastinha na mesa dele e eu fosse a parte chata grudada nela.

Eu engulo em seco, uma vez. Baixinho. “Então o senhor sabe tudo o que eu sei.”

Outra pausa.

Aí: “Onde a senhora estava ontem à noite, srta. Pierce?”

Meus dedos continuam batendo nas teclas. Meu calendário na tela, de repente, é a coisa mais interessante do mundo.

“Em casa”, eu digo.

“Sozinha?”

Isso não é uma pergunta normal. Não pra uma ligação normal.

“Sim.”

“Alguém confirma isso?”

Meu maxilar trava. “Por que o senhor está me perguntando isso?”

“Porque”, ele diz, calmo, “o celular do seu irmão deu sinal.”

Meu corpo inteiro fica rígido por baixo da pele.

Eu não deixo transparecer.

“Onde?”, eu pergunto, mantendo o tom objetivo — como se eu estivesse perguntando sobre uma sala de reunião.

“Antes de entrar nisso, eu quero esclarecer uma coisa”, ele diz. “Seu irmão está desaparecido faz o quê, três semanas?”

“Vinte e três dias”, eu corrijo automaticamente.

Ele solta um hum, como se estivesse anotando, como se a minha memória também fosse suspeita.

“E nesses vinte e três dias”, ele continua, “a senhora não teve notícia nenhuma dele. Nem ligação, nem mensagem, nem login em rede social. Nada.”

“Não”, eu digo.

“Mas a senhora está dizendo pra gente que ele é do tipo que simplesmente… some.”

“Eu não disse isso.”

“A senhora insinuou.”

“Eu disse que ele é adulto”, eu retruco, e me contenho na mesma hora. “Eu disse que ele já fez isso antes — ficar sumido por alguns dias. Eu não disse que ele some.”

“Vocês moram juntos?”, ele pergunta.

“Não.”

“Vê ele com frequência?”

“O máximo que dá.”

“Isso é vago.”

Eu solto o ar devagar pelo nariz, com cuidado. “Detetive, se o senhor tem algo pra me dizer, diga. Se não tem, então essa ligação está me fazendo perder tempo.”

“Ah, eu não acho que eu esteja fazendo a senhora perder tempo”, ele diz, e tem alguma coisa no tom dele que revira meu estômago. “Eu acho que a senhora só não está acostumada a receber perguntas que não consegue controlar.”

Meu aperto se fecha na caneta em cima da mesa. Não me lembro de ter pegado ela.

Eu me obrigo a largá-la.

“Eu tô no trabalho”, eu digo, mais baixo, sem emoção. “Se você tá me acusando de alguma coisa, fala de uma vez.”

Silêncio.

Aí, como se ele estivesse se divertindo: “Te acusando? Não. Ainda não.”

Meu sangue esfria.

“O que isso quer dizer?”

“Quer dizer”, ele fala, “que eu tenho algumas inconsistências que eu quero esclarecer. Pessoalmente.”

Minha boca seca. “Eu já fui aí.”

“Eu sei”, ele responde. “E você foi educada. Colaborativa. Perfeita.”

Perfeita.

Ele diz como se fosse um defeito.

“Agora eu quero que você venha de novo”, ele continua. “Hoje à noite.”

“Eu trabalho”, eu digo.

“Eu sei. Tô olhando sua comprovação de vínculo agora mesmo.”

Meu estômago despenca de novo, mas eu mantenho o rosto neutro, os olhos pra frente. O saguão ainda tá calmo. O mundo ainda tá girando.

“Por que hoje à noite?”, eu pergunto.

“Porque eu tô pedindo”, ele diz. “E porque eu não gosto de ficar nesse vai e vem de ligação quando eu tenho um caso de desaparecimento com cara de coisa errada.”

Com cara de coisa errada.

“O Drew não é ‘cara de coisa errada’”, eu digo. “Ele é uma pessoa.”

“Hum”, ele responde, sem interesse. “E pessoas fazem merda. Pessoas fogem. Pessoas se escondem. Pessoas se metem em coisas que não entendem.”

Meu coração dá uma batida dura, raivosa.

“Você acha que ele fugiu”, eu digo.

“Eu acho que aconteceu alguma coisa”, ele corrige. “E eu acho que você sabe mais do que tá dizendo.”

Eu forço um sorriso apertado, mesmo sabendo que ninguém tá vendo. Nem sei por quê. Hábito. Sobrevivência. A mesma coisa que eu uso com executivo metido a importante e vereadora irritada.

“Você tá errado”, eu digo.

“Então prova”, ele responde.

“Como?”

“Vem aqui”, ele diz. “Passa na delegacia no caminho pra casa hoje. Seis da noite.”

“Isso não é um pedido”, eu digo, e sai mais frio do que eu pretendia.

“Não”, ele concorda. “Não é.”

Uma pausa.

Aí ele acrescenta, casualmente letal: “E, Violet? Não sai da cidade.”

Minha garganta aperta. “Eu não—”

“Te vejo às seis”, ele diz, e desliga.

A linha fica muda.

Por meio segundo, eu só encaro o monitor.

Eu não pisco. Eu não respiro. Eu não me mexo.

Aí meus dedos voltam a se mover — digitando, clicando, abrindo uma janela de agenda que eu não preciso. Fazendo alguma coisa normal pra meu corpo não desabar em público.

Porque isso aqui é um saguão cheio de vidro, dinheiro e gente que adoraria me ver rachar.

Eu não vou dar isso pra eles.

E não vou dar isso pra ele também.

Eu sinto olhos em mim.

Não do outro lado da sala.

De cima.

Eu mantenho a postura perfeita. Não olho pro elevador. Não olho pra ala do escritório do Rowan. Não olho pra lugar nenhum que eu não deveria.

Mas eu sinto — como uma sombra se inclinando por cima do meu ombro.

Como atenção.

Como ameaça.

Minha tela pisca com outra chamada entrando. Waters de novo.

Claro.

Eu aperto o botão do headset sem pensar, a voz já deslizando pro profissional.

“Ashcroft Industries—”

Mas acende a linha errada. O ramal errado. O encaminhamento errado.

Eu olho pra baixo.

Meu estômago despenca.

Porque eu não atendi na linha geral.

Eu encaminhei.

Direto.

Eu encaminhei uma ligação direto pro escritório do Rowan Ashcroft.

Minha mão se sobressalta. Eu ataco os botões, tentando puxar de volta. Tentando cancelar. Tentando redirecionar. O sistema gira por uma fração de segundo — lento demais, tarde demais.

Um clique.

Conexão feita.

Eu fiz merda.

E Rowan Ashcroft não tolera esse tipo de merda.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo