O Alfa Me Escolheu

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Capítulo 6

POV do Julian

Eu estava sentado no carro, com o motor ligado em ponto morto, observando a luz na janela dela.

O prédio antigo parecia ainda mais caindo aos pedaços no escuro — tinta descascando, escadas de concreto rachadas, um poste piscando que mal iluminava a entrada.

A luz na janela dela finalmente se apagou.

Eu devia ir embora. Devia voltar pro hotel e revisar o material do briefing de amanhã. Mas alguma coisa me mantinha ali, encarando aquela janela agora escura, com meu lobo inquieto sob a pele.

Meu celular tocou, estilhaçando o silêncio. O nome do Ethan apareceu na tela.

— Senhor, onde o senhor está? — a voz dele era objetiva como sempre, sem rodeios.

— Na rua. — Engatei o carro, mas ainda não saí. — Precisava respirar um pouco.

— Entendido. — Se ele notou algo estranho no meu tom, não comentou. — Estou ligando por causa da agenda de amanhã. Reunião de manhã com o Comitê de Desenvolvimento Regional às nove, e depois temos que estar no Escritório Regional da DSW em Silverton às duas da tarde.

— Tá.

Olhei mais uma vez para aquela janela apagada. Aí, por fim, arranquei da guia.


POV da Nora

A manhã seguinte me acertou como uma marretada.

Acordei com o coração disparado, a sensação fantasma de garras a poucos centímetros do meu rosto ainda vívida.

Ela realmente podia ter me matado.

O pensamento embrulhou meu estômago. Apertei as palmas das mãos contra os olhos, me obrigando a respirar devagar.

Eu devia denunciar? A pergunta tinha me mantido acordada metade da noite. Mas o que eu diria? Uma licana me atacou, só que eu não tenho ferimentos, não tenho testemunhas além do homem que impediu, e a agressora é a esposa de um dos magnatas mais poderosos da região?

O sistema jurídico devia proteger os humanos. A Lei de Integração das Espécies dizia que éramos iguais. Mas eu trabalhava na DSW havia tempo suficiente pra saber como as coisas funcionavam de verdade. Os lycans tinham dinheiro. Advogados. Influência. Eu não tinha nada além da minha palavra contra a dela.

Deixa isso pra lá, eu disse a mim mesma. Foca no trabalho. Fica longe do Kyle.

Me arrastei pro escritório às oito em ponto, com olheiras que o corretivo não conseguia esconder direito. Eu tinha acabado de me sentar pra fazer café quando o interfone tocou.

— Nora. Na minha sala. Agora.

A voz do Marcus, seca como sempre.

Deixei a caneca na mesa e fui até a sala dele. Ele estava sentado atrás da escrivaninha, sem os óculos, massageando a ponte do nariz como se estivesse com dor de cabeça. Havia um documento aberto à frente dele.

— E aí, chefe?

Ele levantou os olhos pra mim, e eu peguei o cansaço na expressão dele.

— A regional de Silverton tá precisando de gente. Eles chamam de “treinamento”, mas o que isso significa de verdade é que a gente vai emprestar funcionários. Vou mandar você e o Ben.

Eu pisquei.

— Por quanto tempo?

— Mais ou menos um mês. — Ele fez uma pausa, e algo que parecia culpa atravessou o rosto dele. — Olha, você sabe como tá. Corte de orçamento, gente pedindo demissão... A gente mal tá conseguindo manter isso aqui funcionando. A sede tá obrigando todas as filiais a “compartilhar recursos”, o que, na prática, significa que escritórios pequenos como o nosso têm que limpar a bagunça do escritório grande.

Ele empurrou o documento na minha direção. “Só pra você ficar avisada — o volume de casos em Silverton não é mais leve do que o nosso.”

Mais uma missão temporária. Clássico.

“Quando a gente sai?”

“Hoje à tarde”, disse Marcus. “Eu já avisei o Ben. Arruma teu equipamento e cai na estrada. Dirige com cuidado.”

Assenti. “Entendido.”


À uma da tarde, eu e o Ben já tínhamos carregado o carro com o nosso equipamento — caixas de arquivos, câmeras corporais e alguns itens pessoais — e pegamos a estrada.

O trânsito estava tranquilo na rodovia, e o céu fechado prometia neve pesada.

Meu celular vibrou. O nome do Kyle na tela. Eu recusei a ligação.

Aí vieram as mensagens.

Kyle: Nora, por favor. Não fica com raiva.

Kyle: Eu te amo. Isso não mudou.

Kyle: Só me dá uma chance de consertar isso.

Kyle: Você tá me ignorando? Nora, me responde.

Kyle: Eu vou atrás de você. A gente precisa conversar.

Bloqueei o número dele.

“Aquele desgraçado ainda tem coragem de falar com você?”, perguntou Benjamin, em voz baixa.

“Tem.”

“Você vai responder?”

“Não.”

“Então esquece ele. Vamos falar de coisa mais leve”, ele disse, com uma mão no volante. “E aí, qual é a de Silverton?”

Folheei o resumo do Marcus. “Na maior parte, rescaldo de família Alfa. Acidentes industriais, casos de paternidade, indenização por danos em acessos de fúria... Você sabe. Época de agitação.”

“Parece emocionante.” Ben sorriu. “Vai que a gente conhece gente importante.”

Eu não respondi. Do lado de fora da janela, a paisagem passava — fábricas abandonadas, trilhos enferrujados, árvores mortas espalhadas. Cenário típico de região industrial decadente. Um dia foi o coração industrial do país; agora, só ruína e silêncio.

Se o meu pai ainda estivesse vivo, o que ele acharia disso tudo? De repente pensei no meu pai, o representante sindical que bateu de frente com os empresários pelos direitos dos trabalhadores e que, no fim, morreu num acidente de trânsito. Minha mãe teve um colapso por causa disso e, com o tempo, acabou tendo que ser internada num hospital psiquiátrico.

“Nora?” Ben percebeu meu silêncio. “No que você tá pensando?”

“Em nada.” Voltei a mim. “Só presta atenção na direção.”


A batida veio do nada.

Uma caminhonete preta, de repente, jogou para fora da faixa da direita, rápida demais, totalmente fora de controle. Benjamin puxou o volante com força para desviar, mas a frente da caminhonete já tinha acertado em cheio a nossa lateral direita.

O impacto brutal fez o carro inteiro rolar para a esquerda — senti o mundo girar, ouvi o guincho agudo de metal retorcendo e vidro estourando. O airbag abriu, batendo no meu rosto, e na hora encheu meu nariz com cheiro de pólvora.

O carro capotou uma vez e meia antes de finalmente parar no acostamento, com o teto no chão.

Eu fiquei pendurada de cabeça para baixo, presa pelo cinto, encarando o teto que, de algum jeito, agora estava embaixo de mim.

Pela janela, vi o veículo que tinha batido e fugido acelerando e indo embora.

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