Capítulo 5
POV do Julian
Victoria ficou paralisada. Os seguranças dela enrijeceram. E ela ergueu os olhos, arregalados de choque.
Eu pisei no acostamento, deixando que eles me vissem por inteiro.
Sustentei o olhar de Victoria, deixei que ela enxergasse a fúria nos meus olhos, e rosnei baixo, contínuo. Era um som que dizia: Tenta. Me dá um motivo.
Ela deu um passo para trás, afastando-se da garota, a transformação dela falhando no meio do caminho, as garras recolhendo um pouco. Eu já conseguia sentir o cheiro do medo dela — forte, ácido.
Ótimo.
Comecei a voltar à forma humana, sentindo meus ossos se rearranjarem, meu corpo se compactar. A Mudança doía como sempre, mas eu já estava acostumado. Em instantes, eu estava no acostamento em forma humana, sem camisa, os olhos ainda ardendo com aquele prateado de lobo.
— Sr. Sterling, o senhor não está ainda em... — a voz de Victoria tremeu de leve. — Eu não... isso não é...
— Não é o quê? — minha voz saiu áspera, ainda meio rosnado. — Não é agressão? Não é uma Alfa usando a Mudança para ameaçar uma humana? Porque foi exatamente isso que eu acabei de ver, Sra. Vaughn.
Ela abriu a boca, fechou, abriu de novo.
— O senhor está entendendo errado—
— Lei de Integração de Espécies, Seção 47 — eu disse, agora com a voz perigosamente calma. — Qualquer licano que use a Mudança ou ameace violência física contra um humano responde a processo federal. Esta rodovia é área federal. Aqui, a jurisdição é minha.
A cor sumiu do rosto dela.
— Sra. Vaughn. Sugiro que a senhora e seus homens voltem para o veículo e vão embora. Agora.
— Sr. Sterling, eu posso explicar—
— Não tem nada para explicar. Eu vi o que eu vi. — Dei um passo na direção dela, e ela realmente recuou, num sobressalto. — A Vaughn Mining está sob revisão ambiental federal neste momento. Sugiro que a senhora pense com muito cuidado nas suas próximas atitudes.
Aquilo foi o suficiente. O rosto de Victoria foi do pálido ao branco. Sem dizer mais nada, ela se virou e foi a passos duros até a SUV, com os seguranças indo atrás às pressas.
O veículo arrancou cantando pneu, levantando cascalho, e sumiu na noite.
POV da Nora
De repente, tudo ficou silencioso.
Só a minha respiração acelerada restou.
O homem se virou e olhou para mim.
Ele se aproximou e se agachou, deixando o olhar dele na mesma altura do meu.
— Você se machucou?
A voz dele estava muito mais gentil agora, nada parecida com o julgamento frio de minutos atrás.
Balancei a cabeça, mas minha voz tremeu.
— Eu tô bem... só um pouco...
Tentei me levantar, para provar que estava mesmo bem, mas minhas pernas simplesmente se recusaram a funcionar. Medo, adrenalina e tudo o que tinha acontecido hoje — tudo pesou em cima de mim, tornando impossível até ficar de pé.
Quando a minha segunda tentativa falhou, ele não esperou mais.
Ele simplesmente me pegou no colo.
— Ei, espera, você— — soltei um som de surpresa, tentando me soltar por instinto.
— Não se mexe. — A voz dele tinha autoridade, e meu corpo obedeceu na hora, mesmo com a minha mente ainda protestando.
— Meu carro tá ali — ele disse, direto. — Vou te levar de volta.
Eu queria dizer que podia chamar meu próprio transporte, mas as palavras morreram na minha boca. O motorista do táxi já tinha sido enxotado pela Victoria fazia tempo. E, para falar a verdade, eu realmente não queria ficar sozinha agora.
— Tá bom — eu disse baixinho.
Eu sentia o calor do peito dele, ouvia o coração dele batendo firme. O meu próprio coração disparava, fosse por medo ou por outra coisa, eu não sabia.
Depois de andar um bom trecho pela mata, finalmente chegamos ao lugar onde ele tinha estacionado.
Ele me colocou no banco de trás de um Lincoln preto. O interior era limpo e organizado, com um cheiro leve de cedro e couro.
Ele pegou uma camisa preta de algum lugar e vestiu, então entrou no banco do motorista.
— Onde você mora? — ele ligou o motor.
— No bairro antigo de Blackwood. — Eu passei o endereço, com a voz ainda trêmula.
Ele assentiu e entrou na rodovia.
O carro ficou em silêncio. Só o ronco baixo do motor e o barulho do aquecedor.
Eu encostei a cabeça no vidro, vendo as sombras das árvores passarem rápido lá fora.
Tudo o que aconteceu esta noite voltou com força, como uma maré. A traição do Kyle. A humilhação da Victoria. Eu sendo arrancada do carro. Aquelas garras afiadas...
Fechei os olhos, e as lágrimas caíram em silêncio.
Eu achei que já tinha chorado o suficiente. Achei que, no táxi, tinha derramado todas as minhas lágrimas. Mas, pelo visto, ainda tinha mais.
Algo foi colocado com cuidado no apoio de braço, ao lado da minha mão.
Abri os olhos e vi um pacote de lenços.
— Obrigada. — falei baixo, pegando os lenços e enxugando as lágrimas.
Respirei fundo, tentando controlar as emoções. Eu já tinha me feito passar vergonha demais na frente de um estranho.
Já passou, eu disse a mim mesma. Não pensa mais nisso.
O carro continuou andando. Pelo retrovisor, eu roubei um olhar para o homem.
Ele estava concentrado na estrada, o perfil marcado sob a luz fraca do painel.
Quem era ele?
Ele claramente não era um lycan qualquer. Aquele tipo de dominância, aquele poder que fez a Victoria se submeter na hora...
O sedã preto entrou no bairro antigo de Blackwood e parou em frente ao meu prédio.
Ele desceu, foi até a porta de trás e abriu.
Minhas pernas já tinham recuperado um pouco de força, e eu conseguia me sustentar sozinha.
Ergui o olhar para ele. Mesmo sob a iluminação fraca do poste, aqueles olhos cinza-prateados continuavam brilhantes.
— Obrigada. — Respirei fundo, tentando firmar a voz. — Hoje à noite... se não fosse por você...
Minha voz ainda tremia um pouco. Eu não queria pensar no que teria acontecido se ele não tivesse aparecido.
Ele balançou a cabeça.
— De nada. — O tom dele era calmo.
Eu hesitei e disse:
— Eu... eu ainda não sei o seu nome.
— Julian Sterling.
Repeti o nome na cabeça, tentando gravar.
— Eu sou Nora Grey.
Ele assentiu, sem dizer nada.
— Entra — ele falou. — Está frio.
Assenti e me virei em direção ao prédio.
Depois de alguns passos, não consegui evitar olhar para trás.
Ele ainda estava ao lado do carro, me observando.
Entrei rápido no saguão e subi as escadas. Só quando eu estava em segurança dentro do meu apartamento, com a porta fechada, encostada nela, foi que finalmente me permiti relaxar de verdade.
Meu celular vibrou. Benjamin.
— Nora! Onde é que você se meteu? — a voz dele estava tensa de preocupação. — A gente ficou esperando quase uma hora.
— Eu estou bem. — Eu o interrompi antes que ele começasse a entrar em pânico. — Só estou cansada. Peguei um táxi e voltei pra casa.
— Tem certeza? Porque eu pensei que aquele babaca—
— Tenho, Ben. — Eu forcei firmeza na voz, mesmo com o cansaço pesando em cada palavra. — Eu só precisava ficar sozinha. Te vejo amanhã, tá?
O silêncio se estendeu entre nós, tempo suficiente para eu ouvir ele pensando, ponderando se insistia. Por fim:
— ...Tá bom. Mas se você precisar de qualquer coisa—
— Eu sei. Boa noite, Ben.
Encerrei a chamada.
Eu não tinha energia pra tomar banho. Nem troquei de roupa. Só desabei na cama e fechei os olhos, tentando bloquear tudo o que aconteceu esta noite.
Mas minha mente insistia em voltar para aqueles olhos cinza-prateados. Profundos, calmos, carregando uma autoridade à qual eu não conseguia resistir. E, ainda assim, quando ele olhou pra mim, tinha outra coisa por baixo. Algo quase... gentil.
Por que ele me ajudou?
Por fim, o cansaço venceu. Eu caí num sono sem sonhos.
